O meu segundo clube

Gosto do Arsenal. Ao contrário do que acontece com o meu “primeiro” clube, de que sou adepto desde tempos imemoriais e por razões que a própria razão desconhece, sei explicar a origem da minha paixão pelos gunners. O Arsenal é de Londres, a melhor cidade do mundo, equipa de vermelho, uma razão tão aceitável como qualquer outra, e é o clube de alguns amigos, reais e “platónicos”. Um deles é Nick Hornby, autor dos romances Alta Fidelidade e Era Uma Vez um Rapaz e da autobiografia Febre no Estádio.

Há alguns meses comprei o seu livro Stuff I’ve Been Reading, um pequeno volume, com uma capa simples, a amarelo, e título em alto­-relevo, que reúne as crónicas que o autor assina todos os meses na revista The Believer. Trata-­se de uma revista literária norte­-americana. E os textos de Nick Hornby são sobre isso mesmo, livros. Pelo meio, encontra invariavelmente uma forma de falar sobre futebol, e sobre o seu clube. Em agosto de 2006 escreveu precisamente sobre a derrota do Arsenal frente ao Barcelona na final da Liga dos Campeões (golo de Campbell para os londrinos; Eto’o e Belletti para o ‘Barça’), cometendo a proeza de ligar o tema ao seu desejo de se mudar para Oxford, Mississippi, para ficar perto da poeta Beth Ann Fennelly.

Nick Hornby, está visto, é ‘louco’ por futebol. E ‘doente’ pelo Arsenal, o emblema da classe trabalhadora de Londres, dos descendentes dos irlandeses, que ajudaram a ampliar a cidade no início do século XX, o clube do povo. Entre os seus adeptos estão David Gilmour, Roger Waters ou Mick Jagger, para nos ficarmos pela música, e Isabel II, se quisermos atingir o topo da escala social britânica. A “descoberta” da existência desta adepta soberana aconteceu apenas em 2007, quando a própria rainha o confessou a Arsène Wenger durante uma recepção – alguma sorte e uma cerimónia mais demorada e teríamos visto Isabel II pedir um autógrafo a Cesc Fabrègas, com quem conversou demoradamente.

Mas a razão mais importante para eu gostar do Arsenal talvez seja a associação que faço entre o clube e a literatura – e isso acontece graças a Nick Hornby e à cultura anglo­saxónica. Bem sei que Lobo Antunes gosta de futebol, e que Saramago não ficava completamente indiferente ao rolar da bola. Mas em matéria de futebol e literatura, Nick Hornby é de outra liga. Tal como o Arsenal. Perguntem a Jorge Jesus.

 

[Publicado na edição de Setembro de 2014 da Revista Futebolista]

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