Las Vegas: para a piscina europeia, por favor

Alguém disse um dia que viajar é o melhor antídoto contra a xenofobia. Eu pude comprová-lo há uns anos, quando tive a sorte de visitar Las Vegas. Fiquei no 10º piso do Encore at Wynn, com vista para o deserto do Nevada, passeei pela Strip, fui a clubes nocturnos impróprios para meninos e estreei-me a jogar póquer. Ir a Las Vegas não é diferente de visitar Paris ou Copenhaga. São as pessoas que fazem as cidades e as pessoas tendem a ter os mesmos defeitos em todo o mundo.

Numa tarde, desci do quarto e fui até à piscina. Era verão, o que significa que a temperatura ultrapassava facilmente os 40º. Comprei os calções de banho mais baratos que encontrei no centro comercial do hotel, recolhi a minha toalha e entrei na piscina a temer pela sanidade mental. Las Vegas é um paraíso para bachelors, latinos com problemas de peso, jogadores de blackjack de todo o mundo, aspirantes a estrelas de reality shows, mulheres com silicone excessivo, transsexuais, traficantes de droga, mafiosos mexicanos – em geral, gente pouco recomendável.

No entanto, a piscina do hotel aparentava uma pacatez que contrariava o senso-comum: famílias a tomar banhos de sol, senhoras a ler romances de quinta categoria, crianças a brincar dentro de água, uma calma contra-intuitiva. A um canto, uma placa indicava European Pool – This Way. Havia, portanto, uma segunda piscina; e era “Europeia”. Intrigado, lá fui, tão europeu quanto possível (branco como cal, com uns chinelos ridículos, calções low cost e a toalha ao ombro). Um pequeno carreiro entre árvores e relvados, um caminho sinuoso, conduzia à misteriosa piscina. E eis que Las Vegas se revelou em todo o seu esplendor. Dezenas de jovens norte-americanos bebiam cocktails enfeitados com coloridas sombrinhas de papel. A um canto, duas mulheres de ascendência oriental faziam topless, peitos redondos, demasiado redondos. Artificialmente redondos. Deitadas nas espreguiçadeiras, eram o centro das atenções, o alvo dos olhares dos WASP. Nem sombra de crianças. Nem sombra de respeitosas senhoras de família. À minha volta, as aspirantes a Paris Hilton e Kim Kardashians conversavam à beira da piscina enquanto chapinhavam com os pés na água, toda a gente em topless, 50 Cent nas colunas, cervejas a passar de mão em mão. E mais mulheres em topless. E mais homens boquiabertos.

Observei, tão recatado quanto me foi possível, e rapidamente me cansei do cenário, que poderia facilmente entrar num episódio de CSI Las vegas com uma participação especial daquele rapaz-rapper que foi casado com Britney Spears. Uma cerveja e quinze dólares e vinte minutos depois, regressei à piscina conservadora.

Moral da história: nunca é tarde para nos conhecermos a nós mesmos, ainda que para isso tenhamos de aprender a terminologia da indústria hoteleira norte-americana. E porque é viajar um antídoto contra a xenofobia? Digamos que para os norte-americanos, nós, europeus, somos uns libertinos não é isso que nós pensamos deles?

 

“The secluded european pool at Encore allows for topless sunbathing.”
encore2

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s