Barcelona para ingénuos

Tinha pele escura, extensões no cabelo, os lábios pintados de vermelho, argolas exageradas nas orelhas. Abordou-me enquanto eu descia as Ramblas, acabado de sair do hotel, em busca de um restaurante de tapas para jantar.

Durante o dia, as Ramblas acolhem calorosamente os turistas. Há cartunistas a vender retratos de Lionel Messi e camisolas de contrafacção do FC Barcelona, muita gente atarefada, homens-estátua, floristas e cafés. À noite, quando sobram apenas os restaurantes e o bas fond, as Ramblas perdem a virgindade.

A mulher de pele negra e camisola tigresse foi a primeira a abordar-me. Ofereceu-me os seus serviços, que eu agradeci gentilmente – pero no. Algumas dezenas de metros à frente, fui novamente aliciado. Mais explícita, a mulher esboçou algumas frases em inglês para me elucidar sobre o que eu poderia fazer com ela. Como eu não estivesse interessado, tentou seduzir-me com um bónus:

«No condom, darling. Thirty euros.»

Respondi-lhe, tentado manter o passo largo, que pretendia apenas gastar vinte, mas no jantar. Na mesma noite, na mesma travessia das Ramblas, na mesma demanda por um restaurante de tapas, aproximou-se de mim uma terceira mulher a prometer momentos inesquecíveis num dos becos que ladeiam a avenida. Intrigado, conversei com ela durante alguns segundos. O seu castelhano estava longe de ser perfeito, mas ela dominava a gíria da profissão o suficiente para se fazer entender. Era nigeriana e sobrevivia em Barcelona havia já três anos. Desabafou por momentos. Queria regressar ao seu país e rever a família. Vencida pelo cansaço e como eu não denotasse interesse em gastar dinheiro com ela, despediu-se, soprando um beijo na minha direcção.

Depois disso, regressei à capital da Catalunha quatro vezes e não voltei a ver prostitutas nas Ramblas. Há dias, a leitura de um artigo num jornal da região desfez o mistério. Afinal, elas não partiram. Limitaram-se a mudar de local. As antigas prostitutas das Ramblas encontram-se agora no Bairro Gótico. Consta que as suas actividades decorrem na rua Petritxol, precisamente por baixo da imagem da Virgen de la Mercè, onde as velhinhas da cidade acendem velas durante o dia, o que não deixa de ser irónico. Enfim, tal como as Ramblas, também o Bairro Gótico perde a virgindade quando a noite cai. E tal como nos turistas ficam à mercê, das senhoras da vida.

[Publicado originalmente a 23 de Maio de 2014, no Facebook. Fotografia: Christian Maury/El Mundo.]

 

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