exercício sem estilo

Há dias em que sinto triste.

Acontece-me por vezes fazer uso da tristeza para me elevar a alma. Sento-me junto à janela, como se a minha janela, que dá para uma rua feia e também ela triste, me deixasse ver todo o mundo, e as paisagens que surgem nas revistas de viagens, e os ambientes que me querem vender as agências. Também eu já viajei e fiz dessas paisagens um pano de fundo da mente. Nesses dias, dizia, sento-me junto à janela e vejo Londres, a civilização, e vejo Copenhaga, organizada e simples, e observo a eterna Roma, a majestosa Berlim, a adolescente Nova Iorque, a pecaminosa Las Vegas. Tudo isso vi, tudo isso lembro, e continuo a sentir-me triste.

Há dias, outros, em que me sinto apenas só. Sento-me novamente à janela e recordo o meu guia em Jura, um velhote dos seus oitenta anos, que me levou a subir um monte com vista para um remoinho onde George Orwell quase morreu afogado. Recordo todas as empregadas de hotel, e todas as hospedeiras de bordo, e todos os barmen que me serviram e me sorriram.

Não há maior beleza do que recordar vidas passadas e retirar delas o sustento para momentos de fraqueza. As minhas vidas passadas foram apenas enganos, meros acidentes de percurso. Eu queria, de forma alguma parecendo nostálgico, trazê-las de volta mas apenas na forma de memórias felizes.

Há dias em que me invade o frio. Como escreveu Bernardo Soares, “não um frio que há no espaço, mas um frio que há em eu ser o espaço.” Sou, em quase todas as fases da minha existência, um urso polar, vagando pelas calotes da alma, enregelado e predando espécies menores. As minhas presas são aves e são espécies aquáticas e quase todas me subestimam. Todas têm a oportunidade de escapar e quase todas eu caço com sucesso.

***

Saí de casa e constipei-me. Passei o dia a espirrar, como que para lembrar-me que nada há de interessante lá fora. Trouxe a doença para casa e encerrei-a no quarto comigo. Passámos bons momentos, oh sim. A minha casa tem tudo aquilo de que preciso; é inútil abandoná-la. Encomendei os víveres pela Internet, comprei um livro, naveguei pelos museus do mundo, aprendi a coser um botão, para não pedir a uma mulher que mo fizesse. Um dia hei-de tornar-me autosuficiente, verdadeiramente independente. Como o urso polar, que nada tem que fazer além de alimentar-se – e tal como eu, que colho o meu alimento na Memória, junto à janela, enquanto chove.

E, de repente, não mais estou triste. Não me sinto frio, nem só. Sinto um orgulho atroz na minha antropofagia, na misantropia, em não pertencer a nada, em alimentar-me da gente.

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