os homens também coram

Eu não gostava de Cristiano Ronaldo.
Achava-o altivo, rude e (mal) habituado às perguntas estéreis e laudatórias de Nuno Luz e de Daniel Oliveira. Um dia, enquanto repórter da revista GQ, fui convidado para ir a Madrid acompanhar o lançamento de uma linha de roupa desportiva criada por uma conhecida marca dedicada a Cristiano Ronaldo. E foi então que a minha opinião sobre o homem mudou.
Nas Ciências da Comunicação este tipo de acontecimento – as apresentações à imprensa – é conhecido por “pseudo-evento”, ou seja, um acontecimento cujo objectivo é criar “buzz” e “vender”, um produto, uma marca ou uma pessoa. Por isso, fui até Madrid com as defesas em cima. Houve lugar a uma conferência de imprensa, com a presença de jornalistas de todo o mundo, anciãos da Gazetta dello Sport, jovens periodistas da Marca e repórteres de revistas de lifestyle. E eu, a uns meros dois metros de Ronaldo. Interpelei o avançado do Real Madrid em português e obtive uma resposta lacónica. De repente, a meu lado, um jornalista chinês fez uma pergunta num castelhano incompreensível. Foi então que Ronaldo, o super-herói, o indomável avançado, o temível goleador, se apresentou perante a plateia enquanto ser humano: corou. Durante segundos, a expressão de CR7 foi a de uma criança apanhada em falso, a expressão de alguém que receia cometer uma gaffe, ou que “não sabe onde se meter”. Incapaz de resolver o embaraço, virou a cara na minha direção e, com um olhar pesado e sem murmurar palavra, pediu-me ajuda.
Christopher Hitchens, carismático cronista da Vanity Fair, a quem nunca é demais prestar as devidas vénias, exortava-nos a pensar em todos os “especialistas” enquanto meros mamíferos. O que o jornalista queria dizer era que não idolatrássemos outros seres humanos. As pessoas olham para Ronaldo, criam dele uma ideia a esperam que ele corresponda – tal como ficam chocadas por saber que Maradona agrediu a namorada ou que Messi não pagou os seus impostos na totalidade. Naquele dia, em Madrid, enquanto traduzia a pergunta do jornalista chinês, que tremia, concluí aquilo que devia ser óbvio para todos. É verdade que Ronaldo marca muitos golos e ganha ainda mais dinheiro, mas é um ser humano como qualquer um de nós. Pode ser apanhado em falso, pode viver momentos embaraçosos. Pode ficar sem palavras. Afinal de contas, Ronaldo também cora.

[Texto publicado na edição de Dezembro da revista Futebolista.]

revista futebolista

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s