ao meu avô

Os dias continuam a passar, lentos, teimando em deixar nada de memorável para trás. As minhas recordações de infância – noites suaves e quentes de Verões felizes, o murmúrio do campo, o vento a bater uma seara, a criança que sou e que brinca na rua, aninhar a cabeça no seu colo, plantar, semear e colher de acordo com as estações – são apenas memórias de um tempo que não volta.

Destes dias, anódinos, nada restará. O mundo e as suas consequências corrompem-nos o espírito e a alma e deixam-nos rastejantes e impotentes. As ruas estão agora cheias de gente que nada tem, mas que foi feliz, um dia. Gente que arrasta os pés e abrigos de cartão. E eu penso em nós dois, e em como conversávamos sobre um passado que eu não vivi mas que conheci pelas suas experiências. E como nos revoltávamos. Os esfomeados sobrevivem. E ainda assim há quem os persiga, extorquindo-lhes uma última gota de suor, uma lágrima final, uma derradeira gota de sangue. Eu continuo com eles, com os indigentes, com os infelizes, cada um à sua maneira – a cada qual a infelicidade nossa de cada dia, amém.

Também eu sou um indigente, um desenraizado, triste e compulsivamente só. Estou com os que buscam Deus no fundo de uma garrafa de vinho, para compensar a perda de um amor, de um filho, de um pai, de uma amizade, de uma conta bancária, de um tecto. Estou em comunhão com eles, como nós dois estivemos um dia.

Não tenho qualidades. Fosse revolucionário e mudaria o mundo. E tudo isto me entristece profundamente e me conduz a um choro inerte e real. E esta minha tristeza é ínfima quando comparada com a dos que nada – nada!, meu Deus – têm. Escrever é fútil, viver é triste. E no entanto, alimento-me desta tristeza para deixar surgir uma frase vã e mundana, e outra, e outra. Não as de todos os dias, inócuas e miseráveis, mas as deste momento, sentidas e tristes, e, tal como eu, simples e fátuas. Isto é tudo e é nada e é apenas o que sei. Porque todos os dias o recordo e raramente lhe escrevo.

Saudade. Para sempre.

[Publicado originalmente a 27 de Janeiro de 2014, no Facebook. Fotografia: “Old Hands”, McCory James, em https://www.flickr.com/photos/mccoryjames/]

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s