Lisbon south quê?

Portugal é um país de desígnios. Recentemente foi notícia uma brilhante ideia dos autarcas de Seixal, Almada e Barreiro, em colaboração com a empresa pública Baía do Tejo: juntar os três municípios, integrados no Arco Ribeirinho Sul, e chamar-lhes Lisbon South Bay.

Até prova em contrário, o ‘naming’ – são palavras deles – Lisbon South Bay não trará a Google para o Miratejo, não fará surgir start-ups ao lado do Almada Fórum, não transformará a Aroeira nuns Hamptons nem fará do Vale da Amoreira um Brooklyn pronto a acolher lojas de grife, it girls e bandas de rock & roll. Mais do que uma ideia embaraçosa, a Lisbon South Bay parece-me um tiro nos bicos dos pés em que os distintos autarcas se colocaram ao comunicar a sua criação.

Há uns anos, ficou tristemente célebre a campanha West Coast of Europe, com fotografias do senhor Nick Knight pagas a peso de ouro. De resto foi uma campanha liderada pelo ministro Manuel Pinho que, em 2007, apontava para o crescimento de 50% no número de campos de golfe no Algarve, e, em 2010, era comissário da candidatura nacional à Ryder Cup. A campanha Allgarve surgiu em simultâneo e, em tempos mais recentes, a menção ao pastel de nata como possível catalisador das exportações da pátria. Felizmente, todas elas tiveram felizes mortes prematuras.

Lamento que os três autarcas se tenham rendido ao desígnio do turismo, quando dificilmente o Ecomuseu da Arrentela pode atrair mais do que algumas visitas de estudo de escolas do concelho e quando em tudo o resto – do Cristo Rei às praias da Costa da Caparica – a Margem Sul faz já, para todos os efeitos, parte de Lisboa. Para não exigir demasiado, talvez fosse uma boa ideia apostar na indústria, voltar a produzir, contribuir para o aumento de qualidade do comércio, ou, em alternativa, acabar com os bairros de lata. Lisboa – com o turismo de massas, a degradação arquitectónica, o lixo nas ruas, a péssima educação dos residentes – é suficientemente má sozinha. Não se queiram juntar a ela.

[Texto publicado na edição de 17 de Julho de 2015 do jornal Comércio do Seixal e Sesimbra. PDF aqui: http://content.yudu.com/Library/A3sldp/Edio288/resources/index.htm?referrerUrl=http%3A%2F%2Ffree.yudu.com%2Fitem%2Fdetails%2F3410135%2FEdi—-o-288%5D

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