Festa do Avante: Não há sesta como esta

Dou por mim a bocejar. Quando tiver nas mãos este número do Comércio já terá terminado mais uma edição da Festa do Avante, a que eu não fui. Fui, isso sim, e fruto de uma assinalável falta de discernimento, à de 2014 e posso garantir ao leitor menos esclarecido em termos de comunismo que, se era antes verdade que não havia “festa como esta”, hoje o palco da rentrée política do PCP transformou-se num tédio capaz de aborrecer o mais optimista dos festivaleiros de Verão.

Não me interprete mal. Para efeitos de emoção, antes tínhamos os assaltos, pela entrada contígua à Quinta da Princesa, as cargas da “segurança” e outros predicados impublicáveis que transformavam a Festa do Avante num exercício de masoquismo com alguma piada. Hoje, por muito que o palco central e as barraquinhas de Setúbal ou Beja ainda atraiam os indefectíveis do pê-cê-pê com boinas à Che Guevara e taxa de álcool à Boris Yeltsin, a Festa, que mantém a exigência de um elevado grau de masoquismo, perdeu a graça. Aburguesou-se. O visitante desprevenido desloca-se à Quinta da Atalaia esperando ouvir comentários sobre as políticas de direita do Governo, qualquer que ele seja, e depara-se com o típico “resistente” de Cuba (do Alentejo) a tecer comentários sobre a qualidade do vinho, das bifanas e da feijoada.

Os frequentadores da Festa transformaram-se em críticos gastronómicos. Não é de admirar. Todo o país está agora habitado por food writers, food critics e foodies (perdão) em geral. Um desfile de classe média que se julga esclarecida sobre o “modo de preparação” de caldo verde, sopa da pedra, açordas, feijoadas à trasmontana e francesinhas. As ponchas, os moscatéis e as ginjas já não servem para que os festivaleiros aguentem os discursos do secretário-geral, não; agora são sinónimos de savoir vivre, de estatuto social.

Aqueles que optam por ignorar a comida dedicam-se à crítica musical. Convenhamos que, por € 23, a Festa do Avante é um excelente festival de música para quem aprecia artistas do calibre de Dealema, Expensive Soul ou Txarama (?). É de duvidar que o “povo” saiba quem eles são, mas, uma vez mais, a Festa tem mais classe média com cartão de crédito e dívidas do que proletários ou camponeses calejados.

Antigamente íamos à Festa do Avante para escapar a Lisboa. Agora Lisboa infiltrou-se na Festa do Avante. Aí vem outro bocejo.

[Texto publicado na edição de 4 de Setembro de 2015 do jornal Comércio do Seixal e Sesimbra. PDF aqui: http://content.yudu.com/Library/A3wa2z/Edio291/resources/index.htm?referrerUrl=http%3A%2F%2Ffree.yudu.com%2Fitem%2Fdetails%2F3575783%2FEdi—-o-291 ]

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