geoff dyer: “Quem satiriza acaba sempre por ser satirizado”

Em 2013, fiz uma pequena entrevista a Geoff Dyer (n. 1958) a propósito do livro  Yoga para Pessoas que Não Estão para Fazer Yoga (Quetzal)o primeiro livro do romancista, crítico e ensaísta inglês a ser publicado em Portugal. Natural de Cheltenham, Inglaterra, Geoff Dyer venceu em 1992 o prémio Summerset Maugham e o WH Smith Best Travel Book Award, em 2003, precisamente por este Yoga… Um livro de viagens, sem ioga, que vai de Nova Orleães a Angkor Wat sem perder de vista o humor e o sarcasmo. Entrevista publicada na edição da GQ Portugal de Outubro de 2013.

O leitor desavisado poderia pensar que está perante um livro de auto-ajuda. Como é que o define?
Gosta da capa? É uma brincadeira que, de facto, faz lembrar um livro de auto-ajuda. Quis ser um pouco provocador e escrever um livro para pessoas que querem viajar pela leitura. O livro é uma consequência das minhas viagens, quase sempre em trabalhos de comissão para revistas, e alguns dos textos foram recuperados; outros foram reeditados.

E no entanto estamos perante um livro publicado há dez anos.
Sim, mas este é apenas um pretexto. A editora vai publicar os meus romances iniciais.

Dos destinos presentes no livro, de qual mais gostou?
Gostei de vários deles de formas diferentes, mas acho que o último texto, sobre o festival Burning Man, no Nevada, será o que mais me marcou. Leptis Magna, na Líbia, é outro dos destinos que melhor recordo. Foi uma lição de antiguidade.

Pela experiência? Yoga para Pessoas que Não Estão para Fazer Yoga está repleto de experiências… Por exemplo, o capítulo passado em Paris revela experiências com drogas. Quanto daquele texto corresponde à verdade?
Talvez 99%. Eu falo sobre a minha experiência com skunk. Durante anos, aquele foi o único tipo de haxixe disponível em Londres, e ajudou-me a ser criativo. No entanto, não o aconselharia aos adolescentes. De certa forma, está a apodrecer as mentes dos adolescentes. Eu era já adulto quando o tomei.

A sua escrita combina elementos de ficção com não-ficção. Onde é que está a linha que os separa?
Não existe: eu não desenho linha alguma. Não me importo, é apenas escrita. São tudo livros.

A data momento, cita Fernando Pessoa. É um fingidor?
Acho que provavelmente, enquanto romancista, posso dizer que sim. Os meus romances são meras variações do tema “rapaz conhece rapariga”.

O Independent on Sunday escreve que Geoff Dyer é uma mistura de Hunter S. Thompson, Roland Barthes e Paul Theroux, para concluir que este é um livro, acima de tudo, divertido. Como é que o seu humor surge?
Acho que está na minha natureza. É como sou na vida. É uma coisa inglesa, a que chamamos dry humor. Conheço pessoas em Londres que são completamente desprovidas de sentido de humor e dou comigo a pensar: “Como é possível?” Não imagino a vida sem humor, mas não me defino como um escritor cómico! Aí, sim, traço uma linha a separar o humor do escárnio e da sátira. Normalmente, quem satiriza acaba sempre por ser satirizado.

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