trump, web summit, pop galo: uma semana para esquecer

1) Fui pela primeira vez aos Estados Unidos, a Boston, em 2008, pouco mais de um mês antes da primeira eleição de Obama.

Eram as eleições do Yes, We Can, marcadas por uma fabulosa campanha de marketing que fez eleger o primeiro afro-americano para a presidência da maior potência económica e militar do mundo. Trouxe de lá um pin com a face de Obama e, principalmente, a memória de várias palavras trocadas com norte-americanos esperançosos na mudança.

A verdade é que Obama transformou-se rapidamente na maior desilusão política do início do século XXI — não devemos esquecer-nos disso. E, por isso, creio que a política falhada do Partido Democrata em relação ao Iraque e ao Afeganistão, a Guantánamo, e uma Casa Branca demasiado ocupada com o star system – vide o número de entrevistas concedidas a Oprah, as poses com os ‘artistas’ de Hollywood, com músicos de hip-hop – em detrimento das classes mais baixas são os únicos responsáveis pela ascensão de Donald Trump, um demagogo que chega sem falinhas mansas e sem conversa da treta.

Trump é um misógino, xenófobo? É. Porém, chegados a este ponto, perguntemo-nos: será mais misógino do que Bill Clinton, será mais xenófobo do que aqueles que, rodeando Hillary, conceberam a vergonhosa campanha de 2008 para a nomeação da sra. Clinton contra Obama?

Trump é um filho da mãe. Mas conseguiu conquistar uma parte importante do eleitorado norte-americano por ser precisamente um filho da mãe sem tretas. É que as pessoas preferem um candidato que diz as merdas que tem a dizer, ele próprio, ao vivo ou no Twitter, do que ‘homens do presidente’ que se ocupam a enviar media clipping, na sombra, para os opinion makers a denegrir os adversários (tal como fazia o infame Sidney Blumenthal, protector e protegido dos Clinton em casos como o de Monica Lewinsky).

Gostemos ou não, os norte-americanos elegeram Donald Trump. Resta-nos esperar que o Congresso actue no espírito tão estado-unidense dos ‘checks and balances’ e vigie de perto a actividade do presidente – apesar de ambas as câmaras serem republicanas.

Em resposta aos meus amigos que pedem a Deus que nos ajude, valerá a pena lembrar que foram precisamente esses, os que rezam, a eleger Trump?

 

2) Esta foi provavelmente a semana mais estranha, ridícula e deprimente do ano, especialmente para quem é de esquerda.

Uma semana que começou com a inauguração de um Pop Galo sem pilhas no comando, continuou com uma Web Summit sem wi-fi na abertura, com utilizadores que ficam a saber o que é o Metro de Lisboa naqueles 362 dias do ano em que não há Web Summit, com a eleição de Trump — a esquerda bem-pensante não compreendeu patavina do que se passou; um representante, homem, do movimento LGBT português arrogou-se o direito de falar pelas mulheres a escreveu que, sim, vota com a vagina, além de ter afirmado nunca ter-se sentido “tão entusiasmado com uma candidata à presidência dos EUA” (sic), pessoa essa que é provavelmente a mais comprometida de sempre com os grandes interesses corporativos a concorrer ao cargo de ‘líder do Mundo Livre’ e que apelidou uma franja da população desesperada de “saco de deploráveis”, acrescento eu — e que, finalmente, terminou com a morte de Leonard Cohen, um dos meus derradeiros cantautores (e amigo de Israel, by the way, ó criaturas altetmundialistas de pacotilha).

Uma semana terrível para quem quer pensar.

 

3) Hashtags “rape Melania” em destaque no Twitter, falsos (nem todos, certamente) relatos de crimes de ódio cometidos por apoiantes do presidente eleito e até apelos ao assassinato de Donald Trump.

Entretanto, num país europeu que caberia no “saco de deploráveis” de Clinton, a Bulgária, um general pró-Moscovo que reconhece a Crimeia como território russo acaba de ganhar as eleições presidenciais. Em consequência, o primeiro-ministro demitiu-se, instalando-se uma crise política num país do ex-Bloco de Leste que faz fronteira com Grécia, Macedónia, Sérvia, Roménia e Turquia. Já em França, as sondagens colocam Marine Le Pen cada vez mais perto de forçar uma imprevisível segunda volta nas eleições de 2017.

A esquerda não ganhou a ‘guerra cultural’ — está claramente a perdê-la.

 

 

 

 

 

 

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