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Do Fontanka ao Judeu

Sem mapa, à deriva e munido apenas da memória dos contos de Nikolai Gogol, atravessei a Avenida Nevsky, em São Petersburgo, deslumbrado com os edifícios imperiais, com a paisagem urbana absolutamente fascinante e com um desfile de personagens já não como as que retratava o autor de O Nariz mas demasiado ocidentalizadas. Subitamente, o rio Fontanka abriu-se perante o meu olhar encantado e as minhas narinas foram invadidas cheiro salgado, pleno de iodo, o odor aspirado a plenos pulmões desse outro rio a que chamam Judeu.

É um lugar-comum, mas nós, portugueses, não passamos sem o Oceano, sem o mar, sem um rio que possamos transformar em mito. Por isso, após três semanas na capital da Rússia – cujo rio, o Moscovo, não mais é do que mero curso de água quando comparado com o Tejo – bastou-me uma hora em São Petersburgo para ter esta experiência extraordinária de me ver inesperadamente transportado para casa ao atravessar a Ponte Anichkov.

Esta ponte dá nome a um palácio situado em terrenos que pertenceram outrora a um tal de Anton Manuelovitch Devier. O nome nada nos diz, especialmente se lido em cirílico, mas é a transliteração de António Manuel de Vieira. Judeu nascido em Portugal ou, com maior grau de probabilidade, na Holanda, filho de portugueses, António de Vieira foi levado de Amesterdão para a corte russa por Pedro o Grande, aquando da sua visita à Europa e por lá acabou por ficar, desposando uma princesa eslava e participando na construção da magnânima São Petersburgo.

Eu desconhecia esta história quando tive a minha epifania olfactiva e, de peito cheio, nas margens do Fontanka, fui levado de volta ao rio a que chamam Judeu. Esse era David Negro, proprietário da Quinta da Princesa e de outros terrenos no que é hoje o Seixal, durante os reinados de D. Fernando I e de D. João I e que, tal como Vieira, foi um proeminente judeu da corte, votado ao esquecimento mas cuja rica biografia é digna de reportagem.

Talvez seja necessário percorrer mais de quatro mil quilómetros, e recuperar à infância uma memória olfactiva, para constatar que a História, e, para mais, a História do Judaísmo, de facto, repete-se. Mas que pode constituir um deleite redescobri-la, entre o Fontanka e o Judeu.

 

[Publicado no n.º 20 do semanário regional O Seixalense, de 24 de Janeiro.]

uma enorme dívida de gratidão — mário soares [1924-2017]

Eu tinha quatro anos quando Mário Soares foi eleito presidente da República e 14 quando ele terminou o seu segundo mandato. Cresci a ouvir falar dele – mal e bem – e à medida que me tornei homem comecei a ver nele uma espécie de modelo, uma figura maior, a quem o país deve muito.
Bem sei que em Democracia não há dívidas de gratidão – o governo somos nós, todos. Mas se não fosse a figura de Soares Portugal não seria sequer uma democracia. Provavelmente teríamos sido uma “colónia” soviética, uma ideia contra a qual Soares se bateu fervorosamente, com coragem não só moral, intelectual, política, mas também física.
Hoje, perdemos Mário Soares, a última grande figura do nosso século XX. Mário Soares fazia parte dessa tríade de homens marcantes, com Cunhal e Salazar. Porém, é dos três, o único a quem devemos respeito, ao contrário de Salazar, que nos arrastou por uma ditadura de Direita, de tipo fascista, durante perto de cinco décadas, provocando um atraso inexorável ao país, e de Cunhal, que sonhava transformar Portugal numa espécie de Cuba da Europa, numa Roménia, numa Bulgária, num Jugoslávia, numa Checoslováquia, numa Bielorrússia.
Provavelmente, sem Soares, teríamos enfrentado uma guerra civil na sequência do Verão Quente de 1975. Provavelmente, sem Soares, só hoje estaríamos a recuperar da colagem à União Soviética. Provavelmente, sem Soares, só hoje estaríamos a aderir à UE. Provavelmente, sem Soares, teria havido perseguições políticas, deportações, assassinatos, entre 1974 e 1991, data da queda da URSS. Provavelmente, sem Soares, Álvaro Cunhal teria sido o nosso Ceaucescu.
Alguns analfabetos funcionais acusam-no de se “ter feito” com os americanos – como se houvesse alternativa – e de ser o principal responsável por uma descolonização que adjectivam de desastrosa. Pela minha parte, creio que a descolonização, com a integração no país de mais de um milhão de colonos (portugueses, brancos) foi, mais do que a possível, um caso de sucesso. Quem tece este tipo de críticas falha em concluir que Portugal estava em guerra, havia já 13 anos, com os movimentos de libertação angolanos, moçambicanos, guineenses, e que Descolonizar era um dos ‘D’ prometidos pelo 25/4, juntamente com Democratizar e Desenvolver.
Podíamos estar melhor? Certamente. Porém, eu não esqueço que, graças às ideias defendidas por Soares, temos hoje um sistema de ensino universal e gratuito, um Sistema Nacional de Saúde, possibilidade de participação na vida política do país, uma sociedade e economia abertas, eleições livres e um longo etc. só possível em Democracia – ela própria uma imposição soarista.
Soares cometeu excessos – na maior parte dos casos, “de linguagem”? Sim, de acordo. Ao contrário do ditador e do aspirante a Lenine da Península Ibérica, Soares não era perfeito. E é por isso que o prefiro. Hoje e sempre.
Obrigado, Mário Soares, curvo-me perante a sua memória.

[Os meus pensamentos estão hoje com os filhos, Isabel e João Soares, netos e restante família.]

trump, web summit, pop galo: uma semana para esquecer

1) Fui pela primeira vez aos Estados Unidos, a Boston, em 2008, pouco mais de um mês antes da primeira eleição de Obama.

Eram as eleições do Yes, We Can, marcadas por uma fabulosa campanha de marketing que fez eleger o primeiro afro-americano para a presidência da maior potência económica e militar do mundo. Trouxe de lá um pin com a face de Obama e, principalmente, a memória de várias palavras trocadas com norte-americanos esperançosos na mudança.

A verdade é que Obama transformou-se rapidamente na maior desilusão política do início do século XXI — não devemos esquecer-nos disso. E, por isso, creio que a política falhada do Partido Democrata em relação ao Iraque e ao Afeganistão, a Guantánamo, e uma Casa Branca demasiado ocupada com o star system – vide o número de entrevistas concedidas a Oprah, as poses com os ‘artistas’ de Hollywood, com músicos de hip-hop – em detrimento das classes mais baixas são os únicos responsáveis pela ascensão de Donald Trump, um demagogo que chega sem falinhas mansas e sem conversa da treta.

Trump é um misógino, xenófobo? É. Porém, chegados a este ponto, perguntemo-nos: será mais misógino do que Bill Clinton, será mais xenófobo do que aqueles que, rodeando Hillary, conceberam a vergonhosa campanha de 2008 para a nomeação da sra. Clinton contra Obama?

Trump é um filho da mãe. Mas conseguiu conquistar uma parte importante do eleitorado norte-americano por ser precisamente um filho da mãe sem tretas. É que as pessoas preferem um candidato que diz as merdas que tem a dizer, ele próprio, ao vivo ou no Twitter, do que ‘homens do presidente’ que se ocupam a enviar media clipping, na sombra, para os opinion makers a denegrir os adversários (tal como fazia o infame Sidney Blumenthal, protector e protegido dos Clinton em casos como o de Monica Lewinsky).

Gostemos ou não, os norte-americanos elegeram Donald Trump. Resta-nos esperar que o Congresso actue no espírito tão estado-unidense dos ‘checks and balances’ e vigie de perto a actividade do presidente – apesar de ambas as câmaras serem republicanas.

Em resposta aos meus amigos que pedem a Deus que nos ajude, valerá a pena lembrar que foram precisamente esses, os que rezam, a eleger Trump?

 

2) Esta foi provavelmente a semana mais estranha, ridícula e deprimente do ano, especialmente para quem é de esquerda.

Uma semana que começou com a inauguração de um Pop Galo sem pilhas no comando, continuou com uma Web Summit sem wi-fi na abertura, com utilizadores que ficam a saber o que é o Metro de Lisboa naqueles 362 dias do ano em que não há Web Summit, com a eleição de Trump — a esquerda bem-pensante não compreendeu patavina do que se passou; um representante, homem, do movimento LGBT português arrogou-se o direito de falar pelas mulheres a escreveu que, sim, vota com a vagina, além de ter afirmado nunca ter-se sentido “tão entusiasmado com uma candidata à presidência dos EUA” (sic), pessoa essa que é provavelmente a mais comprometida de sempre com os grandes interesses corporativos a concorrer ao cargo de ‘líder do Mundo Livre’ e que apelidou uma franja da população desesperada de “saco de deploráveis”, acrescento eu — e que, finalmente, terminou com a morte de Leonard Cohen, um dos meus derradeiros cantautores (e amigo de Israel, by the way, ó criaturas altetmundialistas de pacotilha).

Uma semana terrível para quem quer pensar.

 

3) Hashtags “rape Melania” em destaque no Twitter, falsos (nem todos, certamente) relatos de crimes de ódio cometidos por apoiantes do presidente eleito e até apelos ao assassinato de Donald Trump.

Entretanto, num país europeu que caberia no “saco de deploráveis” de Clinton, a Bulgária, um general pró-Moscovo que reconhece a Crimeia como território russo acaba de ganhar as eleições presidenciais. Em consequência, o primeiro-ministro demitiu-se, instalando-se uma crise política num país do ex-Bloco de Leste que faz fronteira com Grécia, Macedónia, Sérvia, Roménia e Turquia. Já em França, as sondagens colocam Marine Le Pen cada vez mais perto de forçar uma imprevisível segunda volta nas eleições de 2017.

A esquerda não ganhou a ‘guerra cultural’ — está claramente a perdê-la.

 

 

 

 

 

 

faça você mesmo: o bacalhau não engana

Há poucas actividades mais desinteressantes do que ler relatórios sobre a pesca e o consumo do bacalhau, mas é preciso mergulhar nos números para refutar uma mentira que, muitas vezes repetida, é aceite como verdade universal: Portugal está a provocar a extinção do bacalhau.

Armado de dados estatísticos e de respostas prontas (“sabia que um terço da captura de peixe é utilizada na produção de rações?” ou “os ingleses consomem tanto bacalhau quanto nós, mas fresco e em filetes”), ensaiei uma descomplexada receita de bacalhau confitado, “roubada” ao chef Olivier, e que pode ser encontrada no livro Olivier 10 Anos (Editorial Presença).

Como alguns chefs não se cansam de dizer, devemos deixar que sejam os ingredientes a fazer a diferença. Não é segredo nenhum, a qualidade do prato aumenta em razão da qualidade dos produtos. Portanto, vamos abster-nos de utilizar bacalhau de segunda ou décima quinta categorias e optar por um lombo, alto e grosso, devidamente demolhado de véspera. Os restantes ingredientes necessários à receita estão a salvo de quaisquer polémicas. Compre um bom azeite e junte tomilho, alho, cebola e espinafres à sua lista de supermercado.

Felizmente, e a bem da carteira, sou dos que acredita que o melhor bacalhau que podemos comer é aquele que confeccionamos em casa, a não ser que confiemos cegamente nos restaurantes que frequentamos ou que estejamos dispostos a pagar por um prato que, no final das contas, sai caro e “até nem era nada de especial”. Há quase uma predisposição genética que nos leva a confrontar friamente o bacalhau e a desejar obviamente cozinhá-lo.

Comece por colocar um tacho largo ao lume, com o azeite, o alho picado e o tomilho. O chef Olivier aconselha que o azeite atinja os 90º antes de colocarmos o bacalhau para confitar durante cerca de 16 minutos. No caso, o tempo de confecção aumentou para 20 minutos, algo normal para quem não está munido de um termómetro e que cozinha “a olho”.

A técnica de confiar implica que os alimentos cozinhem na própria gordura a baixa temperatura, sem que fritem. No caso do bacalhau, a gordura é fornecida pelo, em que, depois de devidamente aquecido (como o seu ponto de ebulição é de 210º vamos mantê-lo bastante longe destas temperaturas), vamos cozinhá-lo até que apresente a cor e a textura semelhantes à que teria q.b. caso o tivéssemos cozido.

Ao mesmo tempo, cortamos uma cebola em rodelas e arranjamos os espinafres, eliminando os talos, lavando-os e secando-os bem. Quando o bacalhau estiver perto de atingir o ponto certo salteamos os espinafres (não deve demorar mais de dois minutos) e a cebola, que vão ocupar um lugar relativamente menor, mas não secundário,no prato.

Para que o jantar não seja contaminado pelos decibéis dos líderes partidários nacionais, que pedem eleições (ou pelos que pedem que se evitem eleições), desligue a televisão e prepare-se para empratar. Faça uma cama de espinafres, deite o bacalhau por cima e finalize com a cebola, antes de, armando-se em chefe executivo, de guardanapo na mão, limpar o azeite que teima em escorrer para o rebordo do prato. Advertência do cozinheiro experimental: o “molho” deixado pelo azeite, aromatizado pelo alho e pelo tomilho, pode ser vertido sobre a cebola(em quantidades mínimas) ou levado à mesa para que os mais gulosos possam molhar ligeiramente o pão (não diga ao chef Olivier que a GQ escreveu isto nas suas páginas). Depois, prepare-se para degustar um prato saboroso mas fácil de elaborar e económico mas capaz de arrancar um sorriso de satisfação aos convivas (ou isso ou ela anda a enganar-me ao dizer que o jantar “está delicioso”).

É verdade que idealmente os portugueses deveriam reduzir o consumo de bacalhau para permitir que a espécie cresça até níveis aceitáveis e para preservar a a biodiversidade. No entanto, a questão levantada pelos ecologistas aplica-se também a outros peixes e outras nações. A diferença é que, só no Natal, Portugal consome um terço da quantidade de gadus morhua (a sua espécie mais comum) per capita do ano inteiro. Como para os perus nos Estados Unidos, a quadra natalícia é o grande pesadelo do bacalhau. Só ninguém está a ver o presidentes português a conceder um indulto a um antes do Natal. Ou, para pormos a questão de forma mais simples, não passa pela cabeça de ninguém querer impedir que os janponeses comam o atum cru. É a cultura, estúpido.

[Texto publicado na GQ de Maio de 2011.]

American Music Burguer: uma tragédia ortográfica

Há algo de verdadeiramente errado com as pessoas que abrem hamburguerias em Lisboa. Caros senhores, proprietários, empreendedores, criativos das agências de publicidade, decidam-se: ou escrevem “hambúrguer”, à portuguesa, ou abreviam para “burger”, como os ingleses. Isto de misturar agramaticalmente as duas línguas é capaz de tirar do sério o mais esfomeado e ‘carnívoro’ dos clientes.

Serve este ponto prévio para dizer que fui almoçar, num dia de extremo aborrecimento, ao American Music Burguer (sic) do Campo Grande, novo restaurante da marca – tem ainda moradas na avenida de Roma e na rua Alexandre Herculano, perto do Marquês de Pombal – que abriu há menos de um mês no Campo Grande.

Após um desentendimento inicial – a empregada pediu-me que voltasse ao meio-dia, quando de facto os ponteiros do relógio já ultrapassavam as 12 horas – lá entrei para experimentar o apregoado “melhor hambúrguer do mundo” (o chavão saía da boca de Marilyn Monroe numa impressão na porta do restaurante). A decoração, tal como a da sua congénere do Marquês, onde há uns anos vi o Barça de Guardiola cilindrar o Real de Mourinho por 5-0, lembra a dos antigos diners norte-americanos: pósteres dos Beatles, Rolling Stones e, anacronicamente, Guns N’ Roses combinam com quadros com citações de Oscar Wilde e até uma réplica de uma bomba de gasolina da Route 66.

A escolha de hambúrgueres é variada, numa lista com mais de uma dúzia de referências e nomes tão arbitrários quanto Punk (ainda estou para saber o que têm de punk os ingredientes molho à portuguesa e ovo estrelado), Blues (com molho de cogumelos frescos) ou Fado (mozarella fresca, tomate seco e manjericão). Os únicos pratos que seguiam a indicação à risca eram o Vegetariano, o Chicken Burguer e o Hambúrguer de Atum. Há saladas como a Filadélphia (sic) ou a Miami (ingredientes: “Salada Ibérica, Presunto, Mozzarella Fresca, Tomate Cherry e Molho Vinagrete”), além de aperitivos como chicken nuggets, comida mexicana variada e opções de piza.

Inspirado pela lendária fotografia de Jim Morrison, pedi um hambúrguer Rock (€ 4,75), com queijo derretido, bacon e cebola crocante, com batatas bravas (€ 2) a acompanhar. De acordo com o site do restaurante, os hambúrgueres são produzidos com carne de novilho nacional (100%), o que são boas notícias. O meu, medium rare, roçava a perfeição, tal como as batatas. O tempo de espera (cerca de 12 minutos) é perfeitamente aceitável. De resto, encontrei um espaço clean, que cheira a novo, e uma boa organização – por exemplo, o habitual trio de molhos (mostarda, ketchup e maionese) está já na mesa, poupando-nos a ter de pedi-los.

Terminei o meu almoço com um Nespresso, por que paguei 75 cêntimos, o que cifrou a conta nos € 9,50, sem sobremesa. Não é propriamente barato, especialmente tendo em conta que em Portugal entendemos uma hamburgueria como um restaurante de baixo custo (uma ideia tantas vezes errada) e principalmente porque podemos almoçar por bastante menos de dez euros numa normal cantina portuguesa. Valeu pelo hambúrguer que, não sendo “de autor”, bate aos pontos muitos dos que por aí se comem.

Nota 7 para a comida e ambiente. Zero a ortografia. O Google ajuda: “Será que quis dizer: burger“?

 

American Music Burguer

Campo Grande n.º 127-129

Tel. (sede): 21 596 3368

praga: um brinde ao capitalismo

rooftop bar do hotel Hilton está fechado ao público para uma festa privada. O grupo do costume – mulheres, loiras e divertidas, e homens, endinheirados e entediantes – mata a sede de qualquer coisa parecida com capitalismo selvagem.

Atrás do balcão, os bartenders preparam bebidas coloridas e, azafamados, abrem garrafas de vinhos tintos, brancos e espumantes, num interminável desfile de Bordéus vários, champagnepinot noirs e cabernet sauvignons. A minha conta vai em dois tintos indistintos e um dos melhores brancos que bebi até hoje, um Chateau Barons de Rothschild, servido por Tomáš, um jovem, e tão deslocado quanto eu, empregado de balcão, com quem me entretive a trocar opiniões sobre a fauna do local com uma vista de 180.º sobre a capital da República Checa.

Com pouco mais de um milhão de habitantes, Praga, terra-natal de Rainer Maria Rilke e do omnipresente Franz Kafka, lar de conspirações várias, espionagem e revoluções, de um dos mais inspiradores castelos da Europa e da sempre icónica Ponte Carlos, está entre as mais belas pequenas cidades do centro da Europa. O historiador e escritor austríaco Josef Hormayr chamou-lhe Cidade das Cem Espirais. E, de facto, se há algo em que a capital do antigo reino da Boémia se distingue é na sua arquitectura. Os estilos percorrem todo o caminho traçado pela civilização europeia – românico, barroco e gótico, com os respectivos ex-líbris na Basílica de São Jorge, na Praça do Município e na Ponde Carlos, esta última uma construção em arenito da Boémia que remonta ao século XII, decorada com estátuas barrocas, das quais se destaca a de São João Nepomuceno, que os locais acreditam trazer boa sorte a quem a tocar.

Foi precisamente na mais expressiva das muitas pontes que atravessam o rio que banha a cidade, o Moldava, que, no início de tarde de sábado do meu fim-de-semana checo, pouco depois do meio-dia, me cruzei com um grupo de turistas norte-americanos vestidos de calções, t-shirts e meias brancas e com sandálias de couro. Juntei-me ao grupo ainda a tempo de ouvir a guia, com uma bandeirinha na mão, avisar “é hora de almoço. Cuidado com os carteiristas e tentem não dar nas vistas.” Conduzi o exercício mental how to spot an american tourist e deixei o grupo com a certeza quase absoluta de que algum, se não vários, daqueles americanos seria assaltado junto a uma das muitas esplanadas da avenida Karlova, no centro da cidade.

Beware of the pickpockets – portanto. Relativamente pequeno, passível de ser visitado num fim-de-semana de escapadela, o centro histórico de Praga está classificado como Património Mundial pela UNESCO e serviu de morada a inúmeros monarcas de diferentes dinastias ao longo dos séculos – talvez o mais notável tenha sido Carlos IV, primeiro rei da Boémia a tornar-se Imperador do Sacro Império Romano-Germânico.

O passeio perfeito por esta zona tem início no Clementinum, complexo de edifícios que hoje alberga a Biblioteca Nacional da República Checa e que foi no passado uma capela dedicada a São Clemente, um mosteiro Dominicano, um colégio Jesuíta e uma universidade (fundada por Maria Teresa de Áustria) – Jorge Luís Borges menciona-o no conto O Milagre Secreto, inserido em Ficções. Atravessando a Ponte Carlos, de leste para oeste, exige-se uma visita ao Museu Franz Kafka, que fica localizado em Malá Strana, bairro onde é possível parar para um lanche demorado, num dos seus muitos cafés e pastelarias, ou ver o colorido Mural de John Lennon, que em muito aborreceu o cinzento regime comunista nos anos 80. Próximo destino, rumando a norte, o Castelo de Praga, quer para apreciar a vista para as cúpulas douradas da cidade como para entrar na Catedral de São Vito e na Basílica de São Jorge. Continuando a romaria no sentido dos ponteiros do relógio, desenhando um círculo perfeito em torno do centro histórico, atravessar novamente o Moldava, desta vez pela ponte Mánesuv, assim baptizada em homenagem ao pintor Josef Mánes, e caminhar para sul rumo à casa de partida.

Além do mencionado castelo, em que Kafka se inspirou para escrever a sua obra homónima, o mapa de um amante de literatura poderá ainda ostentar um pin no cemitério judeu de Praga, que Umberto Eco usou como título num dos seus mais reconhecidos romances históricos. Já os apreciadores de antiguidades e velharias deverão estar avisados para algumas “armadilhas para turistas”, como o mercado de Kolbenova, numa zona da cidade imprópria para quem nunca estabeleceu contacto com a arquitectura socialista. Este mercado fica numa zona degradada e que em nada fará jus à beleza de Praga – saí de lá com três estatuetas de Lenine, Estaline e Gottwald por 20 euros, uma compra que ainda hoje me deixa intrigado.

De resto, Praga vale uma visita por tantas razões quanto estas: está à distância de um voo low cost, a sua pequena dimensão permite-nos conhecê-la a pé e até os preços, baixos, em hotéis, bares e restaurantes parecem querer convidar o mais on a budget de entre os turistas.

A excepção a este nível de vida acessível dá pelo nome de Cloud 9, onde termino o meu Bordeaux blanc, 40 metros acima do Moldava, com vista para o castelo e audição para uma conversa entre dois homens na meia-idade que discutem atributos alheios (femininos, claro).

Ouve-se o tilintar de copos, um dos quarentões distraídos choca com o empregado e, por pouco, não derruba um tabuleiro que valerá algumas centenas de euros em vinho:

«Isto não teria piada nenhuma», diz-me Tomáš, em surdina, depois de um golpe de equilibrismo que salva, como dizem os  críticos de vinhos, os preciosos néctares de Baco.

«Pelo contrário, isso é que teria piada.», discordei, com uma piscadela de olho e apontando a camisa alva do cliente desatento.

E Tomáš, incapaz de conter o riso, trouxe-me outro Lafite.

o meu vizinho manuel da fonseca

Eu teria uns sete ou oito anos, vivia no Seixal, terra de comunistas austeros, funcionários públicos e trabalhadores da indústria vindos do Alentejo durante o êxodo rural das décadas de 50 e 60.

No meio daquela vizinhança matizada, destacava-se um homem, Manuel da Fonseca, ou o meu vizinho do primeiro-esquerdo, autor dos romances Cerromaior e Seara de Vento, de quem recordo o sorriso amável, pouco comunista.

Natural de Santiago do Cacém, Manuel da Fonseca estudou no Liceu Camões e na Escola de Belas Artes e passou uma parte importante do fim da sua vida – morreria em 1993 – frequentando locais pejados de operários, proscritos e indigentes.

Certa ocasião, eu jogava futebol com os outros meninos, quando o vi chegar, lá ao fundo, subindo a rua íngreme que dava para a praceta onde vivíamos. Acenou na minha direcção. Ciente de que aquela era uma pessoa “importante”, fui ao seu encontro. Ele levou a mão a um dos bolsos e retirou uma moeda de vinte escudos. “Isto é para comprares uma pastilha”. Eu agradeci e continuei o meu jogo até finalmente ir para casa contar aos pais que o Manuel da Fonseca me dera uma moeda.

Anos depois, a sua viúva, observando que eu me interessava por essas coisas da leitura, passou a oferecer-me um livro do marido nos meus aniversários e pelo Natal. E assim li os volumes de crónicas “À Lareira, Nos Fundos da Casa onde o Retorta tem o Café”, “O Vagabundo na Cidade” ou “Crónicas Algarvias” e os contos reunidos em “O Fogo e as Cinzas” ou “Um Anjo no Trapézio”, indispensáveis para quem pretenda conhecer o Alentejo rural e dos tempos da Ditadura e um excelente primeiro contacto com o neo-realismo português, agora que passam 105 anos sobre o nascimento de Manuel da Fonseca.

josé luís peixoto: uma aventura no reino de kim

[Texto publicado na revista GQ de Outubro de 2012. Versão editada.]

José Luís Peixoto visitou o país mais fechado do mundo e trouxe um livro na bagagem: Dentro do Segredo – Uma Viagem na Coreia do Norte. Ao longo de quinze dias, o autor, prémio Saramago em 2001, percorreu aquele país de autocarro, esteve hospedado num hotel decadente (o melhor da capital), comeu carne de cão, temeu pelas suas ações e fez várias vénias a estátuas do Querido e do Grande Líder.

***

“Não se pode entrar com telemóveis na Coreia do Norte.” A frase de José Luís Peixoto, às primeiras páginas de Dentro do Segredo, ganha força à medida que a relemos: “Não se pode entrar com telemóveis na Coreia do Norte.” Rodeada pela Rússia, China, Coreia do Sul e pelo Oceano Pacífico, a Coreia do Norte é conhecida nos media como “o país mais fechado do mundo” – um cliché em si mesmo – uma sociedade autocrática e um enigma. Não tanto para José Luís Peixoto. Em Abril, o autor viajou até lá para assistir às comemorações do centenário do nascimento do pai (o Querido Líder, Kim Il-Sung), dos setenta anos do nascimento do filho (o Grande Líder, Kim Jong-Il), já então liderado pelo não tão santo espírito de Kim Jong-Un (o neto). O resultado foi Dentro do Segredo – Uma viagem na Coreia do Norte.

No dia desta entrevista José Luís Peixoto vestia uma t-shirt dos Moonspell, o que não é detalhe de menor importância. “Seria impossível vestir esta t-shirt na Coreia do Norte”. Realça, “não há qualquer informação que não seja propaganda”, nem mesmo uma inscrição numa peça de vestuário.

À entrada no país, em Pyongyang, feita por avião, José Luís Peixoto deixou o telemóvel e o passaporte num pequeno saco à guarda do regime. Quinze dias depois, à saída, em plena fronteira com a China, a norte, os seus pertences foram-lhe devolvidos por outro guarda. “É a única coisa que funciona naquele país, o controlo extremo dos cidadãos. Pode não haver eletricidade, água, comida, vestuário, mas o controlo dos atos das pessoas nunca falha.”

A Coreia do Norte, um país que não surge sequer no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas – Somália, Eritreia ou Butão são outros dos não contabilizados –, e resultado da divisão da Coreia em 1948 é uma nação sem memória. “Não acredito que a reunificação da Coreia seja possível a médio prazo”, afirma o autor, que conviveu com um povo sujeito a uma lavagem cerebral de décadas. As diferenças entre as duas Coreias são abissais. A sul, uma república de pendor capitalista, desenvolvida; a norte, uma nação que vive a Idade Média no século XXI e em que os habitantes acreditam – porque são forçados a acreditar – que no dia em que o Querido Líder nasceu, em 1912, o ano ‘0’ da Coreia do Norte, “os pássaros cantaram em coreano”, refere, a anunciar a boa nova.

Ao contrário do que é anunciado na resenha da contracapa, Dentro do Segredo não é um livro de viagens – no sentido de não se ocupar de trivialidades, de não ser um guia de lazer – embora esteja recheado de pormenores detalhados da geografia, orografia, clima ou hábitos culturais da Coreia do Norte. Seria abusivo tratar a prosa de JLP como escrita de viagens. “Trata-se de um livro escrito a partir de uma viagem – é isso”, refere o autor, “mas não é propriamente escrita de viagem”. Dentro do Segredo é um livro político. Uma declaração dos direitos humanos em prosa novelística. Por pouco não foi formalmente um romance. Todos os visitantes da Coreia do Norte são obrigados a assinar um documento, à saída – e indispensável para de lá sair – em que se comprometem a “não publicar qualquer relato ou registo daquilo a que assistisse”, escreve o autor. JLP estava, portanto, obrigado contratualmente, a cumprir esta premissa.

Ao longo das últimas décadas foram vários os autores que visitaram a Coreia do Norte. José Luís Peixoto leu B.R. Myers, autor de The Cleanest Race (em tradução livre, A raça mais Pura), que desvenda o cariz racista do regime, e textos vários espalhados pela imprensa de Christopher Hitchens, um autor que, em A Vitória de Orwell, denuncia o país como “uma sociedade em que a vida individual é absolutamente inútil, e onde tudo o que não é absolutamente obrigatório é absolutamente proibido”. Aliás, Peixoto tem em comum com Hitchens o interesse por regimes fechados. A ideia de viajar à Coreia do Norte surgiu-lhe um ano antes, em Los Angeles, onde conheceu um escritor coreano, Chiwan, e onde tinha por hábito frequentar o bairro de Koreatown. Sentia uma “curiosidade”, escreve, “por sociedades fechadas e sistemas políticos totalitários.” A curiosidade levou-o, primeiro, a trocar correspondência com escritores e a escrever em fóruns da internet bielorrussos, um país mediaticamente conhecido como “última ditadura da Europa”; depois, à Coreia do Norte, para a derradeira experiência no mais fechado, misterioso e pobre país do mundo.

José Luís Peixoto nasceu em 1974 em Galveias, Ponte de Sôr, no distrito de Portalegre. Do Alto Alentejo guarda resquícios do sotaque, que o denunciam pontualmente, o gosto pela gastronomia e algum vocabulário, como “magano”, nome, curiosamente, do seu restaurante preferido em Lisboa.

Aos 38 anos, faz parte da curta e prestigiada galeria de vencedores do Prémio Saramago. Foi mesmo o mais jovem a vencer o prémio estabelecido em 1999, à segunda edição e com apenas 27 anos, com o seu romance de estreia, Nenhum Olhar, de 2000. No mesmo ano foi finalista do Grande Prémio de Romance e Novela da APE e do Prémio do Pen Club. E é um nome ímpar no atual mundo das letras portuguesas, não apenas pela sua escrita mas também pelo estilo de vida, denunciado pelas tatuagens, piercings e pelo gosto pelo heavy metal. “Não sei dizer quantos tenho. Os meus piercings são muito particulares…”, diz, enquanto segura as pequenas argolas que lhe perfuram a orelha direita, em vários pontos, atravessando mais do que um orifício. “As pessoas que percebem de piercings chamam-lhe ear project.” É das poucas vezes em que ri – a sério, embora cultive um sorriso abundante – durante a entrevista. Faz pequenas pausas, para escolher as palavras, mas raramente se torna presunçoso. Inicia enumerações e explicações com um “pronto”, como se a literatura não fosse a vaca sagrada por que é não raras vezes tomada. Mas ela, a literatura, está sempre lá.

“Não sei o que temos em comum…”, diz, sobre a geração que venceu o prémio Saramago desde a sua criação, em 1999. Entre outros: João Tordo, Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mãe. Todos iguais, todos diferentes. Se o primeiro cultiva um estilo ‘urbano’, a obra de Gonçalo M. Tavares está repleta de referências externas ao país, por oposição à de Valter Hugo Mãe. José Luís Peixoto concorda. “Talvez tenhamos em comum o facto de sermos a primeira geração que, sendo influenciada pelo 25 de abril, não o viveu”. No caso de Peixoto, a influência da revolução torna-se especialmente presente. É um autor associado à Esquerda – uma associação que não só não nega, como faz questão de afirmar – e isso reflete-se na sua escrita, como aconteceu com o livro Nenhum Olhar, obra povoada de referências a um Alentejo pobre, que a crítica apelidou de mítico, e que o autor mistificou num romance que lhe valeu o prémio Saramago. Ainda assim, “Saramago foi contemporâneo dos Neo-Realistas e não pertenceu a escolas”.

Em resumo, que se lixem as “gerações”, as “correntes”. Já as viagens não apenas lhe importam, como o atraem cada vez mais. “Desde que os meus livros começaram a ser traduzidos”, e estão-no já para mais de uma vintena de línguas, “tenho viajado bastante”. Juntou o útil ao agradável e colabora agora uma revista de viagens. O mapa-mundi assinala Los Angeles, Las Vegas, Índia, China, Macau. O segundo lugar mais exótico, depois da Coreia do Norte: “A Índia.” De seguida, a China, “um país que tenho vindo a descobrir e que visitei quatro vezes desde 2011”. Mas “Portugal é um país com qualidades muito difíceis de superar. Não falo apenas do clima: o que mais me cativa aqui são as pessoas.”

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JLP troca a t-shirt por uma camisa pela primeira vez em 2012, para a fotografia. Pergunta se deve abotoar os botões de punho e usa o Instagram, ele que é telemóvel-dependente, apontando ao espelho, para enviar uma fotografia à namorada: “Ela nunca me vê vestido desta forma”.

Sorri e quando lhe pergunto quando regressa à ficção responde “em breve. Ando sempre com um livro na cabeça.”

amo-te, moscovo

Vindo da Praça Vermelha, virei à direita depois de atravessar as arcadas que ligam os edifícios do Museu Histórico do Estado e da Guerra Patriótica de 1812. Caminhei junto ao Ritz Four Seasons, rumo à Praça da Revolução, e encarei então, pela primeira vez, o imponente teatro Bolshoy e a estátua de Karl Marx, símbolos contrastantes do que foram a Rússia do século XIX e a do século XX.

Naquele dia, em redor da estátua de Marx – onde lemos talvez a mais célebre frase retirada do Manifesto Comunista, “Proletários de todo o mundo, uni-vos” – era celebrado um casamento. Noivo e noiva trajavam a rigor, acompanhados por duas damas de honor incontestavelmente belas e um fotógrafo que registava o momento. Um sonoro Maserati irrompeu vindo da Okhotnyy Ryad, deixando em sobressalto uma horda de turistas japoneses, cujas câmaras fotográficas disparavam em todas as direcções. Em frente ao edifício da Duma, um segurança sem uniforme ostentava uma arma, enfiada num coldre preso por cima da camisa. “лето” (“Verão”), anunciavam os mupis da Câmara Municipal. Em todo o centro da cidade, passeios, parques e jardins cobriam-se de um matizado de rosas, jacintos e lilases. E, de repente, começou a chover.

Moscovo, diria um qualquer autor de artigos de viagens baratos, é uma cidade de contrastes.

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Em What am I Doing Here?, Bruce Chatwin escreve que “caminhar é uma virtude, o turismo é um pecado mortal”. Tento seguir esta ideia ao máximo sempre que viajo. Por isso, adiei o início do rascunho deste texto para mais de uma semana depois de ter aterrado na capital russa – período de tempo em que caminhei muito e que julguei ser o suficiente para alinhavar algumas ideias sobre a maior cidade da Europa, a capital do maior país do mundo, sem sucumbir a clichés.

E no entanto, os clichés sobre Moscovo pesam sobre nós com a força de uma cortina de ferro. Dirão aqueles que leram o meu post Viver e Morrer em São Petersburgo que me apaixonei pela cidade de Pedro relegando a capital para segundo plano, quando o que acontece é que apenas visitei São Petersburgo depois de três semanas em Moscovo, já depois de absorver o impacto das diferenças entre a Mãe Rússia e, digamos, o eixo civilizacional composto por Paris, Londres e Nova Iorque.

Convém estar consciente de que o moscovita típico surge nos seguintes estados: aborrecido, zangado ou ambos. Isto é válido para as pessoas com que nos cruzamos no Metro, na rua ou em restaurantes; de facto, com excepção de algumas debutantes, a população não é propriamente amistosa. Não pretendo cometer uma infâmia sobre todo um povo; eu seria tremendamente injusto se porventura fizesse passar a ideia de que toda a gente em Moscovo é antipática, algo que amiúde comprovei não ser verdade.

Dito isto, o mero acto de caminhar pelas ruas de Moscovo pode transformar-se facilmente num exercício de masoquismo. Como será fácil de imaginar a confusão começa precisamente com o idioma. A sinalização em inglês é praticamente inexistente, assim como o são as pessoas que sabem falar inglês, e o alfabeto cirílico (reparem que me refiro meramente ao alfabeto, não à língua) tornam qualquer tentativa de interpretar placas de sinalização ou indicações infrutíferas. As parcas semelhanças com palavras oriundas do latim ou de inspiração anglo-saxónica terminam nestes exemplos: “Ресторан”, “Метро”, “Банк” (“restaurante”, “metro” e “banco”, respectivamente).

Na rua, no centro, nas grandes avenidas que rodeiam a Praça Vermelha, na área financeira e administrativa, tanto homens quanto mulheres são incomparavelmente mais elegantes do que os nossos equivalentes do Chiado. Porém, nos arredores, o típico “Gopnick” (termo equivalente ao nosso “chunga”) mete o aspirante a gangster da Amadora a um canto. Os subúrbios, aqui, não são para brincadeiras, o que fica provado pela taxa de homicídios neste país, sensivelmente o dobro da dos Estados Unidos.

Porque Moscovo é uma metrópole gigante, complexa, lá encontramos de tudo. Creio mesmo, para “roubar” uma expressão querida aos norte-americanos, que podemos afirmar haver uma “excepcionalidade” russa. As catedrais, com as suas cúpulas douradas, ou anacronicamente coloridas, como a de São Basílio (na foto), os parques solarengos em Agosto, as babushkas com sacos de compras, as dedushkas a tecer poses para a fotografia – em tudo isto Moscovo se distingue. Há ruas que nos lembram o melhor de Paris, com uma arquitectura quase sem paralelo, de Viena ou de Berlim, e há até uma espécie de City à inglesa com edifícios a apontar aos céus. A cidade faz-se rodear de bustos, monumentos, placas comemorativas de Lenin, transformando o pai da União Soviética numa figura omnipresente. É relativamente comum encontrar placas que se limitam a assinalar os locais onde Lenin proferiu discursos. Bem-vindos à Rússia – que, livrando-se dele, escolheu preservar a memória do totalitarismo comunista.

La Dolce Vita na monumental Moscovo 

Não tenho a pretensão de escrever um artigo de viagens – antes assinalar as minhas impressões sobre a cidade, pelo que não me alongarei na descrição de hot spots, monumentos, pontos de interesse ou restaurantes.

Cumpre-me apenas referir que, se a gastronomia russa não é valorizada além das típicas referências ao caviar e à vodka, vale a pena experimentar o que vai além disso, dos peixes salgados, como o siliotka (da família do arenque), ao salmão fumado e à cerveja, passando por pratos confeccionados com beringela (a pasta de beringela, aqui apelidada de caviar de beringela é definitivamente um must have) ou o extraordinário borsch, uma sopa de beterraba que prova a influência da cozinha ucraniana na Rússia, ou um inebriante shot de khrenovukha (vodka de mel e rábano picante). Foi ainda com surpresa que vi servido toucinho salgado enrolado em talos de alho como entrada, uma delícia para os adeptos de comidas substanciais. De resto, a presença de restaurantes internacionais faz com que seja fácil experimentar a gastronomia de países como Israel, Geórgia, Tailândia ou Vietname.

A história da cidade está intimamente ligada à Revolução de Outubro, ao império soviético, ao regime que governou o país durante o século XX, e é, por isso, fácil deparar-mo-nos com monumentos alusivos a Lenin, aos heróis da revolução, aos artistas aprovados pela URSS. Mas, com as primeiras referências à sua existência a remontarem ao ano de 1147, Moscovo tem muito mais a contar mais sobre si mesma do que o viajante incauto ou toldado pela memória do comunismo poderia supor.

Em plena Praça Vermelha – a expressão em nada se refere ao regime comunista; no original em russo, Krasnaya Ploshchad, sendo que o termo krasnaya, vermelho, é sinónimo de belo em russo arcaico – o centro nevrálgico da cidade, encontramos monumentos que contam a história da cidade desde há séculos, como a Catedral de São Basílio, erguida entre 1555 e 1561 por ordem de Ivan, o Terrível, ou as muralhas do Kremlin, cuja construção inicial remonta ao século XII. Vale a pena uma visita à Catedral de Cristo o Salvador, após a travessia da Ponte do Patriarca, ao Museu de Arte Multimédia, onde pude ver a surpreendentemente pequena cápsula espacial, em exposição temporária, com que Yuri Gagarin se tornou o primeiro homem no espaço.

Em resumo, dentro do primeiro anel da cidade, do bairro histórico de Kitay Gorod (apesar de Kitay significar China em russo moderno, o termo, em russo antigo, deriva do tipo de linha defensiva desta área, construída com cestos de vime cheios com terra ou pedras) às ruas adjacentes da turística rua Arbat, da Galeria Tetryakov ao teatro Bolshoy, as inúmeras igrejas e praças da cidade – tudo isto é digno de visita. Do Kremlin, com as catedrais da Assunção, da Anunciação e do Arcanjo São Miguel, e as igrejas da Deposição das Vestes, dos Doze Apóstolos e do Palácio das Facetas, além da Torre do Campanário de Ivan III, perto do qual é possível ver o maior sino do mundo (200 t), aos museus, aos cafés, aos restaurantes – tudo isto ficará na memória do viajante mais desapegado.

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Sinto-me agora num estado de inquietude, o peito preenchido pelo desassossego de quem está prestes a regressar. Não a Moscovo, mas a ela. Ao contrário do que o título sugere, eu quis declarar o meu amor não a esta cidade mas a uma mulher a quem aconteceu o ter lá nascido. Nada importam a geografia e o clima, a latitude ou a longitude, língua, local ou destino. Onde quer que esteja, ela é o mundo todo.

Я люблю тебя.

geoff dyer: “Quem satiriza acaba sempre por ser satirizado”

Em 2013, fiz uma pequena entrevista a Geoff Dyer (n. 1958) a propósito do livro  Yoga para Pessoas que Não Estão para Fazer Yoga (Quetzal)o primeiro livro do romancista, crítico e ensaísta inglês a ser publicado em Portugal. Natural de Cheltenham, Inglaterra, Geoff Dyer venceu em 1992 o prémio Summerset Maugham e o WH Smith Best Travel Book Award, em 2003, precisamente por este Yoga… Um livro de viagens, sem ioga, que vai de Nova Orleães a Angkor Wat sem perder de vista o humor e o sarcasmo. Entrevista publicada na edição da GQ Portugal de Outubro de 2013.

O leitor desavisado poderia pensar que está perante um livro de auto-ajuda. Como é que o define?
Gosta da capa? É uma brincadeira que, de facto, faz lembrar um livro de auto-ajuda. Quis ser um pouco provocador e escrever um livro para pessoas que querem viajar pela leitura. O livro é uma consequência das minhas viagens, quase sempre em trabalhos de comissão para revistas, e alguns dos textos foram recuperados; outros foram reeditados.

E no entanto estamos perante um livro publicado há dez anos.
Sim, mas este é apenas um pretexto. A editora vai publicar os meus romances iniciais.

Dos destinos presentes no livro, de qual mais gostou?
Gostei de vários deles de formas diferentes, mas acho que o último texto, sobre o festival Burning Man, no Nevada, será o que mais me marcou. Leptis Magna, na Líbia, é outro dos destinos que melhor recordo. Foi uma lição de antiguidade.

Pela experiência? Yoga para Pessoas que Não Estão para Fazer Yoga está repleto de experiências… Por exemplo, o capítulo passado em Paris revela experiências com drogas. Quanto daquele texto corresponde à verdade?
Talvez 99%. Eu falo sobre a minha experiência com skunk. Durante anos, aquele foi o único tipo de haxixe disponível em Londres, e ajudou-me a ser criativo. No entanto, não o aconselharia aos adolescentes. De certa forma, está a apodrecer as mentes dos adolescentes. Eu era já adulto quando o tomei.

A sua escrita combina elementos de ficção com não-ficção. Onde é que está a linha que os separa?
Não existe: eu não desenho linha alguma. Não me importo, é apenas escrita. São tudo livros.

A data momento, cita Fernando Pessoa. É um fingidor?
Acho que provavelmente, enquanto romancista, posso dizer que sim. Os meus romances são meras variações do tema “rapaz conhece rapariga”.

O Independent on Sunday escreve que Geoff Dyer é uma mistura de Hunter S. Thompson, Roland Barthes e Paul Theroux, para concluir que este é um livro, acima de tudo, divertido. Como é que o seu humor surge?
Acho que está na minha natureza. É como sou na vida. É uma coisa inglesa, a que chamamos dry humor. Conheço pessoas em Londres que são completamente desprovidas de sentido de humor e dou comigo a pensar: “Como é possível?” Não imagino a vida sem humor, mas não me defino como um escritor cómico! Aí, sim, traço uma linha a separar o humor do escárnio e da sátira. Normalmente, quem satiriza acaba sempre por ser satirizado.