Arquivo da categoria: O Seixalense

não vá o turismo tecê-las

Fui viver para a Baixa Pombalina em 2009. A mudança foi pacata: saí de uma zona suburbana, onde toda a gente se conhecia, para o centro de Lisboa, onde, pasme-se, todos se conhecem. Em menos de cinco anos, assisti a essa pequena revolução com nome de origem britânica, gentrificação. A renda do meu modesto apartamento no último andar de um prédio na Rua dos Bacalhoeiros aumentou exponencialmente e a minha simpática senhoria de então deu-me a entender que estava já abaixo do valor de mercado real ou do que ela conseguiria caso o alugasse a estrangeiros.

Com os turistas chegaram também os tuk-tuk, a Uber e as lojas de galos de Barcelos monocromáticos. E este país bipolar, que se delicia por ter John Malkovitch e Monica Bellucci entre os seus sazonais residentes, caiu em si e passou do estado habitual de deslumbramento à depressão profunda. Como se estivesse em causa a autodeterminação do povo português, residentes e dirigentes associativos queixavam-se de não ouvir falar a nossa língua em bairros como Alfama.

Quem viaja sabe que é assim em grande parte da Europa. Há excesso de lojas de recordações, filas nos museus, grandes concentrações de selfie sticks, emigrantes africanos a vender bugigangas e uns poucos nativos para turista ver. No caso nacional, o cenário é agravado pela falta de pujança económica, restando-nos, como lamentava Clara Ferreira Alves recentemente, na sua coluna no Expresso, “a economia do hostel”.

No entanto, esta gentrificação de Lisboa é uma oportunidade de ouro para a Margem Sul voltar a atrair população activa, ganhar novos residentes e quebrar o paradigma da cidade-dormitório. No futuro, concluídas as obras no centro do Seixal, a ponte sobre o rio Coina de volta, mais restaurantes, e uma mini LX Factory nos refeitórios da Mundet, com os pequenos paraísos por descobrir, as quintas, os museus e a belíssima marginal, poderemos ter um concelho com uma qualidade de vida bastante superior à de Lisboa. Um dia destes arriscamo-nos a acordar num Seixal cool. Depois, basta manter segredo e deixar Lisboa entregue aos seus hostels.

 

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Do Fontanka ao Judeu

Sem mapa, à deriva e munido apenas da memória dos contos de Nikolai Gogol, atravessei a Avenida Nevsky, em São Petersburgo, deslumbrado com os edifícios imperiais, com a paisagem urbana absolutamente fascinante e com um desfile de personagens já não como as que retratava o autor de O Nariz mas demasiado ocidentalizadas. Subitamente, o rio Fontanka abriu-se perante o meu olhar encantado e as minhas narinas foram invadidas cheiro salgado, pleno de iodo, o odor aspirado a plenos pulmões desse outro rio a que chamam Judeu.

É um lugar-comum, mas nós, portugueses, não passamos sem o Oceano, sem o mar, sem um rio que possamos transformar em mito. Por isso, após três semanas na capital da Rússia – cujo rio, o Moscovo, não mais é do que mero curso de água quando comparado com o Tejo – bastou-me uma hora em São Petersburgo para ter esta experiência extraordinária de me ver inesperadamente transportado para casa ao atravessar a Ponte Anichkov.

Esta ponte dá nome a um palácio situado em terrenos que pertenceram outrora a um tal de Anton Manuelovitch Devier. O nome nada nos diz, especialmente se lido em cirílico, mas é a transliteração de António Manuel de Vieira. Judeu nascido em Portugal ou, com maior grau de probabilidade, na Holanda, filho de portugueses, António de Vieira foi levado de Amesterdão para a corte russa por Pedro o Grande, aquando da sua visita à Europa e por lá acabou por ficar, desposando uma princesa eslava e participando na construção da magnânima São Petersburgo.

Eu desconhecia esta história quando tive a minha epifania olfactiva e, de peito cheio, nas margens do Fontanka, fui levado de volta ao rio a que chamam Judeu. Esse era David Negro, proprietário da Quinta da Princesa e de outros terrenos no que é hoje o Seixal, durante os reinados de D. Fernando I e de D. João I e que, tal como Vieira, foi um proeminente judeu da corte, votado ao esquecimento mas cuja rica biografia é digna de reportagem.

Talvez seja necessário percorrer mais de quatro mil quilómetros, e recuperar à infância uma memória olfactiva, para constatar que a História, e, para mais, a História do Judaísmo, de facto, repete-se. Mas que pode constituir um deleite redescobri-la, entre o Fontanka e o Judeu.

 

[Publicado no n.º 20 do semanário regional O Seixalense, de 24 de Janeiro.]