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praga: um brinde ao capitalismo

rooftop bar do hotel Hilton está fechado ao público para uma festa privada. O grupo do costume – mulheres, loiras e divertidas, e homens, endinheirados e entediantes – mata a sede de qualquer coisa parecida com capitalismo selvagem.

Atrás do balcão, os bartenders preparam bebidas coloridas e, azafamados, abrem garrafas de vinhos tintos, brancos e espumantes, num interminável desfile de Bordéus vários, champagnepinot noirs e cabernet sauvignons. A minha conta vai em dois tintos indistintos e um dos melhores brancos que bebi até hoje, um Chateau Barons de Rothschild, servido por Tomáš, um jovem, e tão deslocado quanto eu, empregado de balcão, com quem me entretive a trocar opiniões sobre a fauna do local com uma vista de 180.º sobre a capital da República Checa.

Com pouco mais de um milhão de habitantes, Praga, terra-natal de Rainer Maria Rilke e do omnipresente Franz Kafka, lar de conspirações várias, espionagem e revoluções, de um dos mais inspiradores castelos da Europa e da sempre icónica Ponte Carlos, está entre as mais belas pequenas cidades do centro da Europa. O historiador e escritor austríaco Josef Hormayr chamou-lhe Cidade das Cem Espirais. E, de facto, se há algo em que a capital do antigo reino da Boémia se distingue é na sua arquitectura. Os estilos percorrem todo o caminho traçado pela civilização europeia – românico, barroco e gótico, com os respectivos ex-líbris na Basílica de São Jorge, na Praça do Município e na Ponde Carlos, esta última uma construção em arenito da Boémia que remonta ao século XII, decorada com estátuas barrocas, das quais se destaca a de São João Nepomuceno, que os locais acreditam trazer boa sorte a quem a tocar.

Foi precisamente na mais expressiva das muitas pontes que atravessam o rio que banha a cidade, o Moldava, que, no início de tarde de sábado do meu fim-de-semana checo, pouco depois do meio-dia, me cruzei com um grupo de turistas norte-americanos vestidos de calções, t-shirts e meias brancas e com sandálias de couro. Juntei-me ao grupo ainda a tempo de ouvir a guia, com uma bandeirinha na mão, avisar “é hora de almoço. Cuidado com os carteiristas e tentem não dar nas vistas.” Conduzi o exercício mental how to spot an american tourist e deixei o grupo com a certeza quase absoluta de que algum, se não vários, daqueles americanos seria assaltado junto a uma das muitas esplanadas da avenida Karlova, no centro da cidade.

Beware of the pickpockets – portanto. Relativamente pequeno, passível de ser visitado num fim-de-semana de escapadela, o centro histórico de Praga está classificado como Património Mundial pela UNESCO e serviu de morada a inúmeros monarcas de diferentes dinastias ao longo dos séculos – talvez o mais notável tenha sido Carlos IV, primeiro rei da Boémia a tornar-se Imperador do Sacro Império Romano-Germânico.

O passeio perfeito por esta zona tem início no Clementinum, complexo de edifícios que hoje alberga a Biblioteca Nacional da República Checa e que foi no passado uma capela dedicada a São Clemente, um mosteiro Dominicano, um colégio Jesuíta e uma universidade (fundada por Maria Teresa de Áustria) – Jorge Luís Borges menciona-o no conto O Milagre Secreto, inserido em Ficções. Atravessando a Ponte Carlos, de leste para oeste, exige-se uma visita ao Museu Franz Kafka, que fica localizado em Malá Strana, bairro onde é possível parar para um lanche demorado, num dos seus muitos cafés e pastelarias, ou ver o colorido Mural de John Lennon, que em muito aborreceu o cinzento regime comunista nos anos 80. Próximo destino, rumando a norte, o Castelo de Praga, quer para apreciar a vista para as cúpulas douradas da cidade como para entrar na Catedral de São Vito e na Basílica de São Jorge. Continuando a romaria no sentido dos ponteiros do relógio, desenhando um círculo perfeito em torno do centro histórico, atravessar novamente o Moldava, desta vez pela ponte Mánesuv, assim baptizada em homenagem ao pintor Josef Mánes, e caminhar para sul rumo à casa de partida.

Além do mencionado castelo, em que Kafka se inspirou para escrever a sua obra homónima, o mapa de um amante de literatura poderá ainda ostentar um pin no cemitério judeu de Praga, que Umberto Eco usou como título num dos seus mais reconhecidos romances históricos. Já os apreciadores de antiguidades e velharias deverão estar avisados para algumas “armadilhas para turistas”, como o mercado de Kolbenova, numa zona da cidade imprópria para quem nunca estabeleceu contacto com a arquitectura socialista. Este mercado fica numa zona degradada e que em nada fará jus à beleza de Praga – saí de lá com três estatuetas de Lenine, Estaline e Gottwald por 20 euros, uma compra que ainda hoje me deixa intrigado.

De resto, Praga vale uma visita por tantas razões quanto estas: está à distância de um voo low cost, a sua pequena dimensão permite-nos conhecê-la a pé e até os preços, baixos, em hotéis, bares e restaurantes parecem querer convidar o mais on a budget de entre os turistas.

A excepção a este nível de vida acessível dá pelo nome de Cloud 9, onde termino o meu Bordeaux blanc, 40 metros acima do Moldava, com vista para o castelo e audição para uma conversa entre dois homens na meia-idade que discutem atributos alheios (femininos, claro).

Ouve-se o tilintar de copos, um dos quarentões distraídos choca com o empregado e, por pouco, não derruba um tabuleiro que valerá algumas centenas de euros em vinho:

«Isto não teria piada nenhuma», diz-me Tomáš, em surdina, depois de um golpe de equilibrismo que salva, como dizem os  críticos de vinhos, os preciosos néctares de Baco.

«Pelo contrário, isso é que teria piada.», discordei, com uma piscadela de olho e apontando a camisa alva do cliente desatento.

E Tomáš, incapaz de conter o riso, trouxe-me outro Lafite.

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amo-te, moscovo

Vindo da Praça Vermelha, virei à direita depois de atravessar as arcadas que ligam os edifícios do Museu Histórico do Estado e da Guerra Patriótica de 1812. Caminhei junto ao Ritz Four Seasons, rumo à Praça da Revolução, e encarei então, pela primeira vez, o imponente teatro Bolshoy e a estátua de Karl Marx, símbolos contrastantes do que foram a Rússia do século XIX e a do século XX.

Naquele dia, em redor da estátua de Marx – onde lemos talvez a mais célebre frase retirada do Manifesto Comunista, “Proletários de todo o mundo, uni-vos” – era celebrado um casamento. Noivo e noiva trajavam a rigor, acompanhados por duas damas de honor incontestavelmente belas e um fotógrafo que registava o momento. Um sonoro Maserati irrompeu vindo da Okhotnyy Ryad, deixando em sobressalto uma horda de turistas japoneses, cujas câmaras fotográficas disparavam em todas as direcções. Em frente ao edifício da Duma, um segurança sem uniforme ostentava uma arma, enfiada num coldre preso por cima da camisa. “лето” (“Verão”), anunciavam os mupis da Câmara Municipal. Em todo o centro da cidade, passeios, parques e jardins cobriam-se de um matizado de rosas, jacintos e lilases. E, de repente, começou a chover.

Moscovo, diria um qualquer autor de artigos de viagens baratos, é uma cidade de contrastes.

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Em What am I Doing Here?, Bruce Chatwin escreve que “caminhar é uma virtude, o turismo é um pecado mortal”. Tento seguir esta ideia ao máximo sempre que viajo. Por isso, adiei o início do rascunho deste texto para mais de uma semana depois de ter aterrado na capital russa – período de tempo em que caminhei muito e que julguei ser o suficiente para alinhavar algumas ideias sobre a maior cidade da Europa, a capital do maior país do mundo, sem sucumbir a clichés.

E no entanto, os clichés sobre Moscovo pesam sobre nós com a força de uma cortina de ferro. Dirão aqueles que leram o meu post Viver e Morrer em São Petersburgo que me apaixonei pela cidade de Pedro relegando a capital para segundo plano, quando o que acontece é que apenas visitei São Petersburgo depois de três semanas em Moscovo, já depois de absorver o impacto das diferenças entre a Mãe Rússia e, digamos, o eixo civilizacional composto por Paris, Londres e Nova Iorque.

Convém estar consciente de que o moscovita típico surge nos seguintes estados: aborrecido, zangado ou ambos. Isto é válido para as pessoas com que nos cruzamos no Metro, na rua ou em restaurantes; de facto, com excepção de algumas debutantes, a população não é propriamente amistosa. Não pretendo cometer uma infâmia sobre todo um povo; eu seria tremendamente injusto se porventura fizesse passar a ideia de que toda a gente em Moscovo é antipática, algo que amiúde comprovei não ser verdade.

Dito isto, o mero acto de caminhar pelas ruas de Moscovo pode transformar-se facilmente num exercício de masoquismo. Como será fácil de imaginar a confusão começa precisamente com o idioma. A sinalização em inglês é praticamente inexistente, assim como o são as pessoas que sabem falar inglês, e o alfabeto cirílico (reparem que me refiro meramente ao alfabeto, não à língua) tornam qualquer tentativa de interpretar placas de sinalização ou indicações infrutíferas. As parcas semelhanças com palavras oriundas do latim ou de inspiração anglo-saxónica terminam nestes exemplos: “Ресторан”, “Метро”, “Банк” (“restaurante”, “metro” e “banco”, respectivamente).

Na rua, no centro, nas grandes avenidas que rodeiam a Praça Vermelha, na área financeira e administrativa, tanto homens quanto mulheres são incomparavelmente mais elegantes do que os nossos equivalentes do Chiado. Porém, nos arredores, o típico “Gopnick” (termo equivalente ao nosso “chunga”) mete o aspirante a gangster da Amadora a um canto. Os subúrbios, aqui, não são para brincadeiras, o que fica provado pela taxa de homicídios neste país, sensivelmente o dobro da dos Estados Unidos.

Porque Moscovo é uma metrópole gigante, complexa, lá encontramos de tudo. Creio mesmo, para “roubar” uma expressão querida aos norte-americanos, que podemos afirmar haver uma “excepcionalidade” russa. As catedrais, com as suas cúpulas douradas, ou anacronicamente coloridas, como a de São Basílio (na foto), os parques solarengos em Agosto, as babushkas com sacos de compras, as dedushkas a tecer poses para a fotografia – em tudo isto Moscovo se distingue. Há ruas que nos lembram o melhor de Paris, com uma arquitectura quase sem paralelo, de Viena ou de Berlim, e há até uma espécie de City à inglesa com edifícios a apontar aos céus. A cidade faz-se rodear de bustos, monumentos, placas comemorativas de Lenin, transformando o pai da União Soviética numa figura omnipresente. É relativamente comum encontrar placas que se limitam a assinalar os locais onde Lenin proferiu discursos. Bem-vindos à Rússia – que, livrando-se dele, escolheu preservar a memória do totalitarismo comunista.

La Dolce Vita na monumental Moscovo 

Não tenho a pretensão de escrever um artigo de viagens – antes assinalar as minhas impressões sobre a cidade, pelo que não me alongarei na descrição de hot spots, monumentos, pontos de interesse ou restaurantes.

Cumpre-me apenas referir que, se a gastronomia russa não é valorizada além das típicas referências ao caviar e à vodka, vale a pena experimentar o que vai além disso, dos peixes salgados, como o siliotka (da família do arenque), ao salmão fumado e à cerveja, passando por pratos confeccionados com beringela (a pasta de beringela, aqui apelidada de caviar de beringela é definitivamente um must have) ou o extraordinário borsch, uma sopa de beterraba que prova a influência da cozinha ucraniana na Rússia, ou um inebriante shot de khrenovukha (vodka de mel e rábano picante). Foi ainda com surpresa que vi servido toucinho salgado enrolado em talos de alho como entrada, uma delícia para os adeptos de comidas substanciais. De resto, a presença de restaurantes internacionais faz com que seja fácil experimentar a gastronomia de países como Israel, Geórgia, Tailândia ou Vietname.

A história da cidade está intimamente ligada à Revolução de Outubro, ao império soviético, ao regime que governou o país durante o século XX, e é, por isso, fácil deparar-mo-nos com monumentos alusivos a Lenin, aos heróis da revolução, aos artistas aprovados pela URSS. Mas, com as primeiras referências à sua existência a remontarem ao ano de 1147, Moscovo tem muito mais a contar mais sobre si mesma do que o viajante incauto ou toldado pela memória do comunismo poderia supor.

Em plena Praça Vermelha – a expressão em nada se refere ao regime comunista; no original em russo, Krasnaya Ploshchad, sendo que o termo krasnaya, vermelho, é sinónimo de belo em russo arcaico – o centro nevrálgico da cidade, encontramos monumentos que contam a história da cidade desde há séculos, como a Catedral de São Basílio, erguida entre 1555 e 1561 por ordem de Ivan, o Terrível, ou as muralhas do Kremlin, cuja construção inicial remonta ao século XII. Vale a pena uma visita à Catedral de Cristo o Salvador, após a travessia da Ponte do Patriarca, ao Museu de Arte Multimédia, onde pude ver a surpreendentemente pequena cápsula espacial, em exposição temporária, com que Yuri Gagarin se tornou o primeiro homem no espaço.

Em resumo, dentro do primeiro anel da cidade, do bairro histórico de Kitay Gorod (apesar de Kitay significar China em russo moderno, o termo, em russo antigo, deriva do tipo de linha defensiva desta área, construída com cestos de vime cheios com terra ou pedras) às ruas adjacentes da turística rua Arbat, da Galeria Tetryakov ao teatro Bolshoy, as inúmeras igrejas e praças da cidade – tudo isto é digno de visita. Do Kremlin, com as catedrais da Assunção, da Anunciação e do Arcanjo São Miguel, e as igrejas da Deposição das Vestes, dos Doze Apóstolos e do Palácio das Facetas, além da Torre do Campanário de Ivan III, perto do qual é possível ver o maior sino do mundo (200 t), aos museus, aos cafés, aos restaurantes – tudo isto ficará na memória do viajante mais desapegado.

*

Sinto-me agora num estado de inquietude, o peito preenchido pelo desassossego de quem está prestes a regressar. Não a Moscovo, mas a ela. Ao contrário do que o título sugere, eu quis declarar o meu amor não a esta cidade mas a uma mulher a quem aconteceu o ter lá nascido. Nada importam a geografia e o clima, a latitude ou a longitude, língua, local ou destino. Onde quer que esteja, ela é o mundo todo.

Я люблю тебя.

Viver e morrer em São Petersburgo

Um dia, tal como pediu Joseph Brodsky no poema Estrofes – “Não escolherei país ou paróquia / Virei morrer à ilha Vasilievsky” – todos deveríamos ter a oportunidade de ir morrer a, ou de visitar, São Petersburgo. 

Fundada em 1703 por Pedro o Grande, São Petersburgo ombreia em monumentalidade com capitais como Paris ou Viena. De facto, o czar tinha o sonho de ocidentalizar o seu país e por isso bebeu da cultura europeia o mais do que suficiente para criar um monumento à arte, à arquitectura e à cultura numa região então abandonada, semi-desértica, junto ao Golfo da Finlândia.

São Petersburgo – que teve o nome de Petrogrado entre o início da I Guerra Mundial e 1924, quando passou a chamar-se Leninegrado, designação que persistiu até à queda da União Soviética – é o lar de um dos mais impressionantes museus do mundo, o Hermitage.

Instalado nos edifícios que constituíam a residência do último Czar, Nicolau II, da dinastia Romanov, alberga obras de artistas como Leonardo da Vinci, Matisse, Rembrandt ou Paul Cézanne, entre muitos outros, além de expor alguns dos famosos ovos da Páscoa da Casa Fabergé, arte de vários períodos, desde o Paleolítico aos nossos tempos, e com inúmera proveniência, num total de cerca de três milhões de peças. Segundo os responsáveis, se nos detivéssemos durante um minuto em cada peça demoraríamos 11 anos a ver o museu. Reserve-se um dia inteiro, ou mesmo dois, para uma visita mais modesta. E atente-se que apenas o próprio edifício merece a visita.

Sendo uma cidade imperial por excelência, capital do regime czarista durante perto de 300 anos, São Petersburgo está repleta de palácios, casas apalaçadas, edifícios de apartamentos em estilos que vão do barroco ao neoclássico, pontuada por outros de inspirações diversas, como o da Casa Muruzi, onde viveu o já mencionado Joseph Brodsky, com tectos e arcadas ao estilo arábico.

A cidade desenvolve-se em torno da incomparável Avenida Nevsky, que dá título a um dos mais famosos contos de Nikolai Gogol. A avenida atravessa a cidade desde a Praça Alexandre Nevsky até ao Palácio de Inverno; pelo meio, cruza os rios Fontanka e Moika e o canal Griboyedova, e encontra-se com as ruas Bolshaya Morskaya, Malaya Morskaya e Kazanskaya, geografias repletas de histórias e lendas, locais de conspiração, como a que levou ao assassinato do “monge louco” Grigory Rasputin, no palácio Yusupov [na imagem].

Ao contrário de Moscovo, em que impera um certo ar de ‘começo de festa’, uma cidade opulenta onde importa mostrar cartão de crédito – Moscovo é a segunda cidade do mundo em número de bilionários, atrás apenas de Nova Iorque – em São Petersburgo o ambiente é incomensuravelmente mais culto. Em vez de discotecas repletas de homens na crise da meia-idade, temos ruas de bares com hipsters e de restaurantes de comida internacional. Em vez de um desfile de Maseratis e Ferraris, vemos Oldsmobiles e Cadillacs. Homens e mulheres são igualmente requintados, enquanto em Moscovo eles têm tendência a ser mais erectus do que sapiens. 

Locais a visitar, apenas alguns, numa cidade que consiste toda ela num ponto de interesse: além do Hermitage, Casa Museu Anna Akhmatova, Fortaleza de São Pedro e São Paulo, Catedral de Santo Isaac, Catedral do Sangue Derramado, Museu Fabergé, Cavaleiro de Bronze na Praça do Senado, Catedral de Kazan, Praça Lenin (junto à estação ferroviária onde o revolucionário desembarcou após a revolução de Fevereiro de 1917), o Cruzador Aurora (ancorado junto ao bairro de Petrogradskiy, no rio Bolshaya Nevka, e de onde foi dada a ordem para invadir o Palácio de Inverno e dar início à Revolução de Outubro), além de bares, livrarias e pequenas ruelas capazes de nos surpreender a cada instante. Um passeio à beira-Moika, Fontanka ou Neva é um bom tónico para quem, como eu, sentiu saudades do Tejo após três semanas em Moscovo.

Joseph Brodsky não cumpriu o seu desejo. Morreu em 1996, aos 55 anos, em Nova Iorque, Estados Unidos, após ter sido “convidado a sair” da União Soviética em 1972. Não sem antes ajudar a eternizar a ilha Vasilievsky e a sua terra-natal, imperial cidade da cultura, das artes e das ideias, que todos os homens deveriam poder visitar um dia.

observações sobre a Rússia [excerto]

Talvez em virtude de séculos de autocracia, de sete décadas de comunismo ou apenas por tratar-se da maior cidade europeia, uma metrópole com perto de 12 milhões de habitantes, Moscovo aparenta ser organizada. Outra coisa, sobejamente diferente, seria afirmar que os russos são organizados — não são. A organização russa precisa de ser regulamentada, imposta, uniformizada. Ao contrário da Dinamarca ou da Alemanha, a organização, a ordem, de Moscovo existe apenas porque a Lei, as forças de segurança, e, em última instância, Vladimir Putin assim o impõem.

As estações do metropolitano são caóticas. Porém, o metro de Moscovo, que recebe cerca de sete milhões de passageiros por dia, com intervalos de comboios entre os 40 segundos, na hora de ponta, ou uns meros dois minutos nos períodos de menor movimento, funciona na perfeição. Para isso é necessário que as entradas e saídas decorram dentro da maior normalidade possível. As escadas rolantes, por exemplo, são escrupulosamente controladas por funcionários enfiados em cubículos de vidro, maioria das vezes uma mulher, com acesso a câmaras de CCTV — pelo que é provavelmente a profissão mais aborrecida do mundo. Tal como em Londres ou Nova Iorque, a circulação nas escadas faz-se pela esquerda. Mas aqui é expressamente proibido, e impossível, devido ao controlo apertado da segurança, ter comportamentos como os que alguns lisboetas têm, como colocar os pés no corrimão ou sentar-se nos degraus das escadas.

Acrescentar que se trata de estações de metro belíssimas é uma perda de tempo – está dito.

[Na imagem, Catedral do Arcanjo, na Praça das Catedrais, Kremlin, Moscovo.]

 

Las Vegas: para a piscina europeia, por favor

Alguém disse um dia que viajar é o melhor antídoto contra a xenofobia. Eu pude comprová-lo há uns anos, quando tive a sorte de visitar Las Vegas. Fiquei no 10º piso do Encore at Wynn, com vista para o deserto do Nevada, passeei pela Strip, fui a clubes nocturnos impróprios para meninos e estreei-me a jogar póquer. Ir a Las Vegas não é diferente de visitar Paris ou Copenhaga. São as pessoas que fazem as cidades e as pessoas tendem a ter os mesmos defeitos em todo o mundo.

Numa tarde, desci do quarto e fui até à piscina. Era verão, o que significa que a temperatura ultrapassava facilmente os 40º. Comprei os calções de banho mais baratos que encontrei no centro comercial do hotel, recolhi a minha toalha e entrei na piscina a temer pela sanidade mental. Las Vegas é um paraíso para bachelors, latinos com problemas de peso, jogadores de blackjack de todo o mundo, aspirantes a estrelas de reality shows, mulheres com silicone excessivo, transsexuais, traficantes de droga, mafiosos mexicanos – em geral, gente pouco recomendável.

No entanto, a piscina do hotel aparentava uma pacatez que contrariava o senso-comum: famílias a tomar banhos de sol, senhoras a ler romances de quinta categoria, crianças a brincar dentro de água, uma calma contra-intuitiva. A um canto, uma placa indicava European Pool – This Way. Havia, portanto, uma segunda piscina; e era “Europeia”. Intrigado, lá fui, tão europeu quanto possível (branco como cal, com uns chinelos ridículos, calções low cost e a toalha ao ombro). Um pequeno carreiro entre árvores e relvados, um caminho sinuoso, conduzia à misteriosa piscina. E eis que Las Vegas se revelou em todo o seu esplendor. Dezenas de jovens norte-americanos bebiam cocktails enfeitados com coloridas sombrinhas de papel. A um canto, duas mulheres de ascendência oriental faziam topless, peitos redondos, demasiado redondos. Artificialmente redondos. Deitadas nas espreguiçadeiras, eram o centro das atenções, o alvo dos olhares dos WASP. Nem sombra de crianças. Nem sombra de respeitosas senhoras de família. À minha volta, as aspirantes a Paris Hilton e Kim Kardashians conversavam à beira da piscina enquanto chapinhavam com os pés na água, toda a gente em topless, 50 Cent nas colunas, cervejas a passar de mão em mão. E mais mulheres em topless. E mais homens boquiabertos.

Observei, tão recatado quanto me foi possível, e rapidamente me cansei do cenário, que poderia facilmente entrar num episódio de CSI Las vegas com uma participação especial daquele rapaz-rapper que foi casado com Britney Spears. Uma cerveja e quinze dólares e vinte minutos depois, regressei à piscina conservadora.

Moral da história: nunca é tarde para nos conhecermos a nós mesmos, ainda que para isso tenhamos de aprender a terminologia da indústria hoteleira norte-americana. E porque é viajar um antídoto contra a xenofobia? Digamos que para os norte-americanos, nós, europeus, somos uns libertinos não é isso que nós pensamos deles?

 

“The secluded european pool at Encore allows for topless sunbathing.”
encore2

saudação a Glasgow

 

Londres em miniatura, cidade criativa ou terra de gente à beira de um ataque de nervos. Basta estar atento à arquitectura, às artes ou ao movimento nocturno. Bem-vindos à Glasgow moderna. 

“Ali vai a Eleigh, que toca ukelele”, diz-me Muttley, aproveitando a rima no inglês original, e apontando para o outro lado da rua. Estamos em frente ao bar 78, fumamos um cigarro e eu peço-lhe, então, que me apresente a tocadora de ukelele: “Sim, é um instrumento de origem portuguesa. Foram navegadores da Madeira que o deixaram no Havai, certo?”. A história é mais ou menos esta e são estas curtas palavras as que trocamos antes de ela partir, na sua bicicleta. A jovem tem um projecto musical com um curioso nome, Eleigh Daily Ukelele Caleigh, uma brincadeira com a linguagem para o nome de uma banda que mistura o instrumento de origem portuguesa com uma dança tradicional escocesa, Caleigh.

O fait divers serve apenas como exemplo para demonstrar a facilidade com que conhecemos pessoas ligadas às artes, e à música em particular, na mais populosa cidade escocesa. O nosso anfitrião acidental, apresentado por alguém que conhece alguém que nós conhecemos ao acaso, é um jovem e pequeno empresário de sucesso, proprietário de um armazém com perto de cinco mil metros quadrados, o Studio Warehouse, cujas salas aluga a artistas plásticos e bandas.

Um dos inquilinos de Muttley é Eva Merz, artista plástica e autora de um livro sobre a dura realidade dos sem-abrigo de Aberdeen, provocantemente chamado Get a Fucking Job. A banda Popup ocupa outra sala.

A UNESCO acaba de atribuir a Glasgow o título de Cidade da Música, a terceira depois de Sevilha e Bolonha. E bem. A cena musical é forte ao ponto de nos ter dado bandas como os Belle & Sebastian ou, mais recentemente, os Glasvegas. Já tudo foi estudado no que diz respeito ao ambiente em que nascem as bandas indie que fazem com que os miúdos atormentem os vizinhos. Para fazer este caldo precisamos de três ingredientes: descendentes da classe operária, atmosferas sujas e impuras e clima instável. Tudo isso está, aqui, presente, e embora não sejam, à primeira vista, um exemplo típico desta realidade, os Popup podem muito bem transformar-se na próxima revelação de Glasgow ao mundo. O vocalista, Damian Gilhooly, cofia a barba rala, diz-nos que a banda participou no festival South by Southwest, no Texas, e oferece-nos um CD de apresentação com os temas que haveriam de sair no primeiro álbum, A Time and a Place. Que serviu de banda sonora à nossa incursão em terras escocesas.

 * * *

Noite dentro

Por vezes cinzenta, como estivesse prestes a chover, por vezes solarenga, como se o Sol quisesse banhar esta terra, mas nunca monótona. Há sempre qualquer coisa para descobrir. Glasgow oscila entre uma beleza primaveril e, uma outra, outonal. É Verão, quando visitamos a cidade, e o Verão, aqui, é uma mescla de sensações, dizem-me.

Ao contrário de Edimburgo, aqui, o postal ilustrado não apresenta monumentos cliché. As ruas têm personalidade, sim, mas o papel de centro histórico do país está reservado para a capital. Em Glasgow, terá ainda a vantagem de não se cruzar com hordas de turistas de máquina em riste, preparados para “disparar” ao mais pequeno pormenor de vista.

Antiga cidade operária, faz do cinzento a sua cor – o que lhe dá um ar, não sujo, mas típico. Além disso, faz-nos sentir em casa. Com uma dimensão pouco maior do que a de Lisboa, é um óptimo destino para quem gosta de caminhar, com a vantagem, em relação à capital portuguesa, de não ser feita de colinas.

A nossa estada em Glasgow conta poucas horas. Depois de uma experiência gastronómica
(a não repetir) no The Italian Café (comida banal e ambiente loucamente ruidoso), na primeira noite, decidimos rumar ao Sudoeste da cidade, à zona nova. Em frente ao rio Clyde – uma outra semelhança com Londres; a cidade desenvolve-se em torno do rio que a atravessa – sopra uma brisa fria. O rio reflecte os edifícios da Glasgow moderna, que contrastam com os seculares que encontramos no centro. O Sol põe-se cerca das 22 horas, embora seja possível encontrar luminosidade natural até perto da meia-noite. O lusco-fusco prolonga-se e ainda conseguimos fotografar o imponente Auditório Clyde, conhecido por Armadillo, com luz natural. Na margem esquerda do rio, o edifício da BBC Scotland impõe-se naturalmente, de frente para o Armadillo. À nossa esquerda temos a Kingston Bridge, inaugurada em 1970, e com assinatura do curioso engenheiro William Fairhurst, que ficou tão ou mais conhecido como xadrezista do que como construtor de pontes.

Glasgow é uma cidade de contrastes. A colorida penugem dos cisnes que vemos no rio Clyde opõe-se ao clima negro que encontramos, por exemplo, numa das zonas mais trendy da cidade, no extremo oposto do mapa. Depois, há o frio. E as mulheres que andam ao frio. De mini-saia
e decotes pronunciados. Quase todas bonitas, maquilhadas, de collants e sabrinas, ou saltos altos. Há as filas para concertos às sete da tarde, em pleno centro. Voltamos atrás e pensamos que esta gente é louca. Como é que, com luz natural até tão tarde, a população vive tão pouco a noite. Estávamos prestes a descobrir.

No interior do Bamboo, um pequeno corredor leva-nos da zona pop, com raparigas extra-
-maquilhadas e rapazes à procura de conquistas, à sala reservada ao rock alternativo. No ar, Arctic Monkeys, com Fake Tales of San Francisco, uma espécie de manifesto antipresunçosos e que define a gente que aqui se junta. Pedimos uma cerveja (na verdade, duas ou três), estudamos o ambiente e voltamos ao nosso hotel, em Bath Street, a escassas dezenas de metros do bar. O mapa da Glasgow nocturna é tão forte como o da Edimburgo cultural, o que faz desta cidade uma melhor escolha para quem precisa de um pouco de clubbing para desfrutar de umas férias citadinas.

Na noite seguinte rumamos ao Òran Mór, para alargar os horizontes nocturnos.

A voz de Violet ecoa, cristalina. “Oh lord, protect my child”, ouvimo-la cantar, logo que entramos nesta antiga igreja. Lá dentro, a atmosfera convida a um pint. Ainda que não seja uma Nina Simone, Violet espanta pela voz – ainda para mais sabendo que se trata de uma assistente social e que é a primeira vez que banda actua junta. O clima é de festa. Um dos empregados de balcão, um tal de Alec Dyson, levanta-se e vai cantar Hoochie Coochie. E toda a gente bebe e ri.

São assim os escoceses.

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Uma cidade dentro de outra

Um quarteirão inteiro isolado do resto da cidade, Merchant City é uma das zonas nobres e históricas de Glasgow. A sua origem mistura-se com a da cidade e remonta a meados do primeiro milénio, ao ano 543, quando Kentigern, um jovem monge irlandês, abandonou a terra natal para aqui se estabelecer. Conta a lenda que era sobrinho do lendário rei Artur e que previra o seu destino escocês num sonho. Chamou a esta terra Glaschu, ou dear green place (querida terra verde) e, apesar das pequenas alterações, o nome da cidade mantém-se até hoje. É em Merchant City que nasce a Glasgow moderna. Depois da epidemia de peste bubónica, ainda na Idade Média, esta zona atravessa um período próspero, apesar dos frequentes e grandes incêndios que a assolaram, e passa a ser lar tanto das descobertas científicas como das fine arts.

É impossível não ficar rendido a Merchant City, assim que temos o primeiro vislumbre
do arco de entrada da cidade, junto à Royal Exchange Square. Bares gay e straight convivem pacificamente e o corrupio de gentes convida a um copo. Isto, pela madrugada adentro.
De dia, Merchant City cede ao consumismo desenfreado e enche-se de turistas, que visitam, por exemplo, o GoMA, ou Gallery of Modern Art, que apresenta, por estes dias, uma exposição do artista local Jim Lambie, Forever Changes, e de Jo Spence, fotógrafa inglesa falecida em 1992, e que viria a dedicar parte da sua carreira aos auto-retratos. Estarrecido, olho para Spence, nua, cosida de uma lumpectomia e com inscrições onde tanto anuncia que aquele peito com um mamilo desfigurado é “propriedade de Jo Spencer” como tratando-se de um “monstro”.

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Um centro histórico

Em frente à estátua de Donald Dewar, primeiro primeiro-ministro escocês falecido em 2000, inaugurada no mesmo ano por Tony Blair, onde lemos um convincente “There shall be a scotish parliament”, um grupo de adolescentes tenta posar para a nossa câmara. Querem aparecer numa “travel magazine”. Estamos no começo de Buchanan Street, uma das ruas mais movimentadas de Glasgow, repleta de lojas de moda, e na moda, e que termina, lá em baixo, num beco onde encontramos um farol. Um farol no meio de uma cidade? Trata-se de uma das muitas criações de Charles Rennie Mackintosh, que se encontram espalhadas por Glasgow. Os cerca de cem degraus do Lighthouse conduzem-nos até um patamar de onde vemos toda a cidade. Lá em baixo, uma confusão de edifícios, cúpulas e telhados contrastantes. O moderno mistura-se com o antigo numa harmonia claramente britânica. Tivéssemos aqui caído por magia e adivinharíamos imediatamente: estamos na Grã-Bretanha. Quando olho para baixo, vejo um escocês, num terraço, a tomar banhos de sol, em tronco nu e deitado numa chaise-longue, de óculos escuros e a beber uma cerveja. Pela minha experiência da noite anterior, é uma Budweiser.

Voltemos, então, à noite anterior. À porta do Bamboo, uma escocesa de tez pálida e madeixas loiras a escorrer pelo pescoço diz-me, num inglês mastigado pelo cigarro: “I just love Glasgow”. Repete: “I love it.” E adianta, à guisa de guia para estrangeiros curiosos: “Não há nada como Glasgow. Sabes?, isto não é como Edimburgo”. E remata: “I love Glasgow”, com o sotaque escocês cada vez mais presente e exagerado, parece-me que por uma taxa de álcool proporcional ao orgulho local, em doses elevadas. As gentes de Glasgow não são chatas (no sentido inglês do termo “boring”) como os de Edimburgo, dizem eles. Sabem divertir-se e divertir quem vem de fora. Pelo menos assim é connosco. Mas, hoje, o Bamboo está transfigurado. A sala indie está fechada e abriu uma outra, atrás de uma porta que eu juraria ser de uma saída de emergência, onde desfilam botas da tropa e uniformes negros. Hoje é a noite de metal. Et pour cause, adiante.

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A cidade que se “vende”

Perto do West End, zona de bares e de diversão nocturna, diria, mais popular, por oposição às zonas mais indie, encontramos a Universidade de Glasgow, onde ensinou um dos mais conhecidos economistas do mundo, Adam Smith, o criador da expressão “mão invisível”. A sul, o Kelvingrove Art Gallery & Museum impõe a sua fachada sobre Argyle Street. A rua desemboca, mais à frente, em Dumbarton Road. E logo depois da esquina da Dumbarton Road com Byres Road encontramos um dos melhores restaurantes da cidade.

É quase por instinto que decidimos entrar no Number 16. Atravessamos a rua, a pé, e, como que pelo aspecto, descobrimo-lo. Os dois minúsculos andares do restaurante não acomodam muito mais do que uma vintena de comensais. Ronnie Campbell, um calvo bem-disposto, oferece-nos uma mesa no primeiro andar. “Cozinha moderna, escocesa e internacional”, diz-nos, como que regulamentando as nossas escolhas. Arrisco o risotto e pedimos um Rioja, seguido de um vinho de colheita tardia. Um bom jantar a preceder a nossa primeira experiência chuvosa, na rua dos bares do West End, Ashton Lane.

“Barcelona tem Gaudí, Chicago tem Frank Lloyd Wright, Glasgow tem a magia da Arte Nova de Charles Rennie Mackintosh”. A cidade apresenta-se a si mesma desta forma, dando ao, à época, incompreendido Mackintosh estatuto de símbolo. De facto, uma parte de Glasgow, a mais importante, diria, gira em torno deste arquitecto falecido em 1928. A arquitectura da cidade, com a marca de Mackintosh, foi duramente criticada no início do século, mas o traço do génio haveria de sobreviver. Hoje, a cidade está pejada de artistas, aspirantes a artistas, jovens promessas e confirmações, e o intercâmbio entre as artes é visível aos olhos de quem quiser ver. Há uma harmonia entre músicos, pintores, escultores e, por vezes, tudo se toca. Em conversa, dizem-nos, em mais um exemplo de orgulho local, que o vocalista da banda Franz Ferdinand estudou na Glasgow School of Art (e manteve durante bastante tempo uma coluna sobre gastronomia no The Guardian). Outro dos exemplos do intercâmbio entre as artes é dado por Peter Howson, na forma de chamada de atenção para comportamentos menos recomendáveis, em que o artista local retrata o cantor popular inglês Peter Doherty (mais famoso, em Portugal, pela relação mantida com a top model Kate Moss do que propriamente pela música) morto.

Mas a Glasgow das artes requer a ida à descoberta. É uma cidade que se aconselha a si mesma. E dir-se-ia que, depois de uma viagem relâmpago, o que me fica na memória, mais do que a arquitectura ou as artes, são as pessoas. São elas quem nos diz o que ver, bastando-nos segui-las. Podemos beber um copo no Stereo ou visitar o Modern Institute, mas o que trazemos para casa é uma colecção de memórias de gente acolhedora. Aqui, as pessoas não têm ar de aristocratas, como os ingleses, nem aparentam ser desleixadas, como os irlandeses – descontando tudo o que de preconceituoso existe numa afirmação como esta. Há os kilts, os sempre engraçados kilts. Vimo-los às dezenas, logo no primeiro dia na cidade que nos acolhe, e não evitamos a interrogação: “Será que há tanta gente a usar, ainda, o traje tradicional?” Afinal, estamos em Glasgow enquanto se realiza um festival de pipes. E conseguimos evitar o cliché.

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Um roteiro

Com a quantidade de locais a visitar, desde museus a pubs e jardins, Glasgow tanto se presta a romarias ao acaso como a saídas organizadas. Uma das opções mais indicadas, para quem deseja planear uma viagem ao pormenor, consiste em estabelecer um ponto de harmonia entre os locais que se visita. A cidade estabelece-se em torno do rio Clyde e é atravessada por diversas pontes, pelo que é viável andar de margem em margem. Andar a pé é perfeitamente possível, para quem não se importa de abdicar do conforto dos transportes públicos. Comece pelo East End: à beira-rio, o enorme jardim Glasgow Green é um bom local para um pequeno-almoço. Siga para oeste, rumo a Argylle Street, e ande para norte. Está em pleno centro de Glasgow. Aqui, os pontos de interesse são tantos que o visitante rapidamente se decidirá. Entre o centro comercial de St. Enoch e as galerias Buchanan, ligadas por Buchanan Street, dois pontos obrigatórios para os viciados em compras, encontrará, escondido numa ruela, o Farol de Mackintosh. Do cimo terá uma vista panorâmica sobre a cidade.

É a partir desta zona e nas suas imediações que encontrará as grandes lojas da moda, galerias de arte, auditórios e teatros. Perto, encontra-se Merchant Street, uma das zonas mais antigas e preservadas e onde encontra, literalmente, tudo, restaurantes a bares, lojas, livrarias… Para lá de Mitchel Street encontram-se as grandes ruas da cidade, que a atravessam de este a oeste: St. Vincent, W. George, W. Regent, Bath ou Sauchiehall Street. Os restaurantes e hotéis destas ruas constituem quase todos boas escolhas para almoçar e retemperar energias.
À tarde, se não se quiser perder pelo centro, visite Kelvingrove Park, cujo museu merece certamente uma visita atenta. Dumbarton Street e Argylle Street são das ruas por que se pode guiar para vaguear. A poucos minutos daqui, o West End é obrigatório como local para beber uma cerveja. Caso prefira o chá a bebidas feitas a partir de cevada ou malte, Glasgow tem várias casas de chá onde poderá tomar a bebida introduzida no Reino Unido pela portuguesa D. Catarina de Bragança, como o Willow Tea Room, com Mackintosh, uma vez mais a dominar a decoração.

 

[Edição revista do texto publicado originalmente na edição de Dezembro de 2008 da Rotas & Destinos. Fotografia de Manuel Gomes da Costa.]