em progresso

Na década de oitenta do século passado foi descoberto na Terra do Fogo, junto à pequena Laguna Esperanza, um manuscrito que atraiu à região toda a espécie de cientistas, de antropólogos a linguistas, caçadores de tesouros e exploradores em busca de fama e dinheiro.
O manuscrito foi baptizado de Papel del Fuego. Precedia qualquer outro documento conhecido pela História. A datação por carbono-14 comprovou que era anterior às civilizações mesopotâmica, suméria ou egípcia. Tratava-se, portanto, de um documento de valor incalculável; e decifrá-lo tornou-se rapidamente um desígnio. Em dimensões, o Papel del Fuego assemelhava-se ao pergaminho conhecido como grande rolo de Isaías, um dos sete manuscritos do Mar Morto, encontrado acidentalmente em 1947 nas cavernas de Qumran por um pastor beduíno.
Nos dias que antecederam a chegada dos primeiros académicos e investigadores europeus e norte-americanos ao local, após o anúncio da descoberta, o presidente Reynaldo Bignone decidiu atribuir a guarda de tal manuscrito a um habitante local, um octogenário analfabeto, como forma de precaver o seu eventual desaparecimento ou roubo pelos ingleses. Foi assim que conheci o faroleiro Carlos Arturo Díaz.

[…]

exercício sem estilo

Há dias em que sinto triste.

Acontece-me por vezes fazer uso da tristeza para me elevar a alma. Sento-me junto à janela, como se a minha janela, que dá para uma rua feia e também ela triste, me deixasse ver todo o mundo, e as paisagens que surgem nas revistas de viagens, e os ambientes que me querem vender as agências. Também eu já viajei e fiz dessas paisagens um pano de fundo da mente. Nesses dias, dizia, sento-me junto à janela e vejo Londres, a civilização, e vejo Copenhaga, organizada e simples, e observo a eterna Roma, a majestosa Berlim, a adolescente Nova Iorque, a pecaminosa Las Vegas. Tudo isso vi, tudo isso lembro, e continuo a sentir-me triste.

Há dias, outros, em que me sinto apenas só. Sento-me novamente à janela e recordo o meu guia em Jura, um velhote dos seus oitenta anos, que me levou a subir um monte com vista para um remoinho onde George Orwell quase morreu afogado. Recordo todas as empregadas de hotel, e todas as hospedeiras de bordo, e todos os barmen que me serviram e me sorriram.

Não há maior beleza do que recordar vidas passadas e retirar delas o sustento para momentos de fraqueza. As minhas vidas passadas foram apenas enganos, meros acidentes de percurso. Eu queria, de forma alguma parecendo nostálgico, trazê-las de volta mas apenas na forma de memórias felizes.

Há dias em que me invade o frio. Como escreveu Bernardo Soares, “não um frio que há no espaço, mas um frio que há em eu ser o espaço.” Sou, em quase todas as fases da minha existência, um urso polar, vagando pelas calotes da alma, enregelado e predando espécies menores. As minhas presas são aves e são espécies aquáticas e quase todas me subestimam. Todas têm a oportunidade de escapar e quase todas eu caço com sucesso.

***

Saí de casa e constipei-me. Passei o dia a espirrar, como que para lembrar-me que nada há de interessante lá fora. Trouxe a doença para casa e encerrei-a no quarto comigo. Passámos bons momentos, oh sim. A minha casa tem tudo aquilo de que preciso; é inútil abandoná-la. Encomendei os víveres pela Internet, comprei um livro, naveguei pelos museus do mundo, aprendi a coser um botão, para não pedir a uma mulher que mo fizesse. Um dia hei-de tornar-me autosuficiente, verdadeiramente independente. Como o urso polar, que nada tem que fazer além de alimentar-se – e tal como eu, que colho o meu alimento na Memória, junto à janela, enquanto chove.

E, de repente, não mais estou triste. Não me sinto frio, nem só. Sinto um orgulho atroz na minha antropofagia, na misantropia, em não pertencer a nada, em alimentar-me da gente.

Barcelona para ingénuos

Tinha pele escura, extensões no cabelo, os lábios pintados de vermelho, argolas exageradas nas orelhas. Abordou-me enquanto eu descia as Ramblas, acabado de sair do hotel, em busca de um restaurante de tapas para jantar.

Durante o dia, as Ramblas acolhem calorosamente os turistas. Há cartunistas a vender retratos de Lionel Messi e camisolas de contrafacção do FC Barcelona, muita gente atarefada, homens-estátua, floristas e cafés. À noite, quando sobram apenas os restaurantes e o bas fond, as Ramblas perdem a virgindade.

A mulher de pele negra e camisola tigresse foi a primeira a abordar-me. Ofereceu-me os seus serviços, que eu agradeci gentilmente – pero no. Algumas dezenas de metros à frente, fui novamente aliciado. Mais explícita, a mulher esboçou algumas frases em inglês para me elucidar sobre o que eu poderia fazer com ela. Como eu não estivesse interessado, tentou seduzir-me com um bónus:

«No condom, darling. Thirty euros.»

Respondi-lhe, tentado manter o passo largo, que pretendia apenas gastar vinte, mas no jantar. Na mesma noite, na mesma travessia das Ramblas, na mesma demanda por um restaurante de tapas, aproximou-se de mim uma terceira mulher a prometer momentos inesquecíveis num dos becos que ladeiam a avenida. Intrigado, conversei com ela durante alguns segundos. O seu castelhano estava longe de ser perfeito, mas ela dominava a gíria da profissão o suficiente para se fazer entender. Era nigeriana e sobrevivia em Barcelona havia já três anos. Desabafou por momentos. Queria regressar ao seu país e rever a família. Vencida pelo cansaço e como eu não denotasse interesse em gastar dinheiro com ela, despediu-se, soprando um beijo na minha direcção.

Depois disso, regressei à capital da Catalunha quatro vezes e não voltei a ver prostitutas nas Ramblas. Há dias, a leitura de um artigo num jornal da região desfez o mistério. Afinal, elas não partiram. Limitaram-se a mudar de local. As antigas prostitutas das Ramblas encontram-se agora no Bairro Gótico. Consta que as suas actividades decorrem na rua Petritxol, precisamente por baixo da imagem da Virgen de la Mercè, onde as velhinhas da cidade acendem velas durante o dia, o que não deixa de ser irónico. Enfim, tal como as Ramblas, também o Bairro Gótico perde a virgindade quando a noite cai. E tal como nos turistas ficam à mercê, das senhoras da vida.

[Publicado originalmente a 23 de Maio de 2014, no Facebook. Fotografia: Christian Maury/El Mundo.]

 

o meu melhor amigo

Ele é o meu melhor amigo. Sempre o foi, mesmo nos tempos em que, por culpa minha, dele, de ambos ou da vida em si, estivemos afastados. Somos muito diferentes. Ele tem o corpo coberto de tatuagens e tem piercings estranhos e exagerados. Em miúdos, ele gostava de metal, eu gostava de rock alternativo. Ele ouvia house e techno, eu preferia trip-hop e grunge. Ele jogava xadrez melhor do que eu, eu falava Inglês melhor do que ele. Ele gostava de matemática, eu de português. Chateámo-nos algumas vezes, estivemos prestes a andar à pancada (disputas que ele ganharia com facilidade) e fizemos birras um com o outro. Éramos inseparáveis, no fundo.

Ele é sportinguista, eu sou do Benfica. Ele tem raízes no Norte, eu no Alentejo. Ele já me deixou à espera, eu já o deixei pendurado. Já fomos Butch Cassidy e Sundance Kid (Robert Redford e Paul Newman, na imagem) e já interpretámos cenas tão tristes e ridículas e divertidas que fariam corar os argumentistas de A Ressaca. Já desabafei com ele sobre falhanços e já fui confessor de factos que levarei para o caixão.

Nem sempre estamos de acordo, mas quase vinte anos passados, estou convencido que não há nada que cinco ou seis cervejas e alguns momentos de silêncio precedidos de um exclamativo e másculo “vai-te lixar!” (ou outras versões menos polidas) não resolvam. Há dias chegámos à conclusão que estamos empatados: não sabemos ao certo qual dos dois bebe mais cerveja. Nunca mais chega domingo – quando ele regressa das suas mui gastronómicas férias no Norte – para eu lhe dar um soco numa omoplata enquanto abro uma mini:

Como é, pá? Já vou na quinta.

[Publicado originalmente a 19 de Setembro de 2014, no Facebook.]

Redford-and-Paul-Newman

Las Vegas: para a piscina europeia, por favor

Alguém disse um dia que viajar é o melhor antídoto contra a xenofobia. Eu pude comprová-lo há uns anos, quando tive a sorte de visitar Las Vegas. Fiquei no 10º piso do Encore at Wynn, com vista para o deserto do Nevada, passeei pela Strip, fui a clubes nocturnos impróprios para meninos e estreei-me a jogar póquer. Ir a Las Vegas não é diferente de visitar Paris ou Copenhaga. São as pessoas que fazem as cidades e as pessoas tendem a ter os mesmos defeitos em todo o mundo.

Numa tarde, desci do quarto e fui até à piscina. Era verão, o que significa que a temperatura ultrapassava facilmente os 40º. Comprei os calções de banho mais baratos que encontrei no centro comercial do hotel, recolhi a minha toalha e entrei na piscina a temer pela sanidade mental. Las Vegas é um paraíso para bachelors, latinos com problemas de peso, jogadores de blackjack de todo o mundo, aspirantes a estrelas de reality shows, mulheres com silicone excessivo, transsexuais, traficantes de droga, mafiosos mexicanos – em geral, gente pouco recomendável.

No entanto, a piscina do hotel aparentava uma pacatez que contrariava o senso-comum: famílias a tomar banhos de sol, senhoras a ler romances de quinta categoria, crianças a brincar dentro de água, uma calma contra-intuitiva. A um canto, uma placa indicava European Pool – This Way. Havia, portanto, uma segunda piscina; e era “Europeia”. Intrigado, lá fui, tão europeu quanto possível (branco como cal, com uns chinelos ridículos, calções low cost e a toalha ao ombro). Um pequeno carreiro entre árvores e relvados, um caminho sinuoso, conduzia à misteriosa piscina. E eis que Las Vegas se revelou em todo o seu esplendor. Dezenas de jovens norte-americanos bebiam cocktails enfeitados com coloridas sombrinhas de papel. A um canto, duas mulheres de ascendência oriental faziam topless, peitos redondos, demasiado redondos. Artificialmente redondos. Deitadas nas espreguiçadeiras, eram o centro das atenções, o alvo dos olhares dos WASP. Nem sombra de crianças. Nem sombra de respeitosas senhoras de família. À minha volta, as aspirantes a Paris Hilton e Kim Kardashians conversavam à beira da piscina enquanto chapinhavam com os pés na água, toda a gente em topless, 50 Cent nas colunas, cervejas a passar de mão em mão. E mais mulheres em topless. E mais homens boquiabertos.

Observei, tão recatado quanto me foi possível, e rapidamente me cansei do cenário, que poderia facilmente entrar num episódio de CSI Las vegas com uma participação especial daquele rapaz-rapper que foi casado com Britney Spears. Uma cerveja e quinze dólares e vinte minutos depois, regressei à piscina conservadora.

Moral da história: nunca é tarde para nos conhecermos a nós mesmos, ainda que para isso tenhamos de aprender a terminologia da indústria hoteleira norte-americana. E porque é viajar um antídoto contra a xenofobia? Digamos que para os norte-americanos, nós, europeus, somos uns libertinos não é isso que nós pensamos deles?

 

“The secluded european pool at Encore allows for topless sunbathing.”
encore2

saudação a Glasgow

 

Londres em miniatura, cidade criativa ou terra de gente à beira de um ataque de nervos. Basta estar atento à arquitectura, às artes ou ao movimento nocturno. Bem-vindos à Glasgow moderna. 

“Ali vai a Eleigh, que toca ukelele”, diz-me Muttley, aproveitando a rima no inglês original, e apontando para o outro lado da rua. Estamos em frente ao bar 78, fumamos um cigarro e eu peço-lhe, então, que me apresente a tocadora de ukelele: “Sim, é um instrumento de origem portuguesa. Foram navegadores da Madeira que o deixaram no Havai, certo?”. A história é mais ou menos esta e são estas curtas palavras as que trocamos antes de ela partir, na sua bicicleta. A jovem tem um projecto musical com um curioso nome, Eleigh Daily Ukelele Caleigh, uma brincadeira com a linguagem para o nome de uma banda que mistura o instrumento de origem portuguesa com uma dança tradicional escocesa, Caleigh.

O fait divers serve apenas como exemplo para demonstrar a facilidade com que conhecemos pessoas ligadas às artes, e à música em particular, na mais populosa cidade escocesa. O nosso anfitrião acidental, apresentado por alguém que conhece alguém que nós conhecemos ao acaso, é um jovem e pequeno empresário de sucesso, proprietário de um armazém com perto de cinco mil metros quadrados, o Studio Warehouse, cujas salas aluga a artistas plásticos e bandas.

Um dos inquilinos de Muttley é Eva Merz, artista plástica e autora de um livro sobre a dura realidade dos sem-abrigo de Aberdeen, provocantemente chamado Get a Fucking Job. A banda Popup ocupa outra sala.

A UNESCO acaba de atribuir a Glasgow o título de Cidade da Música, a terceira depois de Sevilha e Bolonha. E bem. A cena musical é forte ao ponto de nos ter dado bandas como os Belle & Sebastian ou, mais recentemente, os Glasvegas. Já tudo foi estudado no que diz respeito ao ambiente em que nascem as bandas indie que fazem com que os miúdos atormentem os vizinhos. Para fazer este caldo precisamos de três ingredientes: descendentes da classe operária, atmosferas sujas e impuras e clima instável. Tudo isso está, aqui, presente, e embora não sejam, à primeira vista, um exemplo típico desta realidade, os Popup podem muito bem transformar-se na próxima revelação de Glasgow ao mundo. O vocalista, Damian Gilhooly, cofia a barba rala, diz-nos que a banda participou no festival South by Southwest, no Texas, e oferece-nos um CD de apresentação com os temas que haveriam de sair no primeiro álbum, A Time and a Place. Que serviu de banda sonora à nossa incursão em terras escocesas.

 * * *

Noite dentro

Por vezes cinzenta, como estivesse prestes a chover, por vezes solarenga, como se o Sol quisesse banhar esta terra, mas nunca monótona. Há sempre qualquer coisa para descobrir. Glasgow oscila entre uma beleza primaveril e, uma outra, outonal. É Verão, quando visitamos a cidade, e o Verão, aqui, é uma mescla de sensações, dizem-me.

Ao contrário de Edimburgo, aqui, o postal ilustrado não apresenta monumentos cliché. As ruas têm personalidade, sim, mas o papel de centro histórico do país está reservado para a capital. Em Glasgow, terá ainda a vantagem de não se cruzar com hordas de turistas de máquina em riste, preparados para “disparar” ao mais pequeno pormenor de vista.

Antiga cidade operária, faz do cinzento a sua cor – o que lhe dá um ar, não sujo, mas típico. Além disso, faz-nos sentir em casa. Com uma dimensão pouco maior do que a de Lisboa, é um óptimo destino para quem gosta de caminhar, com a vantagem, em relação à capital portuguesa, de não ser feita de colinas.

A nossa estada em Glasgow conta poucas horas. Depois de uma experiência gastronómica
(a não repetir) no The Italian Café (comida banal e ambiente loucamente ruidoso), na primeira noite, decidimos rumar ao Sudoeste da cidade, à zona nova. Em frente ao rio Clyde – uma outra semelhança com Londres; a cidade desenvolve-se em torno do rio que a atravessa – sopra uma brisa fria. O rio reflecte os edifícios da Glasgow moderna, que contrastam com os seculares que encontramos no centro. O Sol põe-se cerca das 22 horas, embora seja possível encontrar luminosidade natural até perto da meia-noite. O lusco-fusco prolonga-se e ainda conseguimos fotografar o imponente Auditório Clyde, conhecido por Armadillo, com luz natural. Na margem esquerda do rio, o edifício da BBC Scotland impõe-se naturalmente, de frente para o Armadillo. À nossa esquerda temos a Kingston Bridge, inaugurada em 1970, e com assinatura do curioso engenheiro William Fairhurst, que ficou tão ou mais conhecido como xadrezista do que como construtor de pontes.

Glasgow é uma cidade de contrastes. A colorida penugem dos cisnes que vemos no rio Clyde opõe-se ao clima negro que encontramos, por exemplo, numa das zonas mais trendy da cidade, no extremo oposto do mapa. Depois, há o frio. E as mulheres que andam ao frio. De mini-saia
e decotes pronunciados. Quase todas bonitas, maquilhadas, de collants e sabrinas, ou saltos altos. Há as filas para concertos às sete da tarde, em pleno centro. Voltamos atrás e pensamos que esta gente é louca. Como é que, com luz natural até tão tarde, a população vive tão pouco a noite. Estávamos prestes a descobrir.

No interior do Bamboo, um pequeno corredor leva-nos da zona pop, com raparigas extra-
-maquilhadas e rapazes à procura de conquistas, à sala reservada ao rock alternativo. No ar, Arctic Monkeys, com Fake Tales of San Francisco, uma espécie de manifesto antipresunçosos e que define a gente que aqui se junta. Pedimos uma cerveja (na verdade, duas ou três), estudamos o ambiente e voltamos ao nosso hotel, em Bath Street, a escassas dezenas de metros do bar. O mapa da Glasgow nocturna é tão forte como o da Edimburgo cultural, o que faz desta cidade uma melhor escolha para quem precisa de um pouco de clubbing para desfrutar de umas férias citadinas.

Na noite seguinte rumamos ao Òran Mór, para alargar os horizontes nocturnos.

A voz de Violet ecoa, cristalina. “Oh lord, protect my child”, ouvimo-la cantar, logo que entramos nesta antiga igreja. Lá dentro, a atmosfera convida a um pint. Ainda que não seja uma Nina Simone, Violet espanta pela voz – ainda para mais sabendo que se trata de uma assistente social e que é a primeira vez que banda actua junta. O clima é de festa. Um dos empregados de balcão, um tal de Alec Dyson, levanta-se e vai cantar Hoochie Coochie. E toda a gente bebe e ri.

São assim os escoceses.

 * * *

Uma cidade dentro de outra

Um quarteirão inteiro isolado do resto da cidade, Merchant City é uma das zonas nobres e históricas de Glasgow. A sua origem mistura-se com a da cidade e remonta a meados do primeiro milénio, ao ano 543, quando Kentigern, um jovem monge irlandês, abandonou a terra natal para aqui se estabelecer. Conta a lenda que era sobrinho do lendário rei Artur e que previra o seu destino escocês num sonho. Chamou a esta terra Glaschu, ou dear green place (querida terra verde) e, apesar das pequenas alterações, o nome da cidade mantém-se até hoje. É em Merchant City que nasce a Glasgow moderna. Depois da epidemia de peste bubónica, ainda na Idade Média, esta zona atravessa um período próspero, apesar dos frequentes e grandes incêndios que a assolaram, e passa a ser lar tanto das descobertas científicas como das fine arts.

É impossível não ficar rendido a Merchant City, assim que temos o primeiro vislumbre
do arco de entrada da cidade, junto à Royal Exchange Square. Bares gay e straight convivem pacificamente e o corrupio de gentes convida a um copo. Isto, pela madrugada adentro.
De dia, Merchant City cede ao consumismo desenfreado e enche-se de turistas, que visitam, por exemplo, o GoMA, ou Gallery of Modern Art, que apresenta, por estes dias, uma exposição do artista local Jim Lambie, Forever Changes, e de Jo Spence, fotógrafa inglesa falecida em 1992, e que viria a dedicar parte da sua carreira aos auto-retratos. Estarrecido, olho para Spence, nua, cosida de uma lumpectomia e com inscrições onde tanto anuncia que aquele peito com um mamilo desfigurado é “propriedade de Jo Spencer” como tratando-se de um “monstro”.

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Um centro histórico

Em frente à estátua de Donald Dewar, primeiro primeiro-ministro escocês falecido em 2000, inaugurada no mesmo ano por Tony Blair, onde lemos um convincente “There shall be a scotish parliament”, um grupo de adolescentes tenta posar para a nossa câmara. Querem aparecer numa “travel magazine”. Estamos no começo de Buchanan Street, uma das ruas mais movimentadas de Glasgow, repleta de lojas de moda, e na moda, e que termina, lá em baixo, num beco onde encontramos um farol. Um farol no meio de uma cidade? Trata-se de uma das muitas criações de Charles Rennie Mackintosh, que se encontram espalhadas por Glasgow. Os cerca de cem degraus do Lighthouse conduzem-nos até um patamar de onde vemos toda a cidade. Lá em baixo, uma confusão de edifícios, cúpulas e telhados contrastantes. O moderno mistura-se com o antigo numa harmonia claramente britânica. Tivéssemos aqui caído por magia e adivinharíamos imediatamente: estamos na Grã-Bretanha. Quando olho para baixo, vejo um escocês, num terraço, a tomar banhos de sol, em tronco nu e deitado numa chaise-longue, de óculos escuros e a beber uma cerveja. Pela minha experiência da noite anterior, é uma Budweiser.

Voltemos, então, à noite anterior. À porta do Bamboo, uma escocesa de tez pálida e madeixas loiras a escorrer pelo pescoço diz-me, num inglês mastigado pelo cigarro: “I just love Glasgow”. Repete: “I love it.” E adianta, à guisa de guia para estrangeiros curiosos: “Não há nada como Glasgow. Sabes?, isto não é como Edimburgo”. E remata: “I love Glasgow”, com o sotaque escocês cada vez mais presente e exagerado, parece-me que por uma taxa de álcool proporcional ao orgulho local, em doses elevadas. As gentes de Glasgow não são chatas (no sentido inglês do termo “boring”) como os de Edimburgo, dizem eles. Sabem divertir-se e divertir quem vem de fora. Pelo menos assim é connosco. Mas, hoje, o Bamboo está transfigurado. A sala indie está fechada e abriu uma outra, atrás de uma porta que eu juraria ser de uma saída de emergência, onde desfilam botas da tropa e uniformes negros. Hoje é a noite de metal. Et pour cause, adiante.

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A cidade que se “vende”

Perto do West End, zona de bares e de diversão nocturna, diria, mais popular, por oposição às zonas mais indie, encontramos a Universidade de Glasgow, onde ensinou um dos mais conhecidos economistas do mundo, Adam Smith, o criador da expressão “mão invisível”. A sul, o Kelvingrove Art Gallery & Museum impõe a sua fachada sobre Argyle Street. A rua desemboca, mais à frente, em Dumbarton Road. E logo depois da esquina da Dumbarton Road com Byres Road encontramos um dos melhores restaurantes da cidade.

É quase por instinto que decidimos entrar no Number 16. Atravessamos a rua, a pé, e, como que pelo aspecto, descobrimo-lo. Os dois minúsculos andares do restaurante não acomodam muito mais do que uma vintena de comensais. Ronnie Campbell, um calvo bem-disposto, oferece-nos uma mesa no primeiro andar. “Cozinha moderna, escocesa e internacional”, diz-nos, como que regulamentando as nossas escolhas. Arrisco o risotto e pedimos um Rioja, seguido de um vinho de colheita tardia. Um bom jantar a preceder a nossa primeira experiência chuvosa, na rua dos bares do West End, Ashton Lane.

“Barcelona tem Gaudí, Chicago tem Frank Lloyd Wright, Glasgow tem a magia da Arte Nova de Charles Rennie Mackintosh”. A cidade apresenta-se a si mesma desta forma, dando ao, à época, incompreendido Mackintosh estatuto de símbolo. De facto, uma parte de Glasgow, a mais importante, diria, gira em torno deste arquitecto falecido em 1928. A arquitectura da cidade, com a marca de Mackintosh, foi duramente criticada no início do século, mas o traço do génio haveria de sobreviver. Hoje, a cidade está pejada de artistas, aspirantes a artistas, jovens promessas e confirmações, e o intercâmbio entre as artes é visível aos olhos de quem quiser ver. Há uma harmonia entre músicos, pintores, escultores e, por vezes, tudo se toca. Em conversa, dizem-nos, em mais um exemplo de orgulho local, que o vocalista da banda Franz Ferdinand estudou na Glasgow School of Art (e manteve durante bastante tempo uma coluna sobre gastronomia no The Guardian). Outro dos exemplos do intercâmbio entre as artes é dado por Peter Howson, na forma de chamada de atenção para comportamentos menos recomendáveis, em que o artista local retrata o cantor popular inglês Peter Doherty (mais famoso, em Portugal, pela relação mantida com a top model Kate Moss do que propriamente pela música) morto.

Mas a Glasgow das artes requer a ida à descoberta. É uma cidade que se aconselha a si mesma. E dir-se-ia que, depois de uma viagem relâmpago, o que me fica na memória, mais do que a arquitectura ou as artes, são as pessoas. São elas quem nos diz o que ver, bastando-nos segui-las. Podemos beber um copo no Stereo ou visitar o Modern Institute, mas o que trazemos para casa é uma colecção de memórias de gente acolhedora. Aqui, as pessoas não têm ar de aristocratas, como os ingleses, nem aparentam ser desleixadas, como os irlandeses – descontando tudo o que de preconceituoso existe numa afirmação como esta. Há os kilts, os sempre engraçados kilts. Vimo-los às dezenas, logo no primeiro dia na cidade que nos acolhe, e não evitamos a interrogação: “Será que há tanta gente a usar, ainda, o traje tradicional?” Afinal, estamos em Glasgow enquanto se realiza um festival de pipes. E conseguimos evitar o cliché.

 * * *

Um roteiro

Com a quantidade de locais a visitar, desde museus a pubs e jardins, Glasgow tanto se presta a romarias ao acaso como a saídas organizadas. Uma das opções mais indicadas, para quem deseja planear uma viagem ao pormenor, consiste em estabelecer um ponto de harmonia entre os locais que se visita. A cidade estabelece-se em torno do rio Clyde e é atravessada por diversas pontes, pelo que é viável andar de margem em margem. Andar a pé é perfeitamente possível, para quem não se importa de abdicar do conforto dos transportes públicos. Comece pelo East End: à beira-rio, o enorme jardim Glasgow Green é um bom local para um pequeno-almoço. Siga para oeste, rumo a Argylle Street, e ande para norte. Está em pleno centro de Glasgow. Aqui, os pontos de interesse são tantos que o visitante rapidamente se decidirá. Entre o centro comercial de St. Enoch e as galerias Buchanan, ligadas por Buchanan Street, dois pontos obrigatórios para os viciados em compras, encontrará, escondido numa ruela, o Farol de Mackintosh. Do cimo terá uma vista panorâmica sobre a cidade.

É a partir desta zona e nas suas imediações que encontrará as grandes lojas da moda, galerias de arte, auditórios e teatros. Perto, encontra-se Merchant Street, uma das zonas mais antigas e preservadas e onde encontra, literalmente, tudo, restaurantes a bares, lojas, livrarias… Para lá de Mitchel Street encontram-se as grandes ruas da cidade, que a atravessam de este a oeste: St. Vincent, W. George, W. Regent, Bath ou Sauchiehall Street. Os restaurantes e hotéis destas ruas constituem quase todos boas escolhas para almoçar e retemperar energias.
À tarde, se não se quiser perder pelo centro, visite Kelvingrove Park, cujo museu merece certamente uma visita atenta. Dumbarton Street e Argylle Street são das ruas por que se pode guiar para vaguear. A poucos minutos daqui, o West End é obrigatório como local para beber uma cerveja. Caso prefira o chá a bebidas feitas a partir de cevada ou malte, Glasgow tem várias casas de chá onde poderá tomar a bebida introduzida no Reino Unido pela portuguesa D. Catarina de Bragança, como o Willow Tea Room, com Mackintosh, uma vez mais a dominar a decoração.

 

[Edição revista do texto publicado originalmente na edição de Dezembro de 2008 da Rotas & Destinos. Fotografia de Manuel Gomes da Costa.]

O meu segundo clube

Gosto do Arsenal. Ao contrário do que acontece com o meu “primeiro” clube, de que sou adepto desde tempos imemoriais e por razões que a própria razão desconhece, sei explicar a origem da minha paixão pelos gunners. O Arsenal é de Londres, a melhor cidade do mundo, equipa de vermelho, uma razão tão aceitável como qualquer outra, e é o clube de alguns amigos, reais e “platónicos”. Um deles é Nick Hornby, autor dos romances Alta Fidelidade e Era Uma Vez um Rapaz e da autobiografia Febre no Estádio.

Há alguns meses comprei o seu livro Stuff I’ve Been Reading, um pequeno volume, com uma capa simples, a amarelo, e título em alto­-relevo, que reúne as crónicas que o autor assina todos os meses na revista The Believer. Trata-­se de uma revista literária norte­-americana. E os textos de Nick Hornby são sobre isso mesmo, livros. Pelo meio, encontra invariavelmente uma forma de falar sobre futebol, e sobre o seu clube. Em agosto de 2006 escreveu precisamente sobre a derrota do Arsenal frente ao Barcelona na final da Liga dos Campeões (golo de Campbell para os londrinos; Eto’o e Belletti para o ‘Barça’), cometendo a proeza de ligar o tema ao seu desejo de se mudar para Oxford, Mississippi, para ficar perto da poeta Beth Ann Fennelly.

Nick Hornby, está visto, é ‘louco’ por futebol. E ‘doente’ pelo Arsenal, o emblema da classe trabalhadora de Londres, dos descendentes dos irlandeses, que ajudaram a ampliar a cidade no início do século XX, o clube do povo. Entre os seus adeptos estão David Gilmour, Roger Waters ou Mick Jagger, para nos ficarmos pela música, e Isabel II, se quisermos atingir o topo da escala social britânica. A “descoberta” da existência desta adepta soberana aconteceu apenas em 2007, quando a própria rainha o confessou a Arsène Wenger durante uma recepção – alguma sorte e uma cerimónia mais demorada e teríamos visto Isabel II pedir um autógrafo a Cesc Fabrègas, com quem conversou demoradamente.

Mas a razão mais importante para eu gostar do Arsenal talvez seja a associação que faço entre o clube e a literatura – e isso acontece graças a Nick Hornby e à cultura anglo­saxónica. Bem sei que Lobo Antunes gosta de futebol, e que Saramago não ficava completamente indiferente ao rolar da bola. Mas em matéria de futebol e literatura, Nick Hornby é de outra liga. Tal como o Arsenal. Perguntem a Jorge Jesus.

 

[Publicado na edição de Setembro de 2014 da Revista Futebolista]

futebolista

passagens

“a vida é como o xadrez.”

“o que queres dizer com isso?”

“que a melhor defesa é o ataque.”

“estás muito bélico, hoje”

“trata-se apenas de não dar a outra face.”

“por oposição ao cristianismo?”

“tal como o xadrez.”

“queres dizer que o xadrez se opõe ao cristianismo?”

“não necessariamente, embora a maior potência do xadrez no século xx tenha sido a união soviética.”

não foi um americano que acabou com a hegemonia deles?”

“eu não te disse que a vida é como o xadrez?”

 

***

noventa por cento das pessoas que conheço não sabe o significado de ‘misantropo’. julgam-me tímido.

 

***

a astróloga elaborou o meu o mapa astral com base numa data de nascimento que não era a minha. posto que poderá ter acertado, embora na pessoa errada. 

 

***

falava quatro línguas estrangeiras, mas cuspia no chão. moral da história: a civilização não se mede em dicionários.

Áureo Soares nasceu em Lisboa em 1982. Licenciado em Ciências da Comunicação, estagiou no Correio da Manhã e foi repórter da GQ Portugal entre 2006 e 2014.

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