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o meu vizinho manuel da fonseca

Eu teria uns sete ou oito anos, vivia no Seixal, terra de comunistas austeros, funcionários públicos e trabalhadores da indústria vindos do Alentejo durante o êxodo rural das décadas de 50 e 60.

No meio daquela vizinhança matizada, destacava-se um homem, Manuel da Fonseca, ou o meu vizinho do primeiro-esquerdo, autor dos romances Cerromaior e Seara de Vento, de quem recordo o sorriso amável, pouco comunista.

Natural de Santiago do Cacém, Manuel da Fonseca estudou no Liceu Camões e na Escola de Belas Artes e passou uma parte importante do fim da sua vida – morreria em 1993 – frequentando locais pejados de operários, proscritos e indigentes.

Certa ocasião, eu jogava futebol com os outros meninos, quando o vi chegar, lá ao fundo, subindo a rua íngreme que dava para a praceta onde vivíamos. Acenou na minha direcção. Ciente de que aquela era uma pessoa “importante”, fui ao seu encontro. Ele levou a mão a um dos bolsos e retirou uma moeda de vinte escudos. “Isto é para comprares uma pastilha”. Eu agradeci e continuei o meu jogo até finalmente ir para casa contar aos pais que o Manuel da Fonseca me dera uma moeda.

Anos depois, a sua viúva, observando que eu me interessava por essas coisas da leitura, passou a oferecer-me um livro do marido nos meus aniversários e pelo Natal. E assim li os volumes de crónicas “À Lareira, Nos Fundos da Casa onde o Retorta tem o Café”, “O Vagabundo na Cidade” ou “Crónicas Algarvias” e os contos reunidos em “O Fogo e as Cinzas” ou “Um Anjo no Trapézio”, indispensáveis para quem pretenda conhecer o Alentejo rural e dos tempos da Ditadura e um excelente primeiro contacto com o neo-realismo português, agora que passam 105 anos sobre o nascimento de Manuel da Fonseca.

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o pão que o Salazar amassou

Os meus avós viviam numa casa humilde, numa pequena aldeia no Alentejo, duas portas ao lado de um posto da Guarda Nacional Republicana. Eram os anos 60. Não havia electricidade, a comida escasseava, os homens em idade de combater eram mobilizados para as colónias que o regime tentava manter a tudo o custo, as raparigas em idade de namorar tornavam-se madrinhas de guerra dos militares. Na escola, a professora ensinava a dezenas de alunos de diferentes anos de escolaridade numa só sala de aula, com a ajuda da santíssima trindade – a Cruz, o retrato de Salazar e a palmatória. As crianças andavam descalças ou com sapatos artesanais improvisados pelos pais mais criativos. Os rapazes brincavam com bolas de trapo e carrinhos feitos de latas de conserva recolhidas no lixo das famílias ricas. Os homens trabalhavam de sol a sol, nas minas de pirite ou no campo. As mulheres trabalhavam de sol a sol, no campo e em casa. E para ter isqueiro era necessário obter uma licença, cuja fiscalização era escrupulosamente cumprida pela GNR.

Naquela noite, no início da década de 1960, no Portugal profundo, as autoridades levaram a cabo a sua função de oprimir a população e espancaram um homem pela madrugada dentro. Os seus gritos de aflição entravam pela casa dos meus avós. Ninguém dormiu. Ninguém sossegou. Aquele homem que sofria no posto da guarda era o tio do meu avô – nunca mais foi a mesma pessoa, contaram-me, vindo a morrer poucos anos depois do episódio. Eis o “meu” 25 de Abril. A revolução dos que nada têm. A revolução daqueles que pensam que, quarenta anos depois, pouco mudou. Vejamos, o mundo também é feito destes pequenos detalhes: de uma Justiça que deixa prescrever crimes de milhões e condena um esfomeado que rouba um pão num supermercado. O mesmo pão de há quarenta anos. O pão que o Salazar amassou.

[Publicado originalmente a 24 de Abril de 2014, no Facebook]