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Viver e morrer em São Petersburgo

Um dia, tal como pediu Joseph Brodsky no poema Estrofes – “Não escolherei país ou paróquia / Virei morrer à ilha Vasilievsky” – todos deveríamos ter a oportunidade de ir morrer a, ou de visitar, São Petersburgo. 

Fundada em 1703 por Pedro o Grande, São Petersburgo ombreia em monumentalidade com capitais como Paris ou Viena. De facto, o czar tinha o sonho de ocidentalizar o seu país e por isso bebeu da cultura europeia o mais do que suficiente para criar um monumento à arte, à arquitectura e à cultura numa região então abandonada, semi-desértica, junto ao Golfo da Finlândia.

São Petersburgo – que teve o nome de Petrogrado entre o início da I Guerra Mundial e 1924, quando passou a chamar-se Leninegrado, designação que persistiu até à queda da União Soviética – é o lar de um dos mais impressionantes museus do mundo, o Hermitage.

Instalado nos edifícios que constituíam a residência do último Czar, Nicolau II, da dinastia Romanov, alberga obras de artistas como Leonardo da Vinci, Matisse, Rembrandt ou Paul Cézanne, entre muitos outros, além de expor alguns dos famosos ovos da Páscoa da Casa Fabergé, arte de vários períodos, desde o Paleolítico aos nossos tempos, e com inúmera proveniência, num total de cerca de três milhões de peças. Segundo os responsáveis, se nos detivéssemos durante um minuto em cada peça demoraríamos 11 anos a ver o museu. Reserve-se um dia inteiro, ou mesmo dois, para uma visita mais modesta. E atente-se que apenas o próprio edifício merece a visita.

Sendo uma cidade imperial por excelência, capital do regime czarista durante perto de 300 anos, São Petersburgo está repleta de palácios, casas apalaçadas, edifícios de apartamentos em estilos que vão do barroco ao neoclássico, pontuada por outros de inspirações diversas, como o da Casa Muruzi, onde viveu o já mencionado Joseph Brodsky, com tectos e arcadas ao estilo arábico.

A cidade desenvolve-se em torno da incomparável Avenida Nevsky, que dá título a um dos mais famosos contos de Nikolai Gogol. A avenida atravessa a cidade desde a Praça Alexandre Nevsky até ao Palácio de Inverno; pelo meio, cruza os rios Fontanka e Moika e o canal Griboyedova, e encontra-se com as ruas Bolshaya Morskaya, Malaya Morskaya e Kazanskaya, geografias repletas de histórias e lendas, locais de conspiração, como a que levou ao assassinato do “monge louco” Grigory Rasputin, no palácio Yusupov [na imagem].

Ao contrário de Moscovo, em que impera um certo ar de ‘começo de festa’, uma cidade opulenta onde importa mostrar cartão de crédito – Moscovo é a segunda cidade do mundo em número de bilionários, atrás apenas de Nova Iorque – em São Petersburgo o ambiente é incomensuravelmente mais culto. Em vez de discotecas repletas de homens na crise da meia-idade, temos ruas de bares com hipsters e de restaurantes de comida internacional. Em vez de um desfile de Maseratis e Ferraris, vemos Oldsmobiles e Cadillacs. Homens e mulheres são igualmente requintados, enquanto em Moscovo eles têm tendência a ser mais erectus do que sapiens. 

Locais a visitar, apenas alguns, numa cidade que consiste toda ela num ponto de interesse: além do Hermitage, Casa Museu Anna Akhmatova, Fortaleza de São Pedro e São Paulo, Catedral de Santo Isaac, Catedral do Sangue Derramado, Museu Fabergé, Cavaleiro de Bronze na Praça do Senado, Catedral de Kazan, Praça Lenin (junto à estação ferroviária onde o revolucionário desembarcou após a revolução de Fevereiro de 1917), o Cruzador Aurora (ancorado junto ao bairro de Petrogradskiy, no rio Bolshaya Nevka, e de onde foi dada a ordem para invadir o Palácio de Inverno e dar início à Revolução de Outubro), além de bares, livrarias e pequenas ruelas capazes de nos surpreender a cada instante. Um passeio à beira-Moika, Fontanka ou Neva é um bom tónico para quem, como eu, sentiu saudades do Tejo após três semanas em Moscovo.

Joseph Brodsky não cumpriu o seu desejo. Morreu em 1996, aos 55 anos, em Nova Iorque, Estados Unidos, após ter sido “convidado a sair” da União Soviética em 1972. Não sem antes ajudar a eternizar a ilha Vasilievsky e a sua terra-natal, imperial cidade da cultura, das artes e das ideias, que todos os homens deveriam poder visitar um dia.

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