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a sabedoria dos mais velhos

Nos idos de 1998, com a idade de 16 anos, escrevi um conto intitulado “Um Verão Indiano” para a disciplina de Português. O texto combinava elementos de uma certa estética ou subcultura new age, que chegava a Portugal com mais de uma década de atraso, de onde me inspirei para o título, com as minhas influências musicais e literárias de então – eu ouvia muito The Doors e Velvet Underground, além do típico grunge da década e de alguma música clássica e tinha treslido “Os Versículos Satânicos”, “Assim Falava Zaratustra” e “Utopia”.

Em suma, escrevi um texto de merda.

A minha professora, por ser também directora de turma, estava tão a par dos meus zeros a comportamento quanto da minha capacidade para, com pouco estudo e menos esforço, tirar boas notas, ou as necessárias para passar de ano. Talvez por isso, presumo hoje, ela tenha gostado do meu conto avaliando-o com um Excelente, sem deixar de escrever o seu comentário: “Basta teres vontade e poderás ser tudo o que quiseres”.

Poderiam ter sido palavras proféticas, aquelas, caso eu hoje fosse quem eu desejava ser na altura e, principalmente, caso a minha vontade de ser “alguém” tivesse sido suficiente para que eu cumprisse, por assim dizer, o meu devir. Mas que desejava eu ser, em 1998, ano em que foi fundada a Google, morreu Frank Sinatra e estalou o escândalo Monica Lewinsky?

Quando olho para aquela época apercebo-me de que fui um adolescente teimoso, rebelde, inconformado e que lidava mal com a autoridade. Ou, como qualquer jovem deve ser. Recordo, como exemplo, um certo orgulho que tive em não ter visitado a Expo ’98, que eu entendia como um desperdício de dinheiro, uma perda de tempo e uma sabujice. Ou as minhas reservas quanto a ir ao cinema oriundo — estreava Titanic, um filme de que muitos rapazes se aproveitaram para sacar uns beijos às mais incautas debutantes. Ou a minha teimosia em não frequentar o McDonald’s, tudo exemplos de actividades a que os meus colegas e amigos se dedicavam com frequência e a que eu, felizmente, me poupei.

Em 1998, sabemos hoje, os tempos eram de mudança. O primeiro-ministro, António Guterres, prometia uma ‘paixão pela educação’ e o desenvolvimento sustentável que não houvera nos tempos dos PM Cavaco I, II e III. O presidente da República, Jorge Sampaio, fazia discursos que ninguém entendia. Apareciam os telemóveis e a Internet e o ‘bug’ do milénio assustava os crédulos. A classe média-baixa fazia férias em time-sharing, a classe média comprava segunda casa, a classe baixa estava lixada e a alta preparava-se para lixar os restantes. Eu trabalhava no Verão para comprar uma guitarra eléctrica e lia, lia muito. Assim, o meu sonho teria sido, caso eu tivesse sonhado, ser guitarrista ou escritor. Porém, e em parte devido ao meu crescimento e à minha educação espartana e orientada para lidar bem com o insucesso, nunca fui um grande sonhador. além de que tal ideia nunca me foi apelativa. Tentei sempre ser tão racional quanto possível, eliminando do meu processo mental quaisquer ideias românticas sobre o futuro.

A mais antiga memória que tenho do que queria ser quando crescesse, e que foi também a minha primeira, digamos, desilusão profissional remonta à minha infância, quando uma advogada amiga do meu pai me fez a tradicional pergunta “o que queres ser quando fores grande”. Respondi-lhe que queria ir para a Marinha, ao que ela reagiu com um sorriso sarcástico e uma pergunta retórica: “Para a Marinha? Oh, meu querido, só se fosse para a americana!” Nos anos que se seguiram, eu ainda “quis ser” arquitecto, advogado e engenheiro, mas chegados a 1998 eu estava-me perfeitamente nas tintas, ocupado com as minhas leituras e diatribes interiores. Acabei por ir para Ciências da Comunicação quase por acaso e com a mera ambição de trabalhar num jornal — prova tanto da minha excessiva modéstia quanto da insensatez típica da idade.

Hoje, que desejo eu? Pouca coisa, além de ter uma vida pacata e, evidentemente, feliz. Se era isto, a minha professora acertou – e eu sou o que sonhei ser. Mas se aquilo que ela achava que eu deveria ser não passava de um mero reflexo das suas frustrações – nesse caso errou cabalmente.

Agora que penso nisso, a minha professora de Português, alguém de quem eu guardo boas memórias e que, infelizmente, não mais voltei a ver, teria à data a idade que eu tenho agora. Julgando-a à imagem do que eu sinto hoje, ela não seria assim tão sábia.

Que se lixe a sabedoria dos mais velhos.

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