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que gaga é esta?

A fama, diz-se, é efémera. No mundo da música, salvo raras excepções, são poucos os que conseguem manter-se no auge durante mais tempo do que aquele que os fãs demoram a consumir o seu produto e a cair nos braços da next big thing. Depois de dois anos em constante tournée e de dois álbuns e mais singles que venderam dezenas de milhões de cópias, Lady Gaga ameaça tornar-se numa dessas raras excepções.

Stefani Germanotta, de ascendência italiana, nasceu em 1986 numa Nova Iorque assolada por criminalidade violenta, antes da aplicação, na prática, das políticas que a transformaram no oásis de criatividade que hoje conhecemos.

Entre 1986 e 2008, Lady Gaga cimentou os seus conhecimentos de música e entretenimento – aprendeu piano com apenas quatro anos; estreou-se ao vivo ainda adolescente, nos bares de Manhattan e, com apenas 17 anos entrou na cobiçada escola de música Tisch, da Universidade de Nova Iorque.

As comparações com Madonna, rainha de uma pop de que Gaga está a tornar-se princesa, são inevitáveis. Ambas jovens à data da ascensão à fama, uma, a mais velha, teve uma rígida educação religiosa; outra estudou numa escola católica, detalhes das biografias de ambas que, não sendo condição sine qua non, terá ajudado a cimentar as suas peculiares visões do mundo. Para muitos, no entanto, as comparações terminam aqui. Apesar de a própria Madonna se ter aproximado da autora de Poker Face – o que poderá significar que a “rainha” sabe bem que a “princesa” poderá suceder-lhe num futuro próximo – a professora universitária e intelectual Camille Paglia, uma feminista célebre pelo seu anti-feminismo militante e especialista em estudos de género que se celebrizou na defesa de Madonna nos anos 80, foi implacável com Gaga num artigo assinado no The Sunday Times: “Lady Gaga é a morte do sexo.” Apesar de conceder-lhe o título de primeira grande estrela da era digital, Paglia critica uma certa hipocrisia na relação de Gaga com os fãs. “Embora se apresente como representante dos freaks e dos inadaptados, não existem provas de que ela tenha sido uma”, escreveu Paglia, que acusa Gaga de ser uma personalidade fabricada. A crítica é feroz e, até certo ponto, certeira, embora não existam também provas de que a própria Madonna não tenha sido ela também fabricada.

Lady Gaga é acima de tudo um sinal dos tempos, a estrela pop possível, hoje. Mas, ao contrário de Britney Spears, por exemplo, a sua imagem parece ser pensada pela própria e não por profissionais de marketing reunidos em sessões de brainstorming. Gaga é uma fabricação, sim, mas uma fabricação honesta.

A ideia de a cantora representar os inadaptados e os freaks está precisamente subjacente à génese da sua carreira; se ela cresceu numa Nova Iorque mais limpa do que a dos anos 70 e 80, nem por isso deixou de embrenhar-se no submundo da Big Apple. Antes de ser Lady, Stefani era uma presença constante em pequenos palcos dos clubes LGBT nova-iorquinos. Então, é apenas legítimo acreditar que Gaga é, para lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros, o que foi Madonna no passado para as mulheres, um símbolo. [A afirmação justifica-se a si mesma; basta entrar numa qualquer discoteca gay para ficar a conhecer a devoção deste público à sua musa.]

Podemos apontar-lhe a falta de um certo bom gosto musical, que contrasta com a sua boa formação na área, mas nunca afirmar que chegou a este patamar sem mérito próprio. Apesar da paródia [Bad Romance é uma piada de música; Alejandro um exemplo supremo de kitsch; Telephone, com um videoclip que parodia o já de si peculiar universo de Quentin Tarantino; Paparazzi uma sátira a um amor entre uma estrela e o seu parasita; e Poker Face uma mera navegação na crista da onda], Gaga é respeitada pelos seus pares. Depois das aparições ao lado de Madonna, em breve deverá gravar com Cher. O “amigo” Elton John apresenta o próximo single da cantora, Born This Way, como um novo hino gay, substituo de I Will Survive, Cindy Lauper posou ao lado dela para uma campanha da marca de produtos de cosmética MAC e, por último, até a revista britânica de política New Statesman se rendeu à sua aura, incluindo-a na sua lista das 50 personalidades mais influentes do mundo, num honroso 44.º lugar, na companhia de Angela Merkel, Barack Obama, Steve Jobs ou Paul Krugman.

A 10 de Dezembro, Lady Gaga actua pela primeira vez em Portugal. Num dos seus últimos espectáculos em território europeu, em Oslo, Noruega, a cantora surgiu em palco com, aparentemente, mais quilogramas do que os visíveis no último ano e meio. A polémica não se fez esperar. Grande parte dos sites de fofocas atribuem-lhe problemas de nutrição. Desde a sua ascensão a estrela pop, Lady Gaga terá sido hospitalizada seis vezes em virtude de privação de comida e de distúrbios alimentares. E também aqui, uma vez mais, é um sinal dos tempos, uma vítima, ainda que consciente, da voragem da moda, TV e internet. Que Lady Gaga vão os seus fãs portugueses poder ver a 10 de Dezembro? A que pesa entre 50 e 57 kg – a doutrina divide-se – ou a que é acusada de desleixada? O mais certo é verem um especátulo pop irrepreensível, ao nível dos que apresentou ao longo da Monster Tour. Mesmo que com alguns kg a mais. Aliás – o que é que isso interessa?

[Publicado na edição de Dezembro de 2010 da revista GQ Portugal.]