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o meu vizinho manuel da fonseca

Eu teria uns sete ou oito anos, vivia no Seixal, terra de comunistas austeros, funcionários públicos e trabalhadores da indústria vindos do Alentejo durante o êxodo rural das décadas de 50 e 60.

No meio daquela vizinhança matizada, destacava-se um homem, Manuel da Fonseca, ou o meu vizinho do primeiro-esquerdo, autor dos romances Cerromaior e Seara de Vento, de quem recordo o sorriso amável, pouco comunista.

Natural de Santiago do Cacém, Manuel da Fonseca estudou no Liceu Camões e na Escola de Belas Artes e passou uma parte importante do fim da sua vida – morreria em 1993 – frequentando locais pejados de operários, proscritos e indigentes.

Certa ocasião, eu jogava futebol com os outros meninos, quando o vi chegar, lá ao fundo, subindo a rua íngreme que dava para a praceta onde vivíamos. Acenou na minha direcção. Ciente de que aquela era uma pessoa “importante”, fui ao seu encontro. Ele levou a mão a um dos bolsos e retirou uma moeda de vinte escudos. “Isto é para comprares uma pastilha”. Eu agradeci e continuei o meu jogo até finalmente ir para casa contar aos pais que o Manuel da Fonseca me dera uma moeda.

Anos depois, a sua viúva, observando que eu me interessava por essas coisas da leitura, passou a oferecer-me um livro do marido nos meus aniversários e pelo Natal. E assim li os volumes de crónicas “À Lareira, Nos Fundos da Casa onde o Retorta tem o Café”, “O Vagabundo na Cidade” ou “Crónicas Algarvias” e os contos reunidos em “O Fogo e as Cinzas” ou “Um Anjo no Trapézio”, indispensáveis para quem pretenda conhecer o Alentejo rural e dos tempos da Ditadura e um excelente primeiro contacto com o neo-realismo português, agora que passam 105 anos sobre o nascimento de Manuel da Fonseca.

josé luís peixoto: uma aventura no reino de kim

[Texto publicado na revista GQ de Outubro de 2012. Versão editada.]

José Luís Peixoto visitou o país mais fechado do mundo e trouxe um livro na bagagem: Dentro do Segredo – Uma Viagem na Coreia do Norte. Ao longo de quinze dias, o autor, prémio Saramago em 2001, percorreu aquele país de autocarro, esteve hospedado num hotel decadente (o melhor da capital), comeu carne de cão, temeu pelas suas ações e fez várias vénias a estátuas do Querido e do Grande Líder.

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“Não se pode entrar com telemóveis na Coreia do Norte.” A frase de José Luís Peixoto, às primeiras páginas de Dentro do Segredo, ganha força à medida que a relemos: “Não se pode entrar com telemóveis na Coreia do Norte.” Rodeada pela Rússia, China, Coreia do Sul e pelo Oceano Pacífico, a Coreia do Norte é conhecida nos media como “o país mais fechado do mundo” – um cliché em si mesmo – uma sociedade autocrática e um enigma. Não tanto para José Luís Peixoto. Em Abril, o autor viajou até lá para assistir às comemorações do centenário do nascimento do pai (o Querido Líder, Kim Il-Sung), dos setenta anos do nascimento do filho (o Grande Líder, Kim Jong-Il), já então liderado pelo não tão santo espírito de Kim Jong-Un (o neto). O resultado foi Dentro do Segredo – Uma viagem na Coreia do Norte.

No dia desta entrevista José Luís Peixoto vestia uma t-shirt dos Moonspell, o que não é detalhe de menor importância. “Seria impossível vestir esta t-shirt na Coreia do Norte”. Realça, “não há qualquer informação que não seja propaganda”, nem mesmo uma inscrição numa peça de vestuário.

À entrada no país, em Pyongyang, feita por avião, José Luís Peixoto deixou o telemóvel e o passaporte num pequeno saco à guarda do regime. Quinze dias depois, à saída, em plena fronteira com a China, a norte, os seus pertences foram-lhe devolvidos por outro guarda. “É a única coisa que funciona naquele país, o controlo extremo dos cidadãos. Pode não haver eletricidade, água, comida, vestuário, mas o controlo dos atos das pessoas nunca falha.”

A Coreia do Norte, um país que não surge sequer no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas – Somália, Eritreia ou Butão são outros dos não contabilizados –, e resultado da divisão da Coreia em 1948 é uma nação sem memória. “Não acredito que a reunificação da Coreia seja possível a médio prazo”, afirma o autor, que conviveu com um povo sujeito a uma lavagem cerebral de décadas. As diferenças entre as duas Coreias são abissais. A sul, uma república de pendor capitalista, desenvolvida; a norte, uma nação que vive a Idade Média no século XXI e em que os habitantes acreditam – porque são forçados a acreditar – que no dia em que o Querido Líder nasceu, em 1912, o ano ‘0’ da Coreia do Norte, “os pássaros cantaram em coreano”, refere, a anunciar a boa nova.

Ao contrário do que é anunciado na resenha da contracapa, Dentro do Segredo não é um livro de viagens – no sentido de não se ocupar de trivialidades, de não ser um guia de lazer – embora esteja recheado de pormenores detalhados da geografia, orografia, clima ou hábitos culturais da Coreia do Norte. Seria abusivo tratar a prosa de JLP como escrita de viagens. “Trata-se de um livro escrito a partir de uma viagem – é isso”, refere o autor, “mas não é propriamente escrita de viagem”. Dentro do Segredo é um livro político. Uma declaração dos direitos humanos em prosa novelística. Por pouco não foi formalmente um romance. Todos os visitantes da Coreia do Norte são obrigados a assinar um documento, à saída – e indispensável para de lá sair – em que se comprometem a “não publicar qualquer relato ou registo daquilo a que assistisse”, escreve o autor. JLP estava, portanto, obrigado contratualmente, a cumprir esta premissa.

Ao longo das últimas décadas foram vários os autores que visitaram a Coreia do Norte. José Luís Peixoto leu B.R. Myers, autor de The Cleanest Race (em tradução livre, A raça mais Pura), que desvenda o cariz racista do regime, e textos vários espalhados pela imprensa de Christopher Hitchens, um autor que, em A Vitória de Orwell, denuncia o país como “uma sociedade em que a vida individual é absolutamente inútil, e onde tudo o que não é absolutamente obrigatório é absolutamente proibido”. Aliás, Peixoto tem em comum com Hitchens o interesse por regimes fechados. A ideia de viajar à Coreia do Norte surgiu-lhe um ano antes, em Los Angeles, onde conheceu um escritor coreano, Chiwan, e onde tinha por hábito frequentar o bairro de Koreatown. Sentia uma “curiosidade”, escreve, “por sociedades fechadas e sistemas políticos totalitários.” A curiosidade levou-o, primeiro, a trocar correspondência com escritores e a escrever em fóruns da internet bielorrussos, um país mediaticamente conhecido como “última ditadura da Europa”; depois, à Coreia do Norte, para a derradeira experiência no mais fechado, misterioso e pobre país do mundo.

José Luís Peixoto nasceu em 1974 em Galveias, Ponte de Sôr, no distrito de Portalegre. Do Alto Alentejo guarda resquícios do sotaque, que o denunciam pontualmente, o gosto pela gastronomia e algum vocabulário, como “magano”, nome, curiosamente, do seu restaurante preferido em Lisboa.

Aos 38 anos, faz parte da curta e prestigiada galeria de vencedores do Prémio Saramago. Foi mesmo o mais jovem a vencer o prémio estabelecido em 1999, à segunda edição e com apenas 27 anos, com o seu romance de estreia, Nenhum Olhar, de 2000. No mesmo ano foi finalista do Grande Prémio de Romance e Novela da APE e do Prémio do Pen Club. E é um nome ímpar no atual mundo das letras portuguesas, não apenas pela sua escrita mas também pelo estilo de vida, denunciado pelas tatuagens, piercings e pelo gosto pelo heavy metal. “Não sei dizer quantos tenho. Os meus piercings são muito particulares…”, diz, enquanto segura as pequenas argolas que lhe perfuram a orelha direita, em vários pontos, atravessando mais do que um orifício. “As pessoas que percebem de piercings chamam-lhe ear project.” É das poucas vezes em que ri – a sério, embora cultive um sorriso abundante – durante a entrevista. Faz pequenas pausas, para escolher as palavras, mas raramente se torna presunçoso. Inicia enumerações e explicações com um “pronto”, como se a literatura não fosse a vaca sagrada por que é não raras vezes tomada. Mas ela, a literatura, está sempre lá.

“Não sei o que temos em comum…”, diz, sobre a geração que venceu o prémio Saramago desde a sua criação, em 1999. Entre outros: João Tordo, Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mãe. Todos iguais, todos diferentes. Se o primeiro cultiva um estilo ‘urbano’, a obra de Gonçalo M. Tavares está repleta de referências externas ao país, por oposição à de Valter Hugo Mãe. José Luís Peixoto concorda. “Talvez tenhamos em comum o facto de sermos a primeira geração que, sendo influenciada pelo 25 de abril, não o viveu”. No caso de Peixoto, a influência da revolução torna-se especialmente presente. É um autor associado à Esquerda – uma associação que não só não nega, como faz questão de afirmar – e isso reflete-se na sua escrita, como aconteceu com o livro Nenhum Olhar, obra povoada de referências a um Alentejo pobre, que a crítica apelidou de mítico, e que o autor mistificou num romance que lhe valeu o prémio Saramago. Ainda assim, “Saramago foi contemporâneo dos Neo-Realistas e não pertenceu a escolas”.

Em resumo, que se lixem as “gerações”, as “correntes”. Já as viagens não apenas lhe importam, como o atraem cada vez mais. “Desde que os meus livros começaram a ser traduzidos”, e estão-no já para mais de uma vintena de línguas, “tenho viajado bastante”. Juntou o útil ao agradável e colabora agora uma revista de viagens. O mapa-mundi assinala Los Angeles, Las Vegas, Índia, China, Macau. O segundo lugar mais exótico, depois da Coreia do Norte: “A Índia.” De seguida, a China, “um país que tenho vindo a descobrir e que visitei quatro vezes desde 2011”. Mas “Portugal é um país com qualidades muito difíceis de superar. Não falo apenas do clima: o que mais me cativa aqui são as pessoas.”

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JLP troca a t-shirt por uma camisa pela primeira vez em 2012, para a fotografia. Pergunta se deve abotoar os botões de punho e usa o Instagram, ele que é telemóvel-dependente, apontando ao espelho, para enviar uma fotografia à namorada: “Ela nunca me vê vestido desta forma”.

Sorri e quando lhe pergunto quando regressa à ficção responde “em breve. Ando sempre com um livro na cabeça.”

geoff dyer: “Quem satiriza acaba sempre por ser satirizado”

Em 2013, fiz uma pequena entrevista a Geoff Dyer (n. 1958) a propósito do livro  Yoga para Pessoas que Não Estão para Fazer Yoga (Quetzal)o primeiro livro do romancista, crítico e ensaísta inglês a ser publicado em Portugal. Natural de Cheltenham, Inglaterra, Geoff Dyer venceu em 1992 o prémio Summerset Maugham e o WH Smith Best Travel Book Award, em 2003, precisamente por este Yoga… Um livro de viagens, sem ioga, que vai de Nova Orleães a Angkor Wat sem perder de vista o humor e o sarcasmo. Entrevista publicada na edição da GQ Portugal de Outubro de 2013.

O leitor desavisado poderia pensar que está perante um livro de auto-ajuda. Como é que o define?
Gosta da capa? É uma brincadeira que, de facto, faz lembrar um livro de auto-ajuda. Quis ser um pouco provocador e escrever um livro para pessoas que querem viajar pela leitura. O livro é uma consequência das minhas viagens, quase sempre em trabalhos de comissão para revistas, e alguns dos textos foram recuperados; outros foram reeditados.

E no entanto estamos perante um livro publicado há dez anos.
Sim, mas este é apenas um pretexto. A editora vai publicar os meus romances iniciais.

Dos destinos presentes no livro, de qual mais gostou?
Gostei de vários deles de formas diferentes, mas acho que o último texto, sobre o festival Burning Man, no Nevada, será o que mais me marcou. Leptis Magna, na Líbia, é outro dos destinos que melhor recordo. Foi uma lição de antiguidade.

Pela experiência? Yoga para Pessoas que Não Estão para Fazer Yoga está repleto de experiências… Por exemplo, o capítulo passado em Paris revela experiências com drogas. Quanto daquele texto corresponde à verdade?
Talvez 99%. Eu falo sobre a minha experiência com skunk. Durante anos, aquele foi o único tipo de haxixe disponível em Londres, e ajudou-me a ser criativo. No entanto, não o aconselharia aos adolescentes. De certa forma, está a apodrecer as mentes dos adolescentes. Eu era já adulto quando o tomei.

A sua escrita combina elementos de ficção com não-ficção. Onde é que está a linha que os separa?
Não existe: eu não desenho linha alguma. Não me importo, é apenas escrita. São tudo livros.

A data momento, cita Fernando Pessoa. É um fingidor?
Acho que provavelmente, enquanto romancista, posso dizer que sim. Os meus romances são meras variações do tema “rapaz conhece rapariga”.

O Independent on Sunday escreve que Geoff Dyer é uma mistura de Hunter S. Thompson, Roland Barthes e Paul Theroux, para concluir que este é um livro, acima de tudo, divertido. Como é que o seu humor surge?
Acho que está na minha natureza. É como sou na vida. É uma coisa inglesa, a que chamamos dry humor. Conheço pessoas em Londres que são completamente desprovidas de sentido de humor e dou comigo a pensar: “Como é possível?” Não imagino a vida sem humor, mas não me defino como um escritor cómico! Aí, sim, traço uma linha a separar o humor do escárnio e da sátira. Normalmente, quem satiriza acaba sempre por ser satirizado.

O meu segundo clube

Gosto do Arsenal. Ao contrário do que acontece com o meu “primeiro” clube, de que sou adepto desde tempos imemoriais e por razões que a própria razão desconhece, sei explicar a origem da minha paixão pelos gunners. O Arsenal é de Londres, a melhor cidade do mundo, equipa de vermelho, uma razão tão aceitável como qualquer outra, e é o clube de alguns amigos, reais e “platónicos”. Um deles é Nick Hornby, autor dos romances Alta Fidelidade e Era Uma Vez um Rapaz e da autobiografia Febre no Estádio.

Há alguns meses comprei o seu livro Stuff I’ve Been Reading, um pequeno volume, com uma capa simples, a amarelo, e título em alto­-relevo, que reúne as crónicas que o autor assina todos os meses na revista The Believer. Trata-­se de uma revista literária norte­-americana. E os textos de Nick Hornby são sobre isso mesmo, livros. Pelo meio, encontra invariavelmente uma forma de falar sobre futebol, e sobre o seu clube. Em agosto de 2006 escreveu precisamente sobre a derrota do Arsenal frente ao Barcelona na final da Liga dos Campeões (golo de Campbell para os londrinos; Eto’o e Belletti para o ‘Barça’), cometendo a proeza de ligar o tema ao seu desejo de se mudar para Oxford, Mississippi, para ficar perto da poeta Beth Ann Fennelly.

Nick Hornby, está visto, é ‘louco’ por futebol. E ‘doente’ pelo Arsenal, o emblema da classe trabalhadora de Londres, dos descendentes dos irlandeses, que ajudaram a ampliar a cidade no início do século XX, o clube do povo. Entre os seus adeptos estão David Gilmour, Roger Waters ou Mick Jagger, para nos ficarmos pela música, e Isabel II, se quisermos atingir o topo da escala social britânica. A “descoberta” da existência desta adepta soberana aconteceu apenas em 2007, quando a própria rainha o confessou a Arsène Wenger durante uma recepção – alguma sorte e uma cerimónia mais demorada e teríamos visto Isabel II pedir um autógrafo a Cesc Fabrègas, com quem conversou demoradamente.

Mas a razão mais importante para eu gostar do Arsenal talvez seja a associação que faço entre o clube e a literatura – e isso acontece graças a Nick Hornby e à cultura anglo­saxónica. Bem sei que Lobo Antunes gosta de futebol, e que Saramago não ficava completamente indiferente ao rolar da bola. Mas em matéria de futebol e literatura, Nick Hornby é de outra liga. Tal como o Arsenal. Perguntem a Jorge Jesus.

 

[Publicado na edição de Setembro de 2014 da Revista Futebolista]

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