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observações sobre a Rússia [excerto]

Talvez em virtude de séculos de autocracia, de sete décadas de comunismo ou apenas por tratar-se da maior cidade europeia, uma metrópole com perto de 12 milhões de habitantes, Moscovo aparenta ser organizada. Outra coisa, sobejamente diferente, seria afirmar que os russos são organizados — não são. A organização russa precisa de ser regulamentada, imposta, uniformizada. Ao contrário da Dinamarca ou da Alemanha, a organização, a ordem, de Moscovo existe apenas porque a Lei, as forças de segurança, e, em última instância, Vladimir Putin assim o impõem.

As estações do metropolitano são caóticas. Porém, o metro de Moscovo, que recebe cerca de sete milhões de passageiros por dia, com intervalos de comboios entre os 40 segundos, na hora de ponta, ou uns meros dois minutos nos períodos de menor movimento, funciona na perfeição. Para isso é necessário que as entradas e saídas decorram dentro da maior normalidade possível. As escadas rolantes, por exemplo, são escrupulosamente controladas por funcionários enfiados em cubículos de vidro, maioria das vezes uma mulher, com acesso a câmaras de CCTV — pelo que é provavelmente a profissão mais aborrecida do mundo. Tal como em Londres ou Nova Iorque, a circulação nas escadas faz-se pela esquerda. Mas aqui é expressamente proibido, e impossível, devido ao controlo apertado da segurança, ter comportamentos como os que alguns lisboetas têm, como colocar os pés no corrimão ou sentar-se nos degraus das escadas.

Acrescentar que se trata de estações de metro belíssimas é uma perda de tempo – está dito.

[Na imagem, Catedral do Arcanjo, na Praça das Catedrais, Kremlin, Moscovo.]

 

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os homens também coram

Eu não gostava de Cristiano Ronaldo.
Achava-o altivo, rude e (mal) habituado às perguntas estéreis e laudatórias de Nuno Luz e de Daniel Oliveira. Um dia, enquanto repórter da revista GQ, fui convidado para ir a Madrid acompanhar o lançamento de uma linha de roupa desportiva criada por uma conhecida marca dedicada a Cristiano Ronaldo. E foi então que a minha opinião sobre o homem mudou.
Nas Ciências da Comunicação este tipo de acontecimento – as apresentações à imprensa – é conhecido por “pseudo-evento”, ou seja, um acontecimento cujo objectivo é criar “buzz” e “vender”, um produto, uma marca ou uma pessoa. Por isso, fui até Madrid com as defesas em cima. Houve lugar a uma conferência de imprensa, com a presença de jornalistas de todo o mundo, anciãos da Gazetta dello Sport, jovens periodistas da Marca e repórteres de revistas de lifestyle. E eu, a uns meros dois metros de Ronaldo. Interpelei o avançado do Real Madrid em português e obtive uma resposta lacónica. De repente, a meu lado, um jornalista chinês fez uma pergunta num castelhano incompreensível. Foi então que Ronaldo, o super-herói, o indomável avançado, o temível goleador, se apresentou perante a plateia enquanto ser humano: corou. Durante segundos, a expressão de CR7 foi a de uma criança apanhada em falso, a expressão de alguém que receia cometer uma gaffe, ou que “não sabe onde se meter”. Incapaz de resolver o embaraço, virou a cara na minha direção e, com um olhar pesado e sem murmurar palavra, pediu-me ajuda.
Christopher Hitchens, carismático cronista da Vanity Fair, a quem nunca é demais prestar as devidas vénias, exortava-nos a pensar em todos os “especialistas” enquanto meros mamíferos. O que o jornalista queria dizer era que não idolatrássemos outros seres humanos. As pessoas olham para Ronaldo, criam dele uma ideia a esperam que ele corresponda – tal como ficam chocadas por saber que Maradona agrediu a namorada ou que Messi não pagou os seus impostos na totalidade. Naquele dia, em Madrid, enquanto traduzia a pergunta do jornalista chinês, que tremia, concluí aquilo que devia ser óbvio para todos. É verdade que Ronaldo marca muitos golos e ganha ainda mais dinheiro, mas é um ser humano como qualquer um de nós. Pode ser apanhado em falso, pode viver momentos embaraçosos. Pode ficar sem palavras. Afinal de contas, Ronaldo também cora.

[Texto publicado na edição de Dezembro da revista Futebolista.]

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