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Tuga é o senhor

Um dos problemas dos portugueses é a falta de autoestima. Nos últimos anos, esse fraco amor-próprio é visível pela forma pouco digna com que nos apelidamos uns aos outros de “tugas”.

O termo virou moda. Há cadeias de restaurantes que vendem hambúrgueres tugas, blogues de jovens emigrantes com títulos como “Tuga em Londres”, sites de downloads (ilegais) que adoptam esta designação. No Rio de Janeiro existe um restaurante chamado Bacalhau do Tuga, a mascote da selecção nacional de futebol no Mundial de 2002 levava esta alcunha. E por aí adiante.

Aqui nos eixos Bairro Alto-Cais do Sodré e Chiado-Saldanha-Avenidas Novas é quase chique, dentro de uma certa classe com poder de compra, títulos do tesouro e pouco intelecto, afirmar com um sorriso nos lábios, à passagem por um automóvel mal estacionado: “É mesmo à tuga”.

Que me perdoem, mas falho em ver a piada ou a legitimidade na alcunha. Adoptar a designação de tuga parece-me tão adequado quanto os norte-americanos desatarem a chamar “gringos” – o nome por que são conhecidos quando atravessam a sua fronteira a sul – uns aos outros. Em Inglaterra, os alemães ainda são conhecidos por “krauts”, termo deveras depreciativo e provavelmente originário da palavra “sauerkraut”, ou mesmo por “boches”.

Todas estas alcunhas, criadas pelo “outro”, têm em comum serem originárias da guerra. O mesmo acontece como o vocábulo tuga, termo racista por que eram conhecidos os portugueses durante a guerra do Ultramar, e que visava contrapor ao vocábulo turra, que designava, entre os militares portugueses, os membros das resistências locais.

Parece-me natural e até lógico que estas alcunhas depreciativas existam. É da condição humana. Mas não deixa de ser estranho, e revelador, que nos adjectivemos a nós próprios dessa forma. Da última vez que me chamaram tuga, repeti violentamente o título desta crónica. Não contem comigo para estas bonomias.

[Texto publicado na edição de 7 de Agosto de 2015 do jornal Comércio do Seixal e Sesimbra. PDF aqui: http://content.yudu.com/Library/A3ueqt/Edio290/resources/index.htm?referrerUrl=http%3A%2F%2Ffree.yudu.com%2Fitem%2Fdetails%2F3491564%2FEdi—-o-290 ]

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Portugal: a pior cozinha do mundo

É sabido que a falta de auto-estima é um dos vários, inúmeros problemas dos portugueses. O que faz com que frequentemente nos coloquemos em bicos dos pés, o que nos leva a ligar demasiado ao que os outros pensam de nós, o que nos leva a ficar ofendidos quando não gostam de Portugal.

Há uns anos ficou célebre uma crítica escrita por um dos mais brilhantes autores da imprensa britânica, AA Gill, ao restaurante Tugga, em Londres, na sua coluna Table Talk no Sunday Times. No seu estilo, combinação de escárnio com maldizer, AA Gill afirmava, numa introdução ao tema, que Portugal, “a única potência colonial cuja independência foi dada pela sua própria colónia”, era uma espécie de mini-Espanha que apenas teve um império para conseguir dar uma queca. As afirmações de AA Gill, autor de quem 99,9% dos portugueses nunca ouvira falar até à data, caiu mal cá pela pátria. Escreveu-se em blogs, o director do ICEP em Londres enviou uma carta aos responsáveis do Times, a imprensa portuguesa indignou-se.

Eu continuo a acreditar que é preciso ser muito inseguro para levar a peito o que um obscuro crítico gastronómico britânico escreve acerca de um país inteiro. E é preciso ter muita falta de sentido de humor.

Como sabe quem leu Marx, a história repete-se; e há dias a propósito da abertura de um novo restaurante do chef Nuno Mendes em Londres, o Taberna do Mercado, Giles Coren alinhavou umas palavras pouco abonatórias para com Portugal, na sua coluna no The Times, o que fez erguer uma chusma de indignados – centenas, milhares de utilizadores do Twitter – a pedir a caneta de Coren numa bandeja. Há uma petição contra Giles Coren, exigindo sabe-se lá o quê, há gente aborrecida, muito aborrecida com Coren, que tem sido ameaçado no Twitter.

É embaraçoso ser nacional de um país que reage em peso a um obscuro crítico gastronómico, dando-lhe motivos para responder de forma ainda mais acintosa: “A julgar pela quantidade de pessoas com um seguidor a chamar-me nomes acho que consegui, sozinho, trazer um país inteiro para o Twitter.”

Mas afinal, o que escreveu Coren sobre Portugal? Transcrevo dois parágrafos:

“A cozinha portuguesa é a pior da Terra. Ou, pelo menos, a pior de qualquer nação quente da Terra. Obviamente, a culinária irlandesa poderia fazer-lhe frente. Ou a polaca. Mas, à sua frente, muito salgada ou insípida, a culinária portuguesa é, na melhor das hipóteses, o que a cozinha Inglesa seria se tivéssemos um clima melhor.”

“A comida em hotéis portugueses nunca é Portuguesa. As pessoas estão de férias. Isso não seria justo.”

Coren escreve ainda que a velha aliança entre o Reino Unido e Portugal é antes baseada num amor comum a “bacalhau ensopado, pão branco, batatas demasiado e queijos simples”.

Lamento, a nossa gastronomia não é extraordinária. É esse o motivo pelo qual as grandes capitais estão repletas de restaurantes italianos, espanhóis, tailandeses, franceses, mexicanos e ninguém sabe nomear três ‘tascas’ portuguesas decentes para lá de Badajoz.

Temos bom peixe? Sim. Temos dois bons queijos? Sim. Três enchidos decentes? É possível. Mas não temos uma gastronomia capaz de ombrear com as referidas. No máximo, somos um pequeno cantinho da Europa com uma boa diversidade gastronómica. No mínimo, somos um país que acredita que as nossas “loiras”, das duas marcas tradicionais, são as melhores cervejas do mundo, que em Espanha se come mal, que o Monte Velho é um g’anda vinho e que o pastel de nata é que é. E quem diz isto nunca bebeu uma stout em Berlim, nunca entrou na pastelaria Leckerbaer, em Copenhaga, ou, caramba, nunca brindou com um Chateaux Lafite-Rothschild.

Posto isto, vou beber um vinho do Porto, que é o melhor vinho do mundo. A sério.

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