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observações sobre a Rússia [excerto]

Talvez em virtude de séculos de autocracia, de sete décadas de comunismo ou apenas por tratar-se da maior cidade europeia, uma metrópole com perto de 12 milhões de habitantes, Moscovo aparenta ser organizada. Outra coisa, sobejamente diferente, seria afirmar que os russos são organizados — não são. A organização russa precisa de ser regulamentada, imposta, uniformizada. Ao contrário da Dinamarca ou da Alemanha, a organização, a ordem, de Moscovo existe apenas porque a Lei, as forças de segurança, e, em última instância, Vladimir Putin assim o impõem.

As estações do metropolitano são caóticas. Porém, o metro de Moscovo, que recebe cerca de sete milhões de passageiros por dia, com intervalos de comboios entre os 40 segundos, na hora de ponta, ou uns meros dois minutos nos períodos de menor movimento, funciona na perfeição. Para isso é necessário que as entradas e saídas decorram dentro da maior normalidade possível. As escadas rolantes, por exemplo, são escrupulosamente controladas por funcionários enfiados em cubículos de vidro, maioria das vezes uma mulher, com acesso a câmaras de CCTV — pelo que é provavelmente a profissão mais aborrecida do mundo. Tal como em Londres ou Nova Iorque, a circulação nas escadas faz-se pela esquerda. Mas aqui é expressamente proibido, e impossível, devido ao controlo apertado da segurança, ter comportamentos como os que alguns lisboetas têm, como colocar os pés no corrimão ou sentar-se nos degraus das escadas.

Acrescentar que se trata de estações de metro belíssimas é uma perda de tempo – está dito.

[Na imagem, Catedral do Arcanjo, na Praça das Catedrais, Kremlin, Moscovo.]

 

o pão que o Salazar amassou

Os meus avós viviam numa casa humilde, numa pequena aldeia no Alentejo, duas portas ao lado de um posto da Guarda Nacional Republicana. Eram os anos 60. Não havia electricidade, a comida escasseava, os homens em idade de combater eram mobilizados para as colónias que o regime tentava manter a tudo o custo, as raparigas em idade de namorar tornavam-se madrinhas de guerra dos militares. Na escola, a professora ensinava a dezenas de alunos de diferentes anos de escolaridade numa só sala de aula, com a ajuda da santíssima trindade – a Cruz, o retrato de Salazar e a palmatória. As crianças andavam descalças ou com sapatos artesanais improvisados pelos pais mais criativos. Os rapazes brincavam com bolas de trapo e carrinhos feitos de latas de conserva recolhidas no lixo das famílias ricas. Os homens trabalhavam de sol a sol, nas minas de pirite ou no campo. As mulheres trabalhavam de sol a sol, no campo e em casa. E para ter isqueiro era necessário obter uma licença, cuja fiscalização era escrupulosamente cumprida pela GNR.

Naquela noite, no início da década de 1960, no Portugal profundo, as autoridades levaram a cabo a sua função de oprimir a população e espancaram um homem pela madrugada dentro. Os seus gritos de aflição entravam pela casa dos meus avós. Ninguém dormiu. Ninguém sossegou. Aquele homem que sofria no posto da guarda era o tio do meu avô – nunca mais foi a mesma pessoa, contaram-me, vindo a morrer poucos anos depois do episódio. Eis o “meu” 25 de Abril. A revolução dos que nada têm. A revolução daqueles que pensam que, quarenta anos depois, pouco mudou. Vejamos, o mundo também é feito destes pequenos detalhes: de uma Justiça que deixa prescrever crimes de milhões e condena um esfomeado que rouba um pão num supermercado. O mesmo pão de há quarenta anos. O pão que o Salazar amassou.

[Publicado originalmente a 24 de Abril de 2014, no Facebook]