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consideremos um ‘hooligan’

A minha paixão pelo futebol termina onde começa o vandalismo. Em consequência disso, vejo menos jogos do que poderia, raramente entro em estádios e praticamente não leio jornais desportivos. Menos ainda embarco em discussões estéreis sobre grandes penalidades, foras-de-jogo ou livres indirectos.

Dizem que os adeptos do Arsenal e do Chelsea, quando os seus clubes enfrentavam o rival Tottenham, conhecido como a equipa dos judeus, tinham como hábito imitar o som das câmaras de gás nazis, produzindo um estridente e uníssono “tssssssssss”. Em Itália e em Espanha são frequentes os casos de racismo. Na Alemanha há ex-dirigentes presos. Por cá, aconteceram já vários episódios que ficarão na história da infâmia – do very light de 1996 ao fogo posto numa bancada, alguns (poucos e mais frequentes nos escalões inferiores) casos de racismo, um relativamente inócuo apagão na Luz, agressões a jornalistas à porta de estádios, trocas de empurrões entre dirigentes, comentadores que abandonam estúdios de televisão em directo e que em seguida são eleitos presidentes de câmaras. E um longo etc., numa interminável lista de acto e comportamentos bárbaros, retrógrados e simplórios.

O problema escala em gravidade quando são os treinadores a fazer uso de gasolina retórica para manifestar as suas opiniões. Foi o que aconteceu, em Fevereiro e em Março, com Vítor Pereira. O actual técnico do Olympiakos tem sido notícia não por conquistar um título mas pelas suas atitudes boçais dentro de campo e em conferências de imprensa.

Paulatinamente, Vítor Pereira tem vindo a construir um currículo marcado por episódios insólitos, risíveis e ridículos; quando não perigosos. O Vítor Pereira que certa vez beijou um crucifixo após um resultado abonatório é o mesmo que provoca deliberadamente os adeptos adversários no campeonato grego, algo que, refira-se, está longe de ser um comportamento cristão. É óbvio que ‘VP’ tem todo o direito de festejar. Não tem no entanto o direito de se comportar como um mero adepto de sofá, como um hooligan.

Um treinador de uma equipa de topo de qualquer liga europeia tem o dever ético e moral de não se deixar levar pelas emoções, e muito menos fora do seu país, sob pena de deixar de ser um profissional para passar a ser conotado como um ‘incendiário’.

Por favor, mantenham o vosso fanatismo longe do meu futebol.

[Texto publicado na edição de Abril da revista Futebolista.]

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O meu segundo clube

Gosto do Arsenal. Ao contrário do que acontece com o meu “primeiro” clube, de que sou adepto desde tempos imemoriais e por razões que a própria razão desconhece, sei explicar a origem da minha paixão pelos gunners. O Arsenal é de Londres, a melhor cidade do mundo, equipa de vermelho, uma razão tão aceitável como qualquer outra, e é o clube de alguns amigos, reais e “platónicos”. Um deles é Nick Hornby, autor dos romances Alta Fidelidade e Era Uma Vez um Rapaz e da autobiografia Febre no Estádio.

Há alguns meses comprei o seu livro Stuff I’ve Been Reading, um pequeno volume, com uma capa simples, a amarelo, e título em alto­-relevo, que reúne as crónicas que o autor assina todos os meses na revista The Believer. Trata-­se de uma revista literária norte­-americana. E os textos de Nick Hornby são sobre isso mesmo, livros. Pelo meio, encontra invariavelmente uma forma de falar sobre futebol, e sobre o seu clube. Em agosto de 2006 escreveu precisamente sobre a derrota do Arsenal frente ao Barcelona na final da Liga dos Campeões (golo de Campbell para os londrinos; Eto’o e Belletti para o ‘Barça’), cometendo a proeza de ligar o tema ao seu desejo de se mudar para Oxford, Mississippi, para ficar perto da poeta Beth Ann Fennelly.

Nick Hornby, está visto, é ‘louco’ por futebol. E ‘doente’ pelo Arsenal, o emblema da classe trabalhadora de Londres, dos descendentes dos irlandeses, que ajudaram a ampliar a cidade no início do século XX, o clube do povo. Entre os seus adeptos estão David Gilmour, Roger Waters ou Mick Jagger, para nos ficarmos pela música, e Isabel II, se quisermos atingir o topo da escala social britânica. A “descoberta” da existência desta adepta soberana aconteceu apenas em 2007, quando a própria rainha o confessou a Arsène Wenger durante uma recepção – alguma sorte e uma cerimónia mais demorada e teríamos visto Isabel II pedir um autógrafo a Cesc Fabrègas, com quem conversou demoradamente.

Mas a razão mais importante para eu gostar do Arsenal talvez seja a associação que faço entre o clube e a literatura – e isso acontece graças a Nick Hornby e à cultura anglo­saxónica. Bem sei que Lobo Antunes gosta de futebol, e que Saramago não ficava completamente indiferente ao rolar da bola. Mas em matéria de futebol e literatura, Nick Hornby é de outra liga. Tal como o Arsenal. Perguntem a Jorge Jesus.

 

[Publicado na edição de Setembro de 2014 da Revista Futebolista]

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