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uma enorme dívida de gratidão — mário soares [1924-2017]

Eu tinha quatro anos quando Mário Soares foi eleito presidente da República e 14 quando ele terminou o seu segundo mandato. Cresci a ouvir falar dele – mal e bem – e à medida que me tornei homem comecei a ver nele uma espécie de modelo, uma figura maior, a quem o país deve muito.
Bem sei que em Democracia não há dívidas de gratidão – o governo somos nós, todos. Mas se não fosse a figura de Soares Portugal não seria sequer uma democracia. Provavelmente teríamos sido uma “colónia” soviética, uma ideia contra a qual Soares se bateu fervorosamente, com coragem não só moral, intelectual, política, mas também física.
Hoje, perdemos Mário Soares, a última grande figura do nosso século XX. Mário Soares fazia parte dessa tríade de homens marcantes, com Cunhal e Salazar. Porém, é dos três, o único a quem devemos respeito, ao contrário de Salazar, que nos arrastou por uma ditadura de Direita, de tipo fascista, durante perto de cinco décadas, provocando um atraso inexorável ao país, e de Cunhal, que sonhava transformar Portugal numa espécie de Cuba da Europa, numa Roménia, numa Bulgária, num Jugoslávia, numa Checoslováquia, numa Bielorrússia.
Provavelmente, sem Soares, teríamos enfrentado uma guerra civil na sequência do Verão Quente de 1975. Provavelmente, sem Soares, só hoje estaríamos a recuperar da colagem à União Soviética. Provavelmente, sem Soares, só hoje estaríamos a aderir à UE. Provavelmente, sem Soares, teria havido perseguições políticas, deportações, assassinatos, entre 1974 e 1991, data da queda da URSS. Provavelmente, sem Soares, Álvaro Cunhal teria sido o nosso Ceaucescu.
Alguns analfabetos funcionais acusam-no de se “ter feito” com os americanos – como se houvesse alternativa – e de ser o principal responsável por uma descolonização que adjectivam de desastrosa. Pela minha parte, creio que a descolonização, com a integração no país de mais de um milhão de colonos (portugueses, brancos) foi, mais do que a possível, um caso de sucesso. Quem tece este tipo de críticas falha em concluir que Portugal estava em guerra, havia já 13 anos, com os movimentos de libertação angolanos, moçambicanos, guineenses, e que Descolonizar era um dos ‘D’ prometidos pelo 25/4, juntamente com Democratizar e Desenvolver.
Podíamos estar melhor? Certamente. Porém, eu não esqueço que, graças às ideias defendidas por Soares, temos hoje um sistema de ensino universal e gratuito, um Sistema Nacional de Saúde, possibilidade de participação na vida política do país, uma sociedade e economia abertas, eleições livres e um longo etc. só possível em Democracia – ela própria uma imposição soarista.
Soares cometeu excessos – na maior parte dos casos, “de linguagem”? Sim, de acordo. Ao contrário do ditador e do aspirante a Lenine da Península Ibérica, Soares não era perfeito. E é por isso que o prefiro. Hoje e sempre.
Obrigado, Mário Soares, curvo-me perante a sua memória.

[Os meus pensamentos estão hoje com os filhos, Isabel e João Soares, netos e restante família.]

o pão que o Salazar amassou

Os meus avós viviam numa casa humilde, numa pequena aldeia no Alentejo, duas portas ao lado de um posto da Guarda Nacional Republicana. Eram os anos 60. Não havia electricidade, a comida escasseava, os homens em idade de combater eram mobilizados para as colónias que o regime tentava manter a tudo o custo, as raparigas em idade de namorar tornavam-se madrinhas de guerra dos militares. Na escola, a professora ensinava a dezenas de alunos de diferentes anos de escolaridade numa só sala de aula, com a ajuda da santíssima trindade – a Cruz, o retrato de Salazar e a palmatória. As crianças andavam descalças ou com sapatos artesanais improvisados pelos pais mais criativos. Os rapazes brincavam com bolas de trapo e carrinhos feitos de latas de conserva recolhidas no lixo das famílias ricas. Os homens trabalhavam de sol a sol, nas minas de pirite ou no campo. As mulheres trabalhavam de sol a sol, no campo e em casa. E para ter isqueiro era necessário obter uma licença, cuja fiscalização era escrupulosamente cumprida pela GNR.

Naquela noite, no início da década de 1960, no Portugal profundo, as autoridades levaram a cabo a sua função de oprimir a população e espancaram um homem pela madrugada dentro. Os seus gritos de aflição entravam pela casa dos meus avós. Ninguém dormiu. Ninguém sossegou. Aquele homem que sofria no posto da guarda era o tio do meu avô – nunca mais foi a mesma pessoa, contaram-me, vindo a morrer poucos anos depois do episódio. Eis o “meu” 25 de Abril. A revolução dos que nada têm. A revolução daqueles que pensam que, quarenta anos depois, pouco mudou. Vejamos, o mundo também é feito destes pequenos detalhes: de uma Justiça que deixa prescrever crimes de milhões e condena um esfomeado que rouba um pão num supermercado. O mesmo pão de há quarenta anos. O pão que o Salazar amassou.

[Publicado originalmente a 24 de Abril de 2014, no Facebook]