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amo-te, moscovo

Vindo da Praça Vermelha, virei à direita depois de atravessar as arcadas que ligam os edifícios do Museu Histórico do Estado e da Guerra Patriótica de 1812. Caminhei junto ao Ritz Four Seasons, rumo à Praça da Revolução, e encarei então, pela primeira vez, o imponente teatro Bolshoy e a estátua de Karl Marx, símbolos contrastantes do que foram a Rússia do século XIX e a do século XX.

Naquele dia, em redor da estátua de Marx – onde lemos talvez a mais célebre frase retirada do Manifesto Comunista, “Proletários de todo o mundo, uni-vos” – era celebrado um casamento. Noivo e noiva trajavam a rigor, acompanhados por duas damas de honor incontestavelmente belas e um fotógrafo que registava o momento. Um sonoro Maserati irrompeu vindo da Okhotnyy Ryad, deixando em sobressalto uma horda de turistas japoneses, cujas câmaras fotográficas disparavam em todas as direcções. Em frente ao edifício da Duma, um segurança sem uniforme ostentava uma arma, enfiada num coldre preso por cima da camisa. “лето” (“Verão”), anunciavam os mupis da Câmara Municipal. Em todo o centro da cidade, passeios, parques e jardins cobriam-se de um matizado de rosas, jacintos e lilases. E, de repente, começou a chover.

Moscovo, diria um qualquer autor de artigos de viagens baratos, é uma cidade de contrastes.

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Em What am I Doing Here?, Bruce Chatwin escreve que “caminhar é uma virtude, o turismo é um pecado mortal”. Tento seguir esta ideia ao máximo sempre que viajo. Por isso, adiei o início do rascunho deste texto para mais de uma semana depois de ter aterrado na capital russa – período de tempo em que caminhei muito e que julguei ser o suficiente para alinhavar algumas ideias sobre a maior cidade da Europa, a capital do maior país do mundo, sem sucumbir a clichés.

E no entanto, os clichés sobre Moscovo pesam sobre nós com a força de uma cortina de ferro. Dirão aqueles que leram o meu post Viver e Morrer em São Petersburgo que me apaixonei pela cidade de Pedro relegando a capital para segundo plano, quando o que acontece é que apenas visitei São Petersburgo depois de três semanas em Moscovo, já depois de absorver o impacto das diferenças entre a Mãe Rússia e, digamos, o eixo civilizacional composto por Paris, Londres e Nova Iorque.

Convém estar consciente de que o moscovita típico surge nos seguintes estados: aborrecido, zangado ou ambos. Isto é válido para as pessoas com que nos cruzamos no Metro, na rua ou em restaurantes; de facto, com excepção de algumas debutantes, a população não é propriamente amistosa. Não pretendo cometer uma infâmia sobre todo um povo; eu seria tremendamente injusto se porventura fizesse passar a ideia de que toda a gente em Moscovo é antipática, algo que amiúde comprovei não ser verdade.

Dito isto, o mero acto de caminhar pelas ruas de Moscovo pode transformar-se facilmente num exercício de masoquismo. Como será fácil de imaginar a confusão começa precisamente com o idioma. A sinalização em inglês é praticamente inexistente, assim como o são as pessoas que sabem falar inglês, e o alfabeto cirílico (reparem que me refiro meramente ao alfabeto, não à língua) tornam qualquer tentativa de interpretar placas de sinalização ou indicações infrutíferas. As parcas semelhanças com palavras oriundas do latim ou de inspiração anglo-saxónica terminam nestes exemplos: “Ресторан”, “Метро”, “Банк” (“restaurante”, “metro” e “banco”, respectivamente).

Na rua, no centro, nas grandes avenidas que rodeiam a Praça Vermelha, na área financeira e administrativa, tanto homens quanto mulheres são incomparavelmente mais elegantes do que os nossos equivalentes do Chiado. Porém, nos arredores, o típico “Gopnick” (termo equivalente ao nosso “chunga”) mete o aspirante a gangster da Amadora a um canto. Os subúrbios, aqui, não são para brincadeiras, o que fica provado pela taxa de homicídios neste país, sensivelmente o dobro da dos Estados Unidos.

Porque Moscovo é uma metrópole gigante, complexa, lá encontramos de tudo. Creio mesmo, para “roubar” uma expressão querida aos norte-americanos, que podemos afirmar haver uma “excepcionalidade” russa. As catedrais, com as suas cúpulas douradas, ou anacronicamente coloridas, como a de São Basílio (na foto), os parques solarengos em Agosto, as babushkas com sacos de compras, as dedushkas a tecer poses para a fotografia – em tudo isto Moscovo se distingue. Há ruas que nos lembram o melhor de Paris, com uma arquitectura quase sem paralelo, de Viena ou de Berlim, e há até uma espécie de City à inglesa com edifícios a apontar aos céus. A cidade faz-se rodear de bustos, monumentos, placas comemorativas de Lenin, transformando o pai da União Soviética numa figura omnipresente. É relativamente comum encontrar placas que se limitam a assinalar os locais onde Lenin proferiu discursos. Bem-vindos à Rússia – que, livrando-se dele, escolheu preservar a memória do totalitarismo comunista.

La Dolce Vita na monumental Moscovo 

Não tenho a pretensão de escrever um artigo de viagens – antes assinalar as minhas impressões sobre a cidade, pelo que não me alongarei na descrição de hot spots, monumentos, pontos de interesse ou restaurantes.

Cumpre-me apenas referir que, se a gastronomia russa não é valorizada além das típicas referências ao caviar e à vodka, vale a pena experimentar o que vai além disso, dos peixes salgados, como o siliotka (da família do arenque), ao salmão fumado e à cerveja, passando por pratos confeccionados com beringela (a pasta de beringela, aqui apelidada de caviar de beringela é definitivamente um must have) ou o extraordinário borsch, uma sopa de beterraba que prova a influência da cozinha ucraniana na Rússia, ou um inebriante shot de khrenovukha (vodka de mel e rábano picante). Foi ainda com surpresa que vi servido toucinho salgado enrolado em talos de alho como entrada, uma delícia para os adeptos de comidas substanciais. De resto, a presença de restaurantes internacionais faz com que seja fácil experimentar a gastronomia de países como Israel, Geórgia, Tailândia ou Vietname.

A história da cidade está intimamente ligada à Revolução de Outubro, ao império soviético, ao regime que governou o país durante o século XX, e é, por isso, fácil deparar-mo-nos com monumentos alusivos a Lenin, aos heróis da revolução, aos artistas aprovados pela URSS. Mas, com as primeiras referências à sua existência a remontarem ao ano de 1147, Moscovo tem muito mais a contar mais sobre si mesma do que o viajante incauto ou toldado pela memória do comunismo poderia supor.

Em plena Praça Vermelha – a expressão em nada se refere ao regime comunista; no original em russo, Krasnaya Ploshchad, sendo que o termo krasnaya, vermelho, é sinónimo de belo em russo arcaico – o centro nevrálgico da cidade, encontramos monumentos que contam a história da cidade desde há séculos, como a Catedral de São Basílio, erguida entre 1555 e 1561 por ordem de Ivan, o Terrível, ou as muralhas do Kremlin, cuja construção inicial remonta ao século XII. Vale a pena uma visita à Catedral de Cristo o Salvador, após a travessia da Ponte do Patriarca, ao Museu de Arte Multimédia, onde pude ver a surpreendentemente pequena cápsula espacial, em exposição temporária, com que Yuri Gagarin se tornou o primeiro homem no espaço.

Em resumo, dentro do primeiro anel da cidade, do bairro histórico de Kitay Gorod (apesar de Kitay significar China em russo moderno, o termo, em russo antigo, deriva do tipo de linha defensiva desta área, construída com cestos de vime cheios com terra ou pedras) às ruas adjacentes da turística rua Arbat, da Galeria Tetryakov ao teatro Bolshoy, as inúmeras igrejas e praças da cidade – tudo isto é digno de visita. Do Kremlin, com as catedrais da Assunção, da Anunciação e do Arcanjo São Miguel, e as igrejas da Deposição das Vestes, dos Doze Apóstolos e do Palácio das Facetas, além da Torre do Campanário de Ivan III, perto do qual é possível ver o maior sino do mundo (200 t), aos museus, aos cafés, aos restaurantes – tudo isto ficará na memória do viajante mais desapegado.

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Sinto-me agora num estado de inquietude, o peito preenchido pelo desassossego de quem está prestes a regressar. Não a Moscovo, mas a ela. Ao contrário do que o título sugere, eu quis declarar o meu amor não a esta cidade mas a uma mulher a quem aconteceu o ter lá nascido. Nada importam a geografia e o clima, a latitude ou a longitude, língua, local ou destino. Onde quer que esteja, ela é o mundo todo.

Я люблю тебя.

Viver e morrer em São Petersburgo

Um dia, tal como pediu Joseph Brodsky no poema Estrofes – “Não escolherei país ou paróquia / Virei morrer à ilha Vasilievsky” – todos deveríamos ter a oportunidade de ir morrer a, ou de visitar, São Petersburgo. 

Fundada em 1703 por Pedro o Grande, São Petersburgo ombreia em monumentalidade com capitais como Paris ou Viena. De facto, o czar tinha o sonho de ocidentalizar o seu país e por isso bebeu da cultura europeia o mais do que suficiente para criar um monumento à arte, à arquitectura e à cultura numa região então abandonada, semi-desértica, junto ao Golfo da Finlândia.

São Petersburgo – que teve o nome de Petrogrado entre o início da I Guerra Mundial e 1924, quando passou a chamar-se Leninegrado, designação que persistiu até à queda da União Soviética – é o lar de um dos mais impressionantes museus do mundo, o Hermitage.

Instalado nos edifícios que constituíam a residência do último Czar, Nicolau II, da dinastia Romanov, alberga obras de artistas como Leonardo da Vinci, Matisse, Rembrandt ou Paul Cézanne, entre muitos outros, além de expor alguns dos famosos ovos da Páscoa da Casa Fabergé, arte de vários períodos, desde o Paleolítico aos nossos tempos, e com inúmera proveniência, num total de cerca de três milhões de peças. Segundo os responsáveis, se nos detivéssemos durante um minuto em cada peça demoraríamos 11 anos a ver o museu. Reserve-se um dia inteiro, ou mesmo dois, para uma visita mais modesta. E atente-se que apenas o próprio edifício merece a visita.

Sendo uma cidade imperial por excelência, capital do regime czarista durante perto de 300 anos, São Petersburgo está repleta de palácios, casas apalaçadas, edifícios de apartamentos em estilos que vão do barroco ao neoclássico, pontuada por outros de inspirações diversas, como o da Casa Muruzi, onde viveu o já mencionado Joseph Brodsky, com tectos e arcadas ao estilo arábico.

A cidade desenvolve-se em torno da incomparável Avenida Nevsky, que dá título a um dos mais famosos contos de Nikolai Gogol. A avenida atravessa a cidade desde a Praça Alexandre Nevsky até ao Palácio de Inverno; pelo meio, cruza os rios Fontanka e Moika e o canal Griboyedova, e encontra-se com as ruas Bolshaya Morskaya, Malaya Morskaya e Kazanskaya, geografias repletas de histórias e lendas, locais de conspiração, como a que levou ao assassinato do “monge louco” Grigory Rasputin, no palácio Yusupov [na imagem].

Ao contrário de Moscovo, em que impera um certo ar de ‘começo de festa’, uma cidade opulenta onde importa mostrar cartão de crédito – Moscovo é a segunda cidade do mundo em número de bilionários, atrás apenas de Nova Iorque – em São Petersburgo o ambiente é incomensuravelmente mais culto. Em vez de discotecas repletas de homens na crise da meia-idade, temos ruas de bares com hipsters e de restaurantes de comida internacional. Em vez de um desfile de Maseratis e Ferraris, vemos Oldsmobiles e Cadillacs. Homens e mulheres são igualmente requintados, enquanto em Moscovo eles têm tendência a ser mais erectus do que sapiens. 

Locais a visitar, apenas alguns, numa cidade que consiste toda ela num ponto de interesse: além do Hermitage, Casa Museu Anna Akhmatova, Fortaleza de São Pedro e São Paulo, Catedral de Santo Isaac, Catedral do Sangue Derramado, Museu Fabergé, Cavaleiro de Bronze na Praça do Senado, Catedral de Kazan, Praça Lenin (junto à estação ferroviária onde o revolucionário desembarcou após a revolução de Fevereiro de 1917), o Cruzador Aurora (ancorado junto ao bairro de Petrogradskiy, no rio Bolshaya Nevka, e de onde foi dada a ordem para invadir o Palácio de Inverno e dar início à Revolução de Outubro), além de bares, livrarias e pequenas ruelas capazes de nos surpreender a cada instante. Um passeio à beira-Moika, Fontanka ou Neva é um bom tónico para quem, como eu, sentiu saudades do Tejo após três semanas em Moscovo.

Joseph Brodsky não cumpriu o seu desejo. Morreu em 1996, aos 55 anos, em Nova Iorque, Estados Unidos, após ter sido “convidado a sair” da União Soviética em 1972. Não sem antes ajudar a eternizar a ilha Vasilievsky e a sua terra-natal, imperial cidade da cultura, das artes e das ideias, que todos os homens deveriam poder visitar um dia.

observações sobre a Rússia [excerto]

Talvez em virtude de séculos de autocracia, de sete décadas de comunismo ou apenas por tratar-se da maior cidade europeia, uma metrópole com perto de 12 milhões de habitantes, Moscovo aparenta ser organizada. Outra coisa, sobejamente diferente, seria afirmar que os russos são organizados — não são. A organização russa precisa de ser regulamentada, imposta, uniformizada. Ao contrário da Dinamarca ou da Alemanha, a organização, a ordem, de Moscovo existe apenas porque a Lei, as forças de segurança, e, em última instância, Vladimir Putin assim o impõem.

As estações do metropolitano são caóticas. Porém, o metro de Moscovo, que recebe cerca de sete milhões de passageiros por dia, com intervalos de comboios entre os 40 segundos, na hora de ponta, ou uns meros dois minutos nos períodos de menor movimento, funciona na perfeição. Para isso é necessário que as entradas e saídas decorram dentro da maior normalidade possível. As escadas rolantes, por exemplo, são escrupulosamente controladas por funcionários enfiados em cubículos de vidro, maioria das vezes uma mulher, com acesso a câmaras de CCTV — pelo que é provavelmente a profissão mais aborrecida do mundo. Tal como em Londres ou Nova Iorque, a circulação nas escadas faz-se pela esquerda. Mas aqui é expressamente proibido, e impossível, devido ao controlo apertado da segurança, ter comportamentos como os que alguns lisboetas têm, como colocar os pés no corrimão ou sentar-se nos degraus das escadas.

Acrescentar que se trata de estações de metro belíssimas é uma perda de tempo – está dito.

[Na imagem, Catedral do Arcanjo, na Praça das Catedrais, Kremlin, Moscovo.]