Arquivo de etiquetas: Seixal

Do Fontanka ao Judeu

Sem mapa, à deriva e munido apenas da memória dos contos de Nikolai Gogol, atravessei a Avenida Nevsky, em São Petersburgo, deslumbrado com os edifícios imperiais, com a paisagem urbana absolutamente fascinante e com um desfile de personagens já não como as que retratava o autor de O Nariz mas demasiado ocidentalizadas. Subitamente, o rio Fontanka abriu-se perante o meu olhar encantado e as minhas narinas foram invadidas cheiro salgado, pleno de iodo, o odor aspirado a plenos pulmões desse outro rio a que chamam Judeu.

É um lugar-comum, mas nós, portugueses, não passamos sem o Oceano, sem o mar, sem um rio que possamos transformar em mito. Por isso, após três semanas na capital da Rússia – cujo rio, o Moscovo, não mais é do que mero curso de água quando comparado com o Tejo – bastou-me uma hora em São Petersburgo para ter esta experiência extraordinária de me ver inesperadamente transportado para casa ao atravessar a Ponte Anichkov.

Esta ponte dá nome a um palácio situado em terrenos que pertenceram outrora a um tal de Anton Manuelovitch Devier. O nome nada nos diz, especialmente se lido em cirílico, mas é a transliteração de António Manuel de Vieira. Judeu nascido em Portugal ou, com maior grau de probabilidade, na Holanda, filho de portugueses, António de Vieira foi levado de Amesterdão para a corte russa por Pedro o Grande, aquando da sua visita à Europa e por lá acabou por ficar, desposando uma princesa eslava e participando na construção da magnânima São Petersburgo.

Eu desconhecia esta história quando tive a minha epifania olfactiva e, de peito cheio, nas margens do Fontanka, fui levado de volta ao rio a que chamam Judeu. Esse era David Negro, proprietário da Quinta da Princesa e de outros terrenos no que é hoje o Seixal, durante os reinados de D. Fernando I e de D. João I e que, tal como Vieira, foi um proeminente judeu da corte, votado ao esquecimento mas cuja rica biografia é digna de reportagem.

Talvez seja necessário percorrer mais de quatro mil quilómetros, e recuperar à infância uma memória olfactiva, para constatar que a História, e, para mais, a História do Judaísmo, de facto, repete-se. Mas que pode constituir um deleite redescobri-la, entre o Fontanka e o Judeu.

 

[Publicado no n.º 20 do semanário regional O Seixalense, de 24 de Janeiro.]

Anúncios

o meu vizinho manuel da fonseca

Eu teria uns sete ou oito anos, vivia no Seixal, terra de comunistas austeros, funcionários públicos e trabalhadores da indústria vindos do Alentejo durante o êxodo rural das décadas de 50 e 60.

No meio daquela vizinhança matizada, destacava-se um homem, Manuel da Fonseca, ou o meu vizinho do primeiro-esquerdo, autor dos romances Cerromaior e Seara de Vento, de quem recordo o sorriso amável, pouco comunista.

Natural de Santiago do Cacém, Manuel da Fonseca estudou no Liceu Camões e na Escola de Belas Artes e passou uma parte importante do fim da sua vida – morreria em 1993 – frequentando locais pejados de operários, proscritos e indigentes.

Certa ocasião, eu jogava futebol com os outros meninos, quando o vi chegar, lá ao fundo, subindo a rua íngreme que dava para a praceta onde vivíamos. Acenou na minha direcção. Ciente de que aquela era uma pessoa “importante”, fui ao seu encontro. Ele levou a mão a um dos bolsos e retirou uma moeda de vinte escudos. “Isto é para comprares uma pastilha”. Eu agradeci e continuei o meu jogo até finalmente ir para casa contar aos pais que o Manuel da Fonseca me dera uma moeda.

Anos depois, a sua viúva, observando que eu me interessava por essas coisas da leitura, passou a oferecer-me um livro do marido nos meus aniversários e pelo Natal. E assim li os volumes de crónicas “À Lareira, Nos Fundos da Casa onde o Retorta tem o Café”, “O Vagabundo na Cidade” ou “Crónicas Algarvias” e os contos reunidos em “O Fogo e as Cinzas” ou “Um Anjo no Trapézio”, indispensáveis para quem pretenda conhecer o Alentejo rural e dos tempos da Ditadura e um excelente primeiro contacto com o neo-realismo português, agora que passam 105 anos sobre o nascimento de Manuel da Fonseca.

Louva-me mucho

O PSD/Seixal emitiu um comunicado a lamentar a não aprovação por parte da CDU de um voto de louvor. Será certamente impressão minha, mas, com tanto por discutir, esta parece-me matéria de menor, bastante menor, importância.

No fundo qualquer dos votos seria bem atribuído. No caso de Miguel Pina Martins, fundador da empresa Science4You, proposto pelo PSD/Seixal, trata-se de um empreendedor, daqueles a sério, que criam postos de trabalho, o que não deixa de ser uma boa notícia e sinal de inovação por parte de um partido que em tempos teve na dupla constituída por Relvas e por aquele rapaz que nos incentivava a bater punho (!) os grandes paladinos do empreendedorismo. No caso da CDU, que aprovou um voto ao ex-presidente da câmara Eufrázio Filipe, não deixa de ser de louvar o espírito de camaradagem sempre presente no partido com paredes de vidro. O PCP não abandona os seus, não se esquece deles. Embora eu desconfie que Eufrázio Filipe não deva ter-se sentido abandonado durante os anos em que presidiu à Região de Turismo da Costa Azul – organismo em boa hora extinto.

Mas recomecemos: nada disto seria um assunto caso o PSD/Seixal não tivesse emitido um comunicado de imprensa, em modo queixinhas, numa espécie de “vejam como o meu louvor é maior do que o deles”, o que fez com que a notícia chegasse aos meios de comunicação nacionais com interesse em fait divers, vulgo Correio da Manhã. No fundo, o Seixal é apenas notícia por motivos tristes – como agressões de carácter homofóbico em festas partidárias –, ridículos – como a adopção da denominação Lisbon South Bay – e, agora, anedóticos.

Creio que nenhum dos agraciados, o que foi e aquele que não chegou a ser, se sentirá particularmente excitado com o elogio. Os prémios nasceram para serem recusados, coisa que Eufrázio Filipe não fez em Fevereiro quando foi ‘ordenado’ Comendador da Ordem do Mérito por Cavaco Silva, contrariando a máxima de Marx, mas o Groucho, que um dia afirmou “recuso-me a pertencer a um clube que me aceite como sócio”. Está na altura de adaptar o ditado “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és” à realidade do Seixal. Aqui fica uma proposta: mostra-me quem louvas, mostrar-te-ei em quem não votarei.

[Texto escrito, e não publicado por uma questão de agenda, para a coluna Outra Margem, no jornal Comércio do Seixal e Sesimbra.]

Festa do Avante: Não há sesta como esta

Dou por mim a bocejar. Quando tiver nas mãos este número do Comércio já terá terminado mais uma edição da Festa do Avante, a que eu não fui. Fui, isso sim, e fruto de uma assinalável falta de discernimento, à de 2014 e posso garantir ao leitor menos esclarecido em termos de comunismo que, se era antes verdade que não havia “festa como esta”, hoje o palco da rentrée política do PCP transformou-se num tédio capaz de aborrecer o mais optimista dos festivaleiros de Verão.

Não me interprete mal. Para efeitos de emoção, antes tínhamos os assaltos, pela entrada contígua à Quinta da Princesa, as cargas da “segurança” e outros predicados impublicáveis que transformavam a Festa do Avante num exercício de masoquismo com alguma piada. Hoje, por muito que o palco central e as barraquinhas de Setúbal ou Beja ainda atraiam os indefectíveis do pê-cê-pê com boinas à Che Guevara e taxa de álcool à Boris Yeltsin, a Festa, que mantém a exigência de um elevado grau de masoquismo, perdeu a graça. Aburguesou-se. O visitante desprevenido desloca-se à Quinta da Atalaia esperando ouvir comentários sobre as políticas de direita do Governo, qualquer que ele seja, e depara-se com o típico “resistente” de Cuba (do Alentejo) a tecer comentários sobre a qualidade do vinho, das bifanas e da feijoada.

Os frequentadores da Festa transformaram-se em críticos gastronómicos. Não é de admirar. Todo o país está agora habitado por food writers, food critics e foodies (perdão) em geral. Um desfile de classe média que se julga esclarecida sobre o “modo de preparação” de caldo verde, sopa da pedra, açordas, feijoadas à trasmontana e francesinhas. As ponchas, os moscatéis e as ginjas já não servem para que os festivaleiros aguentem os discursos do secretário-geral, não; agora são sinónimos de savoir vivre, de estatuto social.

Aqueles que optam por ignorar a comida dedicam-se à crítica musical. Convenhamos que, por € 23, a Festa do Avante é um excelente festival de música para quem aprecia artistas do calibre de Dealema, Expensive Soul ou Txarama (?). É de duvidar que o “povo” saiba quem eles são, mas, uma vez mais, a Festa tem mais classe média com cartão de crédito e dívidas do que proletários ou camponeses calejados.

Antigamente íamos à Festa do Avante para escapar a Lisboa. Agora Lisboa infiltrou-se na Festa do Avante. Aí vem outro bocejo.

[Texto publicado na edição de 4 de Setembro de 2015 do jornal Comércio do Seixal e Sesimbra. PDF aqui: http://content.yudu.com/Library/A3wa2z/Edio291/resources/index.htm?referrerUrl=http%3A%2F%2Ffree.yudu.com%2Fitem%2Fdetails%2F3575783%2FEdi—-o-291 ]

Lisbon south quê?

Portugal é um país de desígnios. Recentemente foi notícia uma brilhante ideia dos autarcas de Seixal, Almada e Barreiro, em colaboração com a empresa pública Baía do Tejo: juntar os três municípios, integrados no Arco Ribeirinho Sul, e chamar-lhes Lisbon South Bay.

Até prova em contrário, o ‘naming’ – são palavras deles – Lisbon South Bay não trará a Google para o Miratejo, não fará surgir start-ups ao lado do Almada Fórum, não transformará a Aroeira nuns Hamptons nem fará do Vale da Amoreira um Brooklyn pronto a acolher lojas de grife, it girls e bandas de rock & roll. Mais do que uma ideia embaraçosa, a Lisbon South Bay parece-me um tiro nos bicos dos pés em que os distintos autarcas se colocaram ao comunicar a sua criação.

Há uns anos, ficou tristemente célebre a campanha West Coast of Europe, com fotografias do senhor Nick Knight pagas a peso de ouro. De resto foi uma campanha liderada pelo ministro Manuel Pinho que, em 2007, apontava para o crescimento de 50% no número de campos de golfe no Algarve, e, em 2010, era comissário da candidatura nacional à Ryder Cup. A campanha Allgarve surgiu em simultâneo e, em tempos mais recentes, a menção ao pastel de nata como possível catalisador das exportações da pátria. Felizmente, todas elas tiveram felizes mortes prematuras.

Lamento que os três autarcas se tenham rendido ao desígnio do turismo, quando dificilmente o Ecomuseu da Arrentela pode atrair mais do que algumas visitas de estudo de escolas do concelho e quando em tudo o resto – do Cristo Rei às praias da Costa da Caparica – a Margem Sul faz já, para todos os efeitos, parte de Lisboa. Para não exigir demasiado, talvez fosse uma boa ideia apostar na indústria, voltar a produzir, contribuir para o aumento de qualidade do comércio, ou, em alternativa, acabar com os bairros de lata. Lisboa – com o turismo de massas, a degradação arquitectónica, o lixo nas ruas, a péssima educação dos residentes – é suficientemente má sozinha. Não se queiram juntar a ela.

[Texto publicado na edição de 17 de Julho de 2015 do jornal Comércio do Seixal e Sesimbra. PDF aqui: http://content.yudu.com/Library/A3sldp/Edio288/resources/index.htm?referrerUrl=http%3A%2F%2Ffree.yudu.com%2Fitem%2Fdetails%2F3410135%2FEdi—-o-288%5D