o meu vizinho manuel da fonseca

Eu teria uns sete ou oito anos, vivia no Seixal, terra de comunistas austeros, funcionários públicos e trabalhadores da indústria vindos do Alentejo durante o êxodo rural das décadas de 50 e 60.

No meio daquela vizinhança matizada, destacava-se um homem, Manuel da Fonseca, ou o meu vizinho do primeiro-esquerdo, autor dos romances Cerromaior e Seara de Vento, de quem recordo o sorriso amável, pouco comunista.

Natural de Santiago do Cacém, Manuel da Fonseca estudou no Liceu Camões e na Escola de Belas Artes e passou uma parte importante do fim da sua vida – morreria em 1993 – frequentando locais pejados de operários, proscritos e indigentes.

Certa ocasião, eu jogava futebol com os outros meninos, quando o vi chegar, lá ao fundo, subindo a rua íngreme que dava para a praceta onde vivíamos. Acenou na minha direcção. Ciente de que aquela era uma pessoa “importante”, fui ao seu encontro. Ele levou a mão a um dos bolsos e retirou uma moeda de vinte escudos. “Isto é para comprares uma pastilha”. Eu agradeci e continuei o meu jogo até finalmente ir para casa contar aos pais que o Manuel da Fonseca me dera uma moeda.

Anos depois, a sua viúva, observando que eu me interessava por essas coisas da leitura, passou a oferecer-me um livro do marido nos meus aniversários e pelo Natal. E assim li os volumes de crónicas “À Lareira, Nos Fundos da Casa onde o Retorta tem o Café”, “O Vagabundo na Cidade” ou “Crónicas Algarvias” e os contos reunidos em “O Fogo e as Cinzas” ou “Um Anjo no Trapézio”, indispensáveis para quem pretenda conhecer o Alentejo rural e dos tempos da Ditadura e um excelente primeiro contacto com o neo-realismo português, agora que passam 105 anos sobre o nascimento de Manuel da Fonseca.

josé luís peixoto: uma aventura no reino de kim

[Texto publicado na revista GQ de Outubro de 2012. Versão editada.]

José Luís Peixoto visitou o país mais fechado do mundo e trouxe um livro na bagagem: Dentro do Segredo – Uma Viagem na Coreia do Norte. Ao longo de quinze dias, o autor, prémio Saramago em 2001, percorreu aquele país de autocarro, esteve hospedado num hotel decadente (o melhor da capital), comeu carne de cão, temeu pelas suas ações e fez várias vénias a estátuas do Querido e do Grande Líder.

***

“Não se pode entrar com telemóveis na Coreia do Norte.” A frase de José Luís Peixoto, às primeiras páginas de Dentro do Segredo, ganha força à medida que a relemos: “Não se pode entrar com telemóveis na Coreia do Norte.” Rodeada pela Rússia, China, Coreia do Sul e pelo Oceano Pacífico, a Coreia do Norte é conhecida nos media como “o país mais fechado do mundo” – um cliché em si mesmo – uma sociedade autocrática e um enigma. Não tanto para José Luís Peixoto. Em Abril, o autor viajou até lá para assistir às comemorações do centenário do nascimento do pai (o Querido Líder, Kim Il-Sung), dos setenta anos do nascimento do filho (o Grande Líder, Kim Jong-Il), já então liderado pelo não tão santo espírito de Kim Jong-Un (o neto). O resultado foi Dentro do Segredo – Uma viagem na Coreia do Norte.

No dia desta entrevista José Luís Peixoto vestia uma t-shirt dos Moonspell, o que não é detalhe de menor importância. “Seria impossível vestir esta t-shirt na Coreia do Norte”. Realça, “não há qualquer informação que não seja propaganda”, nem mesmo uma inscrição numa peça de vestuário.

À entrada no país, em Pyongyang, feita por avião, José Luís Peixoto deixou o telemóvel e o passaporte num pequeno saco à guarda do regime. Quinze dias depois, à saída, em plena fronteira com a China, a norte, os seus pertences foram-lhe devolvidos por outro guarda. “É a única coisa que funciona naquele país, o controlo extremo dos cidadãos. Pode não haver eletricidade, água, comida, vestuário, mas o controlo dos atos das pessoas nunca falha.”

A Coreia do Norte, um país que não surge sequer no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas – Somália, Eritreia ou Butão são outros dos não contabilizados –, e resultado da divisão da Coreia em 1948 é uma nação sem memória. “Não acredito que a reunificação da Coreia seja possível a médio prazo”, afirma o autor, que conviveu com um povo sujeito a uma lavagem cerebral de décadas. As diferenças entre as duas Coreias são abissais. A sul, uma república de pendor capitalista, desenvolvida; a norte, uma nação que vive a Idade Média no século XXI e em que os habitantes acreditam – porque são forçados a acreditar – que no dia em que o Querido Líder nasceu, em 1912, o ano ‘0’ da Coreia do Norte, “os pássaros cantaram em coreano”, refere, a anunciar a boa nova.

Ao contrário do que é anunciado na resenha da contracapa, Dentro do Segredo não é um livro de viagens – no sentido de não se ocupar de trivialidades, de não ser um guia de lazer – embora esteja recheado de pormenores detalhados da geografia, orografia, clima ou hábitos culturais da Coreia do Norte. Seria abusivo tratar a prosa de JLP como escrita de viagens. “Trata-se de um livro escrito a partir de uma viagem – é isso”, refere o autor, “mas não é propriamente escrita de viagem”. Dentro do Segredo é um livro político. Uma declaração dos direitos humanos em prosa novelística. Por pouco não foi formalmente um romance. Todos os visitantes da Coreia do Norte são obrigados a assinar um documento, à saída – e indispensável para de lá sair – em que se comprometem a “não publicar qualquer relato ou registo daquilo a que assistisse”, escreve o autor. JLP estava, portanto, obrigado contratualmente, a cumprir esta premissa.

Ao longo das últimas décadas foram vários os autores que visitaram a Coreia do Norte. José Luís Peixoto leu B.R. Myers, autor de The Cleanest Race (em tradução livre, A raça mais Pura), que desvenda o cariz racista do regime, e textos vários espalhados pela imprensa de Christopher Hitchens, um autor que, em A Vitória de Orwell, denuncia o país como “uma sociedade em que a vida individual é absolutamente inútil, e onde tudo o que não é absolutamente obrigatório é absolutamente proibido”. Aliás, Peixoto tem em comum com Hitchens o interesse por regimes fechados. A ideia de viajar à Coreia do Norte surgiu-lhe um ano antes, em Los Angeles, onde conheceu um escritor coreano, Chiwan, e onde tinha por hábito frequentar o bairro de Koreatown. Sentia uma “curiosidade”, escreve, “por sociedades fechadas e sistemas políticos totalitários.” A curiosidade levou-o, primeiro, a trocar correspondência com escritores e a escrever em fóruns da internet bielorrussos, um país mediaticamente conhecido como “última ditadura da Europa”; depois, à Coreia do Norte, para a derradeira experiência no mais fechado, misterioso e pobre país do mundo.

José Luís Peixoto nasceu em 1974 em Galveias, Ponte de Sôr, no distrito de Portalegre. Do Alto Alentejo guarda resquícios do sotaque, que o denunciam pontualmente, o gosto pela gastronomia e algum vocabulário, como “magano”, nome, curiosamente, do seu restaurante preferido em Lisboa.

Aos 38 anos, faz parte da curta e prestigiada galeria de vencedores do Prémio Saramago. Foi mesmo o mais jovem a vencer o prémio estabelecido em 1999, à segunda edição e com apenas 27 anos, com o seu romance de estreia, Nenhum Olhar, de 2000. No mesmo ano foi finalista do Grande Prémio de Romance e Novela da APE e do Prémio do Pen Club. E é um nome ímpar no atual mundo das letras portuguesas, não apenas pela sua escrita mas também pelo estilo de vida, denunciado pelas tatuagens, piercings e pelo gosto pelo heavy metal. “Não sei dizer quantos tenho. Os meus piercings são muito particulares…”, diz, enquanto segura as pequenas argolas que lhe perfuram a orelha direita, em vários pontos, atravessando mais do que um orifício. “As pessoas que percebem de piercings chamam-lhe ear project.” É das poucas vezes em que ri – a sério, embora cultive um sorriso abundante – durante a entrevista. Faz pequenas pausas, para escolher as palavras, mas raramente se torna presunçoso. Inicia enumerações e explicações com um “pronto”, como se a literatura não fosse a vaca sagrada por que é não raras vezes tomada. Mas ela, a literatura, está sempre lá.

“Não sei o que temos em comum…”, diz, sobre a geração que venceu o prémio Saramago desde a sua criação, em 1999. Entre outros: João Tordo, Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mãe. Todos iguais, todos diferentes. Se o primeiro cultiva um estilo ‘urbano’, a obra de Gonçalo M. Tavares está repleta de referências externas ao país, por oposição à de Valter Hugo Mãe. José Luís Peixoto concorda. “Talvez tenhamos em comum o facto de sermos a primeira geração que, sendo influenciada pelo 25 de abril, não o viveu”. No caso de Peixoto, a influência da revolução torna-se especialmente presente. É um autor associado à Esquerda – uma associação que não só não nega, como faz questão de afirmar – e isso reflete-se na sua escrita, como aconteceu com o livro Nenhum Olhar, obra povoada de referências a um Alentejo pobre, que a crítica apelidou de mítico, e que o autor mistificou num romance que lhe valeu o prémio Saramago. Ainda assim, “Saramago foi contemporâneo dos Neo-Realistas e não pertenceu a escolas”.

Em resumo, que se lixem as “gerações”, as “correntes”. Já as viagens não apenas lhe importam, como o atraem cada vez mais. “Desde que os meus livros começaram a ser traduzidos”, e estão-no já para mais de uma vintena de línguas, “tenho viajado bastante”. Juntou o útil ao agradável e colabora agora uma revista de viagens. O mapa-mundi assinala Los Angeles, Las Vegas, Índia, China, Macau. O segundo lugar mais exótico, depois da Coreia do Norte: “A Índia.” De seguida, a China, “um país que tenho vindo a descobrir e que visitei quatro vezes desde 2011”. Mas “Portugal é um país com qualidades muito difíceis de superar. Não falo apenas do clima: o que mais me cativa aqui são as pessoas.”

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JLP troca a t-shirt por uma camisa pela primeira vez em 2012, para a fotografia. Pergunta se deve abotoar os botões de punho e usa o Instagram, ele que é telemóvel-dependente, apontando ao espelho, para enviar uma fotografia à namorada: “Ela nunca me vê vestido desta forma”.

Sorri e quando lhe pergunto quando regressa à ficção responde “em breve. Ando sempre com um livro na cabeça.”

amo-te, moscovo

Vindo da Praça Vermelha, virei à direita depois de atravessar as arcadas que ligam os edifícios do Museu Histórico do Estado e da Guerra Patriótica de 1812. Caminhei junto ao Ritz Four Seasons, rumo à Praça da Revolução, e encarei então, pela primeira vez, o imponente teatro Bolshoy e a estátua de Karl Marx, símbolos contrastantes do que foram a Rússia do século XIX e a do século XX.

Naquele dia, em redor da estátua de Marx – onde lemos talvez a mais célebre frase retirada do Manifesto Comunista, “Proletários de todo o mundo, uni-vos” – era celebrado um casamento. Noivo e noiva trajavam a rigor, acompanhados por duas damas de honor incontestavelmente belas e um fotógrafo que registava o momento. Um sonoro Maserati irrompeu vindo da Okhotnyy Ryad, deixando em sobressalto uma horda de turistas japoneses, cujas câmaras fotográficas disparavam em todas as direcções. Em frente ao edifício da Duma, um segurança sem uniforme ostentava uma arma, enfiada num coldre preso por cima da camisa. “лето” (“Verão”), anunciavam os mupis da Câmara Municipal. Em todo o centro da cidade, passeios, parques e jardins cobriam-se de um matizado de rosas, jacintos e lilases. E, de repente, começou a chover.

Moscovo, diria um qualquer autor de artigos de viagens baratos, é uma cidade de contrastes.

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Em What am I Doing Here?, Bruce Chatwin escreve que “caminhar é uma virtude, o turismo é um pecado mortal”. Tento seguir esta ideia ao máximo sempre que viajo. Por isso, adiei o início do rascunho deste texto para mais de uma semana depois de ter aterrado na capital russa – período de tempo em que caminhei muito e que julguei ser o suficiente para alinhavar algumas ideias sobre a maior cidade da Europa, a capital do maior país do mundo, sem sucumbir a clichés.

E no entanto, os clichés sobre Moscovo pesam sobre nós com a força de uma cortina de ferro. Dirão aqueles que leram o meu post Viver e Morrer em São Petersburgo que me apaixonei pela cidade de Pedro relegando a capital para segundo plano, quando o que acontece é que apenas visitei São Petersburgo depois de três semanas em Moscovo, já depois de absorver o impacto das diferenças entre a Mãe Rússia e, digamos, o eixo civilizacional composto por Paris, Londres e Nova Iorque.

Convém estar consciente de que o moscovita típico surge nos seguintes estados: aborrecido, zangado ou ambos. Isto é válido para as pessoas com que nos cruzamos no Metro, na rua ou em restaurantes; de facto, com excepção de algumas debutantes, a população não é propriamente amistosa. Não pretendo cometer uma infâmia sobre todo um povo; eu seria tremendamente injusto se porventura fizesse passar a ideia de que toda a gente em Moscovo é antipática, algo que amiúde comprovei não ser verdade.

Dito isto, o mero acto de caminhar pelas ruas de Moscovo pode transformar-se facilmente num exercício de masoquismo. Como será fácil de imaginar a confusão começa precisamente com o idioma. A sinalização em inglês é praticamente inexistente, assim como o são as pessoas que sabem falar inglês, e o alfabeto cirílico (reparem que me refiro meramente ao alfabeto, não à língua) tornam qualquer tentativa de interpretar placas de sinalização ou indicações infrutíferas. As parcas semelhanças com palavras oriundas do latim ou de inspiração anglo-saxónica terminam nestes exemplos: “Ресторан”, “Метро”, “Банк” (“restaurante”, “metro” e “banco”, respectivamente).

Na rua, no centro, nas grandes avenidas que rodeiam a Praça Vermelha, na área financeira e administrativa, tanto homens quanto mulheres são incomparavelmente mais elegantes do que os nossos equivalentes do Chiado. Porém, nos arredores, o típico “Gopnick” (termo equivalente ao nosso “chunga”) mete o aspirante a gangster da Amadora a um canto. Os subúrbios, aqui, não são para brincadeiras, o que fica provado pela taxa de homicídios neste país, sensivelmente o dobro da dos Estados Unidos.

Porque Moscovo é uma metrópole gigante, complexa, lá encontramos de tudo. Creio mesmo, para “roubar” uma expressão querida aos norte-americanos, que podemos afirmar haver uma “excepcionalidade” russa. As catedrais, com as suas cúpulas douradas, ou anacronicamente coloridas, como a de São Basílio (na foto), os parques solarengos em Agosto, as babushkas com sacos de compras, as dedushkas a tecer poses para a fotografia – em tudo isto Moscovo se distingue. Há ruas que nos lembram o melhor de Paris, com uma arquitectura quase sem paralelo, de Viena ou de Berlim, e há até uma espécie de City à inglesa com edifícios a apontar aos céus. A cidade faz-se rodear de bustos, monumentos, placas comemorativas de Lenin, transformando o pai da União Soviética numa figura omnipresente. É relativamente comum encontrar placas que se limitam a assinalar os locais onde Lenin proferiu discursos. Bem-vindos à Rússia – que, livrando-se dele, escolheu preservar a memória do totalitarismo comunista.

La Dolce Vita na monumental Moscovo 

Não tenho a pretensão de escrever um artigo de viagens – antes assinalar as minhas impressões sobre a cidade, pelo que não me alongarei na descrição de hot spots, monumentos, pontos de interesse ou restaurantes.

Cumpre-me apenas referir que, se a gastronomia russa não é valorizada além das típicas referências ao caviar e à vodka, vale a pena experimentar o que vai além disso, dos peixes salgados, como o siliotka (da família do arenque), ao salmão fumado e à cerveja, passando por pratos confeccionados com beringela (a pasta de beringela, aqui apelidada de caviar de beringela é definitivamente um must have) ou o extraordinário borsch, uma sopa de beterraba que prova a influência da cozinha ucraniana na Rússia, ou um inebriante shot de khrenovukha (vodka de mel e rábano picante). Foi ainda com surpresa que vi servido toucinho salgado enrolado em talos de alho como entrada, uma delícia para os adeptos de comidas substanciais. De resto, a presença de restaurantes internacionais faz com que seja fácil experimentar a gastronomia de países como Israel, Geórgia, Tailândia ou Vietname.

A história da cidade está intimamente ligada à Revolução de Outubro, ao império soviético, ao regime que governou o país durante o século XX, e é, por isso, fácil deparar-mo-nos com monumentos alusivos a Lenin, aos heróis da revolução, aos artistas aprovados pela URSS. Mas, com as primeiras referências à sua existência a remontarem ao ano de 1147, Moscovo tem muito mais a contar mais sobre si mesma do que o viajante incauto ou toldado pela memória do comunismo poderia supor.

Em plena Praça Vermelha – a expressão em nada se refere ao regime comunista; no original em russo, Krasnaya Ploshchad, sendo que o termo krasnaya, vermelho, é sinónimo de belo em russo arcaico – o centro nevrálgico da cidade, encontramos monumentos que contam a história da cidade desde há séculos, como a Catedral de São Basílio, erguida entre 1555 e 1561 por ordem de Ivan, o Terrível, ou as muralhas do Kremlin, cuja construção inicial remonta ao século XII. Vale a pena uma visita à Catedral de Cristo o Salvador, após a travessia da Ponte do Patriarca, ao Museu de Arte Multimédia, onde pude ver a surpreendentemente pequena cápsula espacial, em exposição temporária, com que Yuri Gagarin se tornou o primeiro homem no espaço.

Em resumo, dentro do primeiro anel da cidade, do bairro histórico de Kitay Gorod (apesar de Kitay significar China em russo moderno, o termo, em russo antigo, deriva do tipo de linha defensiva desta área, construída com cestos de vime cheios com terra ou pedras) às ruas adjacentes da turística rua Arbat, da Galeria Tetryakov ao teatro Bolshoy, as inúmeras igrejas e praças da cidade – tudo isto é digno de visita. Do Kremlin, com as catedrais da Assunção, da Anunciação e do Arcanjo São Miguel, e as igrejas da Deposição das Vestes, dos Doze Apóstolos e do Palácio das Facetas, além da Torre do Campanário de Ivan III, perto do qual é possível ver o maior sino do mundo (200 t), aos museus, aos cafés, aos restaurantes – tudo isto ficará na memória do viajante mais desapegado.

*

Sinto-me agora num estado de inquietude, o peito preenchido pelo desassossego de quem está prestes a regressar. Não a Moscovo, mas a ela. Ao contrário do que o título sugere, eu quis declarar o meu amor não a esta cidade mas a uma mulher a quem aconteceu o ter lá nascido. Nada importam a geografia e o clima, a latitude ou a longitude, língua, local ou destino. Onde quer que esteja, ela é o mundo todo.

Я люблю тебя.

geoff dyer: “Quem satiriza acaba sempre por ser satirizado”

Em 2013, fiz uma pequena entrevista a Geoff Dyer (n. 1958) a propósito do livro  Yoga para Pessoas que Não Estão para Fazer Yoga (Quetzal)o primeiro livro do romancista, crítico e ensaísta inglês a ser publicado em Portugal. Natural de Cheltenham, Inglaterra, Geoff Dyer venceu em 1992 o prémio Summerset Maugham e o WH Smith Best Travel Book Award, em 2003, precisamente por este Yoga… Um livro de viagens, sem ioga, que vai de Nova Orleães a Angkor Wat sem perder de vista o humor e o sarcasmo. Entrevista publicada na edição da GQ Portugal de Outubro de 2013.

O leitor desavisado poderia pensar que está perante um livro de auto-ajuda. Como é que o define?
Gosta da capa? É uma brincadeira que, de facto, faz lembrar um livro de auto-ajuda. Quis ser um pouco provocador e escrever um livro para pessoas que querem viajar pela leitura. O livro é uma consequência das minhas viagens, quase sempre em trabalhos de comissão para revistas, e alguns dos textos foram recuperados; outros foram reeditados.

E no entanto estamos perante um livro publicado há dez anos.
Sim, mas este é apenas um pretexto. A editora vai publicar os meus romances iniciais.

Dos destinos presentes no livro, de qual mais gostou?
Gostei de vários deles de formas diferentes, mas acho que o último texto, sobre o festival Burning Man, no Nevada, será o que mais me marcou. Leptis Magna, na Líbia, é outro dos destinos que melhor recordo. Foi uma lição de antiguidade.

Pela experiência? Yoga para Pessoas que Não Estão para Fazer Yoga está repleto de experiências… Por exemplo, o capítulo passado em Paris revela experiências com drogas. Quanto daquele texto corresponde à verdade?
Talvez 99%. Eu falo sobre a minha experiência com skunk. Durante anos, aquele foi o único tipo de haxixe disponível em Londres, e ajudou-me a ser criativo. No entanto, não o aconselharia aos adolescentes. De certa forma, está a apodrecer as mentes dos adolescentes. Eu era já adulto quando o tomei.

A sua escrita combina elementos de ficção com não-ficção. Onde é que está a linha que os separa?
Não existe: eu não desenho linha alguma. Não me importo, é apenas escrita. São tudo livros.

A data momento, cita Fernando Pessoa. É um fingidor?
Acho que provavelmente, enquanto romancista, posso dizer que sim. Os meus romances são meras variações do tema “rapaz conhece rapariga”.

O Independent on Sunday escreve que Geoff Dyer é uma mistura de Hunter S. Thompson, Roland Barthes e Paul Theroux, para concluir que este é um livro, acima de tudo, divertido. Como é que o seu humor surge?
Acho que está na minha natureza. É como sou na vida. É uma coisa inglesa, a que chamamos dry humor. Conheço pessoas em Londres que são completamente desprovidas de sentido de humor e dou comigo a pensar: “Como é possível?” Não imagino a vida sem humor, mas não me defino como um escritor cómico! Aí, sim, traço uma linha a separar o humor do escárnio e da sátira. Normalmente, quem satiriza acaba sempre por ser satirizado.

que gaga é esta?

A fama, diz-se, é efémera. No mundo da música, salvo raras excepções, são poucos os que conseguem manter-se no auge durante mais tempo do que aquele que os fãs demoram a consumir o seu produto e a cair nos braços da next big thing. Depois de dois anos em constante tournée e de dois álbuns e mais singles que venderam dezenas de milhões de cópias, Lady Gaga ameaça tornar-se numa dessas raras excepções.

Stefani Germanotta, de ascendência italiana, nasceu em 1986 numa Nova Iorque assolada por criminalidade violenta, antes da aplicação, na prática, das políticas que a transformaram no oásis de criatividade que hoje conhecemos.

Entre 1986 e 2008, Lady Gaga cimentou os seus conhecimentos de música e entretenimento – aprendeu piano com apenas quatro anos; estreou-se ao vivo ainda adolescente, nos bares de Manhattan e, com apenas 17 anos entrou na cobiçada escola de música Tisch, da Universidade de Nova Iorque.

As comparações com Madonna, rainha de uma pop de que Gaga está a tornar-se princesa, são inevitáveis. Ambas jovens à data da ascensão à fama, uma, a mais velha, teve uma rígida educação religiosa; outra estudou numa escola católica, detalhes das biografias de ambas que, não sendo condição sine qua non, terá ajudado a cimentar as suas peculiares visões do mundo. Para muitos, no entanto, as comparações terminam aqui. Apesar de a própria Madonna se ter aproximado da autora de Poker Face – o que poderá significar que a “rainha” sabe bem que a “princesa” poderá suceder-lhe num futuro próximo – a professora universitária e intelectual Camille Paglia, uma feminista célebre pelo seu anti-feminismo militante e especialista em estudos de género que se celebrizou na defesa de Madonna nos anos 80, foi implacável com Gaga num artigo assinado no The Sunday Times: “Lady Gaga é a morte do sexo.” Apesar de conceder-lhe o título de primeira grande estrela da era digital, Paglia critica uma certa hipocrisia na relação de Gaga com os fãs. “Embora se apresente como representante dos freaks e dos inadaptados, não existem provas de que ela tenha sido uma”, escreveu Paglia, que acusa Gaga de ser uma personalidade fabricada. A crítica é feroz e, até certo ponto, certeira, embora não existam também provas de que a própria Madonna não tenha sido ela também fabricada.

Lady Gaga é acima de tudo um sinal dos tempos, a estrela pop possível, hoje. Mas, ao contrário de Britney Spears, por exemplo, a sua imagem parece ser pensada pela própria e não por profissionais de marketing reunidos em sessões de brainstorming. Gaga é uma fabricação, sim, mas uma fabricação honesta.

A ideia de a cantora representar os inadaptados e os freaks está precisamente subjacente à génese da sua carreira; se ela cresceu numa Nova Iorque mais limpa do que a dos anos 70 e 80, nem por isso deixou de embrenhar-se no submundo da Big Apple. Antes de ser Lady, Stefani era uma presença constante em pequenos palcos dos clubes LGBT nova-iorquinos. Então, é apenas legítimo acreditar que Gaga é, para lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros, o que foi Madonna no passado para as mulheres, um símbolo. [A afirmação justifica-se a si mesma; basta entrar numa qualquer discoteca gay para ficar a conhecer a devoção deste público à sua musa.]

Podemos apontar-lhe a falta de um certo bom gosto musical, que contrasta com a sua boa formação na área, mas nunca afirmar que chegou a este patamar sem mérito próprio. Apesar da paródia [Bad Romance é uma piada de música; Alejandro um exemplo supremo de kitsch; Telephone, com um videoclip que parodia o já de si peculiar universo de Quentin Tarantino; Paparazzi uma sátira a um amor entre uma estrela e o seu parasita; e Poker Face uma mera navegação na crista da onda], Gaga é respeitada pelos seus pares. Depois das aparições ao lado de Madonna, em breve deverá gravar com Cher. O “amigo” Elton John apresenta o próximo single da cantora, Born This Way, como um novo hino gay, substituo de I Will Survive, Cindy Lauper posou ao lado dela para uma campanha da marca de produtos de cosmética MAC e, por último, até a revista britânica de política New Statesman se rendeu à sua aura, incluindo-a na sua lista das 50 personalidades mais influentes do mundo, num honroso 44.º lugar, na companhia de Angela Merkel, Barack Obama, Steve Jobs ou Paul Krugman.

A 10 de Dezembro, Lady Gaga actua pela primeira vez em Portugal. Num dos seus últimos espectáculos em território europeu, em Oslo, Noruega, a cantora surgiu em palco com, aparentemente, mais quilogramas do que os visíveis no último ano e meio. A polémica não se fez esperar. Grande parte dos sites de fofocas atribuem-lhe problemas de nutrição. Desde a sua ascensão a estrela pop, Lady Gaga terá sido hospitalizada seis vezes em virtude de privação de comida e de distúrbios alimentares. E também aqui, uma vez mais, é um sinal dos tempos, uma vítima, ainda que consciente, da voragem da moda, TV e internet. Que Lady Gaga vão os seus fãs portugueses poder ver a 10 de Dezembro? A que pesa entre 50 e 57 kg – a doutrina divide-se – ou a que é acusada de desleixada? O mais certo é verem um especátulo pop irrepreensível, ao nível dos que apresentou ao longo da Monster Tour. Mesmo que com alguns kg a mais. Aliás – o que é que isso interessa?

[Publicado na edição de Dezembro de 2010 da revista GQ Portugal.]

Viver e morrer em São Petersburgo

Um dia, tal como pediu Joseph Brodsky no poema Estrofes – “Não escolherei país ou paróquia / Virei morrer à ilha Vasilievsky” – todos deveríamos ter a oportunidade de ir morrer a, ou de visitar, São Petersburgo. 

Fundada em 1703 por Pedro o Grande, São Petersburgo ombreia em monumentalidade com capitais como Paris ou Viena. De facto, o czar tinha o sonho de ocidentalizar o seu país e por isso bebeu da cultura europeia o mais do que suficiente para criar um monumento à arte, à arquitectura e à cultura numa região então abandonada, semi-desértica, junto ao Golfo da Finlândia.

São Petersburgo – que teve o nome de Petrogrado entre o início da I Guerra Mundial e 1924, quando passou a chamar-se Leninegrado, designação que persistiu até à queda da União Soviética – é o lar de um dos mais impressionantes museus do mundo, o Hermitage.

Instalado nos edifícios que constituíam a residência do último Czar, Nicolau II, da dinastia Romanov, alberga obras de artistas como Leonardo da Vinci, Matisse, Rembrandt ou Paul Cézanne, entre muitos outros, além de expor alguns dos famosos ovos da Páscoa da Casa Fabergé, arte de vários períodos, desde o Paleolítico aos nossos tempos, e com inúmera proveniência, num total de cerca de três milhões de peças. Segundo os responsáveis, se nos detivéssemos durante um minuto em cada peça demoraríamos 11 anos a ver o museu. Reserve-se um dia inteiro, ou mesmo dois, para uma visita mais modesta. E atente-se que apenas o próprio edifício merece a visita.

Sendo uma cidade imperial por excelência, capital do regime czarista durante perto de 300 anos, São Petersburgo está repleta de palácios, casas apalaçadas, edifícios de apartamentos em estilos que vão do barroco ao neoclássico, pontuada por outros de inspirações diversas, como o da Casa Muruzi, onde viveu o já mencionado Joseph Brodsky, com tectos e arcadas ao estilo arábico.

A cidade desenvolve-se em torno da incomparável Avenida Nevsky, que dá título a um dos mais famosos contos de Nikolai Gogol. A avenida atravessa a cidade desde a Praça Alexandre Nevsky até ao Palácio de Inverno; pelo meio, cruza os rios Fontanka e Moika e o canal Griboyedova, e encontra-se com as ruas Bolshaya Morskaya, Malaya Morskaya e Kazanskaya, geografias repletas de histórias e lendas, locais de conspiração, como a que levou ao assassinato do “monge louco” Grigory Rasputin, no palácio Yusupov [na imagem].

Ao contrário de Moscovo, em que impera um certo ar de ‘começo de festa’, uma cidade opulenta onde importa mostrar cartão de crédito – Moscovo é a segunda cidade do mundo em número de bilionários, atrás apenas de Nova Iorque – em São Petersburgo o ambiente é incomensuravelmente mais culto. Em vez de discotecas repletas de homens na crise da meia-idade, temos ruas de bares com hipsters e de restaurantes de comida internacional. Em vez de um desfile de Maseratis e Ferraris, vemos Oldsmobiles e Cadillacs. Homens e mulheres são igualmente requintados, enquanto em Moscovo eles têm tendência a ser mais erectus do que sapiens. 

Locais a visitar, apenas alguns, numa cidade que consiste toda ela num ponto de interesse: além do Hermitage, Casa Museu Anna Akhmatova, Fortaleza de São Pedro e São Paulo, Catedral de Santo Isaac, Catedral do Sangue Derramado, Museu Fabergé, Cavaleiro de Bronze na Praça do Senado, Catedral de Kazan, Praça Lenin (junto à estação ferroviária onde o revolucionário desembarcou após a revolução de Fevereiro de 1917), o Cruzador Aurora (ancorado junto ao bairro de Petrogradskiy, no rio Bolshaya Nevka, e de onde foi dada a ordem para invadir o Palácio de Inverno e dar início à Revolução de Outubro), além de bares, livrarias e pequenas ruelas capazes de nos surpreender a cada instante. Um passeio à beira-Moika, Fontanka ou Neva é um bom tónico para quem, como eu, sentiu saudades do Tejo após três semanas em Moscovo.

Joseph Brodsky não cumpriu o seu desejo. Morreu em 1996, aos 55 anos, em Nova Iorque, Estados Unidos, após ter sido “convidado a sair” da União Soviética em 1972. Não sem antes ajudar a eternizar a ilha Vasilievsky e a sua terra-natal, imperial cidade da cultura, das artes e das ideias, que todos os homens deveriam poder visitar um dia.

a sabedoria dos mais velhos

Nos idos de 1998, com a idade de 16 anos, escrevi um conto intitulado “Um Verão Indiano” para a disciplina de Português. O texto combinava elementos de uma certa estética ou subcultura new age, que chegava a Portugal com mais de uma década de atraso, de onde me inspirei para o título, com as minhas influências musicais e literárias de então – eu ouvia muito The Doors e Velvet Underground, além do típico grunge da década e de alguma música clássica e tinha treslido “Os Versículos Satânicos”, “Assim Falava Zaratustra” e “Utopia”.

Em suma, escrevi um texto de merda.

A minha professora, por ser também directora de turma, estava tão a par dos meus zeros a comportamento quanto da minha capacidade para, com pouco estudo e menos esforço, tirar boas notas, ou as necessárias para passar de ano. Talvez por isso, presumo hoje, ela tenha gostado do meu conto avaliando-o com um Excelente, sem deixar de escrever o seu comentário: “Basta teres vontade e poderás ser tudo o que quiseres”.

Poderiam ter sido palavras proféticas, aquelas, caso eu hoje fosse quem eu desejava ser na altura e, principalmente, caso a minha vontade de ser “alguém” tivesse sido suficiente para que eu cumprisse, por assim dizer, o meu devir. Mas que desejava eu ser, em 1998, ano em que foi fundada a Google, morreu Frank Sinatra e estalou o escândalo Monica Lewinsky?

Quando olho para aquela época apercebo-me de que fui um adolescente teimoso, rebelde, inconformado e que lidava mal com a autoridade. Ou, como qualquer jovem deve ser. Recordo, como exemplo, um certo orgulho que tive em não ter visitado a Expo ’98, que eu entendia como um desperdício de dinheiro, uma perda de tempo e uma sabujice. Ou as minhas reservas quanto a ir ao cinema oriundo — estreava Titanic, um filme de que muitos rapazes se aproveitaram para sacar uns beijos às mais incautas debutantes. Ou a minha teimosia em não frequentar o McDonald’s, tudo exemplos de actividades a que os meus colegas e amigos se dedicavam com frequência e a que eu, felizmente, me poupei.

Em 1998, sabemos hoje, os tempos eram de mudança. O primeiro-ministro, António Guterres, prometia uma ‘paixão pela educação’ e o desenvolvimento sustentável que não houvera nos tempos dos PM Cavaco I, II e III. O presidente da República, Jorge Sampaio, fazia discursos que ninguém entendia. Apareciam os telemóveis e a Internet e o ‘bug’ do milénio assustava os crédulos. A classe média-baixa fazia férias em time-sharing, a classe média comprava segunda casa, a classe baixa estava lixada e a alta preparava-se para lixar os restantes. Eu trabalhava no Verão para comprar uma guitarra eléctrica e lia, lia muito. Assim, o meu sonho teria sido, caso eu tivesse sonhado, ser guitarrista ou escritor. Porém, e em parte devido ao meu crescimento e à minha educação espartana e orientada para lidar bem com o insucesso, nunca fui um grande sonhador. além de que tal ideia nunca me foi apelativa. Tentei sempre ser tão racional quanto possível, eliminando do meu processo mental quaisquer ideias românticas sobre o futuro.

A mais antiga memória que tenho do que queria ser quando crescesse, e que foi também a minha primeira, digamos, desilusão profissional remonta à minha infância, quando uma advogada amiga do meu pai me fez a tradicional pergunta “o que queres ser quando fores grande”. Respondi-lhe que queria ir para a Marinha, ao que ela reagiu com um sorriso sarcástico e uma pergunta retórica: “Para a Marinha? Oh, meu querido, só se fosse para a americana!” Nos anos que se seguiram, eu ainda “quis ser” arquitecto, advogado e engenheiro, mas chegados a 1998 eu estava-me perfeitamente nas tintas, ocupado com as minhas leituras e diatribes interiores. Acabei por ir para Ciências da Comunicação quase por acaso e com a mera ambição de trabalhar num jornal — prova tanto da minha excessiva modéstia quanto da insensatez típica da idade.

Hoje, que desejo eu? Pouca coisa, além de ter uma vida pacata e, evidentemente, feliz. Se era isto, a minha professora acertou – e eu sou o que sonhei ser. Mas se aquilo que ela achava que eu deveria ser não passava de um mero reflexo das suas frustrações – nesse caso errou cabalmente.

Agora que penso nisso, a minha professora de Português, alguém de quem eu guardo boas memórias e que, infelizmente, não mais voltei a ver, teria à data a idade que eu tenho agora. Julgando-a à imagem do que eu sinto hoje, ela não seria assim tão sábia.

Que se lixe a sabedoria dos mais velhos.

observações sobre a Rússia [excerto]

Talvez em virtude de séculos de autocracia, de sete décadas de comunismo ou apenas por tratar-se da maior cidade europeia, uma metrópole com perto de 12 milhões de habitantes, Moscovo aparenta ser organizada. Outra coisa, sobejamente diferente, seria afirmar que os russos são organizados — não são. A organização russa precisa de ser regulamentada, imposta, uniformizada. Ao contrário da Dinamarca ou da Alemanha, a organização, a ordem, de Moscovo existe apenas porque a Lei, as forças de segurança, e, em última instância, Vladimir Putin assim o impõem.

As estações do metropolitano são caóticas. Porém, o metro de Moscovo, que recebe cerca de sete milhões de passageiros por dia, com intervalos de comboios entre os 40 segundos, na hora de ponta, ou uns meros dois minutos nos períodos de menor movimento, funciona na perfeição. Para isso é necessário que as entradas e saídas decorram dentro da maior normalidade possível. As escadas rolantes, por exemplo, são escrupulosamente controladas por funcionários enfiados em cubículos de vidro, maioria das vezes uma mulher, com acesso a câmaras de CCTV — pelo que é provavelmente a profissão mais aborrecida do mundo. Tal como em Londres ou Nova Iorque, a circulação nas escadas faz-se pela esquerda. Mas aqui é expressamente proibido, e impossível, devido ao controlo apertado da segurança, ter comportamentos como os que alguns lisboetas têm, como colocar os pés no corrimão ou sentar-se nos degraus das escadas.

Acrescentar que se trata de estações de metro belíssimas é uma perda de tempo – está dito.

[Na imagem, Catedral do Arcanjo, na Praça das Catedrais, Kremlin, Moscovo.]

 

orlando, istambul

sobre os tornozelos sentada / braços cruzados, repousando nas pernas / sorri / os olhos em baixo / tal como nessa manhã do / dia de todas as nossas esperanças / «muitas vezes», sim, «muitas vezes» / cozinha trigo sarraceno polvilhado com paixão e malaguetas / enquanto eu admiro a vida à sua volta / estou absolutamente seguro de que as traças do sótão nos viram a fazer amor / como aquele melro que nos visitou há dias / talvez à espera de encontrar uma migalha / e acabou testemunha da nossa união / neste apartamento com vista para o Nepal / ela é o meu Anapurna e tudo lhe pertence
aqui, minha querida / aqui não somos incomodados / e podemos viver o nosso amor em paz / todos / em português, em inglês, em russo, em hindi / porque nos apaixonamos em línguas estranhas e os nossos poros emanam tolerância
nem todos se podem amar como nós / em orlando / em istambul.

Louva-me mucho

O PSD/Seixal emitiu um comunicado a lamentar a não aprovação por parte da CDU de um voto de louvor. Será certamente impressão minha, mas, com tanto por discutir, esta parece-me matéria de menor, bastante menor, importância.

No fundo qualquer dos votos seria bem atribuído. No caso de Miguel Pina Martins, fundador da empresa Science4You, proposto pelo PSD/Seixal, trata-se de um empreendedor, daqueles a sério, que criam postos de trabalho, o que não deixa de ser uma boa notícia e sinal de inovação por parte de um partido que em tempos teve na dupla constituída por Relvas e por aquele rapaz que nos incentivava a bater punho (!) os grandes paladinos do empreendedorismo. No caso da CDU, que aprovou um voto ao ex-presidente da câmara Eufrázio Filipe, não deixa de ser de louvar o espírito de camaradagem sempre presente no partido com paredes de vidro. O PCP não abandona os seus, não se esquece deles. Embora eu desconfie que Eufrázio Filipe não deva ter-se sentido abandonado durante os anos em que presidiu à Região de Turismo da Costa Azul – organismo em boa hora extinto.

Mas recomecemos: nada disto seria um assunto caso o PSD/Seixal não tivesse emitido um comunicado de imprensa, em modo queixinhas, numa espécie de “vejam como o meu louvor é maior do que o deles”, o que fez com que a notícia chegasse aos meios de comunicação nacionais com interesse em fait divers, vulgo Correio da Manhã. No fundo, o Seixal é apenas notícia por motivos tristes – como agressões de carácter homofóbico em festas partidárias –, ridículos – como a adopção da denominação Lisbon South Bay – e, agora, anedóticos.

Creio que nenhum dos agraciados, o que foi e aquele que não chegou a ser, se sentirá particularmente excitado com o elogio. Os prémios nasceram para serem recusados, coisa que Eufrázio Filipe não fez em Fevereiro quando foi ‘ordenado’ Comendador da Ordem do Mérito por Cavaco Silva, contrariando a máxima de Marx, mas o Groucho, que um dia afirmou “recuso-me a pertencer a um clube que me aceite como sócio”. Está na altura de adaptar o ditado “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és” à realidade do Seixal. Aqui fica uma proposta: mostra-me quem louvas, mostrar-te-ei em quem não votarei.

[Texto escrito, e não publicado por uma questão de agenda, para a coluna Outra Margem, no jornal Comércio do Seixal e Sesimbra.]

Áureo Soares nasceu em Lisboa em 1982. Licenciado em Ciências da Comunicação, estagiou no Correio da Manhã e foi repórter da GQ Portugal entre 2006 e 2014.

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