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Louva-me mucho

O PSD/Seixal emitiu um comunicado a lamentar a não aprovação por parte da CDU de um voto de louvor. Será certamente impressão minha, mas, com tanto por discutir, esta parece-me matéria de menor, bastante menor, importância.

No fundo qualquer dos votos seria bem atribuído. No caso de Miguel Pina Martins, fundador da empresa Science4You, proposto pelo PSD/Seixal, trata-se de um empreendedor, daqueles a sério, que criam postos de trabalho, o que não deixa de ser uma boa notícia e sinal de inovação por parte de um partido que em tempos teve na dupla constituída por Relvas e por aquele rapaz que nos incentivava a bater punho (!) os grandes paladinos do empreendedorismo. No caso da CDU, que aprovou um voto ao ex-presidente da câmara Eufrázio Filipe, não deixa de ser de louvar o espírito de camaradagem sempre presente no partido com paredes de vidro. O PCP não abandona os seus, não se esquece deles. Embora eu desconfie que Eufrázio Filipe não deva ter-se sentido abandonado durante os anos em que presidiu à Região de Turismo da Costa Azul – organismo em boa hora extinto.

Mas recomecemos: nada disto seria um assunto caso o PSD/Seixal não tivesse emitido um comunicado de imprensa, em modo queixinhas, numa espécie de “vejam como o meu louvor é maior do que o deles”, o que fez com que a notícia chegasse aos meios de comunicação nacionais com interesse em fait divers, vulgo Correio da Manhã. No fundo, o Seixal é apenas notícia por motivos tristes – como agressões de carácter homofóbico em festas partidárias –, ridículos – como a adopção da denominação Lisbon South Bay – e, agora, anedóticos.

Creio que nenhum dos agraciados, o que foi e aquele que não chegou a ser, se sentirá particularmente excitado com o elogio. Os prémios nasceram para serem recusados, coisa que Eufrázio Filipe não fez em Fevereiro quando foi ‘ordenado’ Comendador da Ordem do Mérito por Cavaco Silva, contrariando a máxima de Marx, mas o Groucho, que um dia afirmou “recuso-me a pertencer a um clube que me aceite como sócio”. Está na altura de adaptar o ditado “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és” à realidade do Seixal. Aqui fica uma proposta: mostra-me quem louvas, mostrar-te-ei em quem não votarei.

[Texto escrito, e não publicado por uma questão de agenda, para a coluna Outra Margem, no jornal Comércio do Seixal e Sesimbra.]

Festa do Avante: Não há sesta como esta

Dou por mim a bocejar. Quando tiver nas mãos este número do Comércio já terá terminado mais uma edição da Festa do Avante, a que eu não fui. Fui, isso sim, e fruto de uma assinalável falta de discernimento, à de 2014 e posso garantir ao leitor menos esclarecido em termos de comunismo que, se era antes verdade que não havia “festa como esta”, hoje o palco da rentrée política do PCP transformou-se num tédio capaz de aborrecer o mais optimista dos festivaleiros de Verão.

Não me interprete mal. Para efeitos de emoção, antes tínhamos os assaltos, pela entrada contígua à Quinta da Princesa, as cargas da “segurança” e outros predicados impublicáveis que transformavam a Festa do Avante num exercício de masoquismo com alguma piada. Hoje, por muito que o palco central e as barraquinhas de Setúbal ou Beja ainda atraiam os indefectíveis do pê-cê-pê com boinas à Che Guevara e taxa de álcool à Boris Yeltsin, a Festa, que mantém a exigência de um elevado grau de masoquismo, perdeu a graça. Aburguesou-se. O visitante desprevenido desloca-se à Quinta da Atalaia esperando ouvir comentários sobre as políticas de direita do Governo, qualquer que ele seja, e depara-se com o típico “resistente” de Cuba (do Alentejo) a tecer comentários sobre a qualidade do vinho, das bifanas e da feijoada.

Os frequentadores da Festa transformaram-se em críticos gastronómicos. Não é de admirar. Todo o país está agora habitado por food writers, food critics e foodies (perdão) em geral. Um desfile de classe média que se julga esclarecida sobre o “modo de preparação” de caldo verde, sopa da pedra, açordas, feijoadas à trasmontana e francesinhas. As ponchas, os moscatéis e as ginjas já não servem para que os festivaleiros aguentem os discursos do secretário-geral, não; agora são sinónimos de savoir vivre, de estatuto social.

Aqueles que optam por ignorar a comida dedicam-se à crítica musical. Convenhamos que, por € 23, a Festa do Avante é um excelente festival de música para quem aprecia artistas do calibre de Dealema, Expensive Soul ou Txarama (?). É de duvidar que o “povo” saiba quem eles são, mas, uma vez mais, a Festa tem mais classe média com cartão de crédito e dívidas do que proletários ou camponeses calejados.

Antigamente íamos à Festa do Avante para escapar a Lisboa. Agora Lisboa infiltrou-se na Festa do Avante. Aí vem outro bocejo.

[Texto publicado na edição de 4 de Setembro de 2015 do jornal Comércio do Seixal e Sesimbra. PDF aqui: http://content.yudu.com/Library/A3wa2z/Edio291/resources/index.htm?referrerUrl=http%3A%2F%2Ffree.yudu.com%2Fitem%2Fdetails%2F3575783%2FEdi—-o-291 ]

Tuga é o senhor

Um dos problemas dos portugueses é a falta de autoestima. Nos últimos anos, esse fraco amor-próprio é visível pela forma pouco digna com que nos apelidamos uns aos outros de “tugas”.

O termo virou moda. Há cadeias de restaurantes que vendem hambúrgueres tugas, blogues de jovens emigrantes com títulos como “Tuga em Londres”, sites de downloads (ilegais) que adoptam esta designação. No Rio de Janeiro existe um restaurante chamado Bacalhau do Tuga, a mascote da selecção nacional de futebol no Mundial de 2002 levava esta alcunha. E por aí adiante.

Aqui nos eixos Bairro Alto-Cais do Sodré e Chiado-Saldanha-Avenidas Novas é quase chique, dentro de uma certa classe com poder de compra, títulos do tesouro e pouco intelecto, afirmar com um sorriso nos lábios, à passagem por um automóvel mal estacionado: “É mesmo à tuga”.

Que me perdoem, mas falho em ver a piada ou a legitimidade na alcunha. Adoptar a designação de tuga parece-me tão adequado quanto os norte-americanos desatarem a chamar “gringos” – o nome por que são conhecidos quando atravessam a sua fronteira a sul – uns aos outros. Em Inglaterra, os alemães ainda são conhecidos por “krauts”, termo deveras depreciativo e provavelmente originário da palavra “sauerkraut”, ou mesmo por “boches”.

Todas estas alcunhas, criadas pelo “outro”, têm em comum serem originárias da guerra. O mesmo acontece como o vocábulo tuga, termo racista por que eram conhecidos os portugueses durante a guerra do Ultramar, e que visava contrapor ao vocábulo turra, que designava, entre os militares portugueses, os membros das resistências locais.

Parece-me natural e até lógico que estas alcunhas depreciativas existam. É da condição humana. Mas não deixa de ser estranho, e revelador, que nos adjectivemos a nós próprios dessa forma. Da última vez que me chamaram tuga, repeti violentamente o título desta crónica. Não contem comigo para estas bonomias.

[Texto publicado na edição de 7 de Agosto de 2015 do jornal Comércio do Seixal e Sesimbra. PDF aqui: http://content.yudu.com/Library/A3ueqt/Edio290/resources/index.htm?referrerUrl=http%3A%2F%2Ffree.yudu.com%2Fitem%2Fdetails%2F3491564%2FEdi—-o-290 ]

Lisbon south quê?

Portugal é um país de desígnios. Recentemente foi notícia uma brilhante ideia dos autarcas de Seixal, Almada e Barreiro, em colaboração com a empresa pública Baía do Tejo: juntar os três municípios, integrados no Arco Ribeirinho Sul, e chamar-lhes Lisbon South Bay.

Até prova em contrário, o ‘naming’ – são palavras deles – Lisbon South Bay não trará a Google para o Miratejo, não fará surgir start-ups ao lado do Almada Fórum, não transformará a Aroeira nuns Hamptons nem fará do Vale da Amoreira um Brooklyn pronto a acolher lojas de grife, it girls e bandas de rock & roll. Mais do que uma ideia embaraçosa, a Lisbon South Bay parece-me um tiro nos bicos dos pés em que os distintos autarcas se colocaram ao comunicar a sua criação.

Há uns anos, ficou tristemente célebre a campanha West Coast of Europe, com fotografias do senhor Nick Knight pagas a peso de ouro. De resto foi uma campanha liderada pelo ministro Manuel Pinho que, em 2007, apontava para o crescimento de 50% no número de campos de golfe no Algarve, e, em 2010, era comissário da candidatura nacional à Ryder Cup. A campanha Allgarve surgiu em simultâneo e, em tempos mais recentes, a menção ao pastel de nata como possível catalisador das exportações da pátria. Felizmente, todas elas tiveram felizes mortes prematuras.

Lamento que os três autarcas se tenham rendido ao desígnio do turismo, quando dificilmente o Ecomuseu da Arrentela pode atrair mais do que algumas visitas de estudo de escolas do concelho e quando em tudo o resto – do Cristo Rei às praias da Costa da Caparica – a Margem Sul faz já, para todos os efeitos, parte de Lisboa. Para não exigir demasiado, talvez fosse uma boa ideia apostar na indústria, voltar a produzir, contribuir para o aumento de qualidade do comércio, ou, em alternativa, acabar com os bairros de lata. Lisboa – com o turismo de massas, a degradação arquitectónica, o lixo nas ruas, a péssima educação dos residentes – é suficientemente má sozinha. Não se queiram juntar a ela.

[Texto publicado na edição de 17 de Julho de 2015 do jornal Comércio do Seixal e Sesimbra. PDF aqui: http://content.yudu.com/Library/A3sldp/Edio288/resources/index.htm?referrerUrl=http%3A%2F%2Ffree.yudu.com%2Fitem%2Fdetails%2F3410135%2FEdi—-o-288%5D