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o meu vizinho manuel da fonseca

Eu teria uns sete ou oito anos, vivia no Seixal, terra de comunistas austeros, funcionários públicos e trabalhadores da indústria vindos do Alentejo durante o êxodo rural das décadas de 50 e 60.

No meio daquela vizinhança matizada, destacava-se um homem, Manuel da Fonseca, ou o meu vizinho do primeiro-esquerdo, autor dos romances Cerromaior e Seara de Vento, de quem recordo o sorriso amável, pouco comunista.

Natural de Santiago do Cacém, Manuel da Fonseca estudou no Liceu Camões e na Escola de Belas Artes e passou uma parte importante do fim da sua vida – morreria em 1993 – frequentando locais pejados de operários, proscritos e indigentes.

Certa ocasião, eu jogava futebol com os outros meninos, quando o vi chegar, lá ao fundo, subindo a rua íngreme que dava para a praceta onde vivíamos. Acenou na minha direcção. Ciente de que aquela era uma pessoa “importante”, fui ao seu encontro. Ele levou a mão a um dos bolsos e retirou uma moeda de vinte escudos. “Isto é para comprares uma pastilha”. Eu agradeci e continuei o meu jogo até finalmente ir para casa contar aos pais que o Manuel da Fonseca me dera uma moeda.

Anos depois, a sua viúva, observando que eu me interessava por essas coisas da leitura, passou a oferecer-me um livro do marido nos meus aniversários e pelo Natal. E assim li os volumes de crónicas “À Lareira, Nos Fundos da Casa onde o Retorta tem o Café”, “O Vagabundo na Cidade” ou “Crónicas Algarvias” e os contos reunidos em “O Fogo e as Cinzas” ou “Um Anjo no Trapézio”, indispensáveis para quem pretenda conhecer o Alentejo rural e dos tempos da Ditadura e um excelente primeiro contacto com o neo-realismo português, agora que passam 105 anos sobre o nascimento de Manuel da Fonseca.

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a sabedoria dos mais velhos

Nos idos de 1998, com a idade de 16 anos, escrevi um conto intitulado “Um Verão Indiano” para a disciplina de Português. O texto combinava elementos de uma certa estética ou subcultura new age, que chegava a Portugal com mais de uma década de atraso, de onde me inspirei para o título, com as minhas influências musicais e literárias de então – eu ouvia muito The Doors e Velvet Underground, além do típico grunge da década e de alguma música clássica e tinha treslido “Os Versículos Satânicos”, “Assim Falava Zaratustra” e “Utopia”.

Em suma, escrevi um texto de merda.

A minha professora, por ser também directora de turma, estava tão a par dos meus zeros a comportamento quanto da minha capacidade para, com pouco estudo e menos esforço, tirar boas notas, ou as necessárias para passar de ano. Talvez por isso, presumo hoje, ela tenha gostado do meu conto avaliando-o com um Excelente, sem deixar de escrever o seu comentário: “Basta teres vontade e poderás ser tudo o que quiseres”.

Poderiam ter sido palavras proféticas, aquelas, caso eu hoje fosse quem eu desejava ser na altura e, principalmente, caso a minha vontade de ser “alguém” tivesse sido suficiente para que eu cumprisse, por assim dizer, o meu devir. Mas que desejava eu ser, em 1998, ano em que foi fundada a Google, morreu Frank Sinatra e estalou o escândalo Monica Lewinsky?

Quando olho para aquela época apercebo-me de que fui um adolescente teimoso, rebelde, inconformado e que lidava mal com a autoridade. Ou, como qualquer jovem deve ser. Recordo, como exemplo, um certo orgulho que tive em não ter visitado a Expo ’98, que eu entendia como um desperdício de dinheiro, uma perda de tempo e uma sabujice. Ou as minhas reservas quanto a ir ao cinema oriundo — estreava Titanic, um filme de que muitos rapazes se aproveitaram para sacar uns beijos às mais incautas debutantes. Ou a minha teimosia em não frequentar o McDonald’s, tudo exemplos de actividades a que os meus colegas e amigos se dedicavam com frequência e a que eu, felizmente, me poupei.

Em 1998, sabemos hoje, os tempos eram de mudança. O primeiro-ministro, António Guterres, prometia uma ‘paixão pela educação’ e o desenvolvimento sustentável que não houvera nos tempos dos PM Cavaco I, II e III. O presidente da República, Jorge Sampaio, fazia discursos que ninguém entendia. Apareciam os telemóveis e a Internet e o ‘bug’ do milénio assustava os crédulos. A classe média-baixa fazia férias em time-sharing, a classe média comprava segunda casa, a classe baixa estava lixada e a alta preparava-se para lixar os restantes. Eu trabalhava no Verão para comprar uma guitarra eléctrica e lia, lia muito. Assim, o meu sonho teria sido, caso eu tivesse sonhado, ser guitarrista ou escritor. Porém, e em parte devido ao meu crescimento e à minha educação espartana e orientada para lidar bem com o insucesso, nunca fui um grande sonhador. além de que tal ideia nunca me foi apelativa. Tentei sempre ser tão racional quanto possível, eliminando do meu processo mental quaisquer ideias românticas sobre o futuro.

A mais antiga memória que tenho do que queria ser quando crescesse, e que foi também a minha primeira, digamos, desilusão profissional remonta à minha infância, quando uma advogada amiga do meu pai me fez a tradicional pergunta “o que queres ser quando fores grande”. Respondi-lhe que queria ir para a Marinha, ao que ela reagiu com um sorriso sarcástico e uma pergunta retórica: “Para a Marinha? Oh, meu querido, só se fosse para a americana!” Nos anos que se seguiram, eu ainda “quis ser” arquitecto, advogado e engenheiro, mas chegados a 1998 eu estava-me perfeitamente nas tintas, ocupado com as minhas leituras e diatribes interiores. Acabei por ir para Ciências da Comunicação quase por acaso e com a mera ambição de trabalhar num jornal — prova tanto da minha excessiva modéstia quanto da insensatez típica da idade.

Hoje, que desejo eu? Pouca coisa, além de ter uma vida pacata e, evidentemente, feliz. Se era isto, a minha professora acertou – e eu sou o que sonhei ser. Mas se aquilo que ela achava que eu deveria ser não passava de um mero reflexo das suas frustrações – nesse caso errou cabalmente.

Agora que penso nisso, a minha professora de Português, alguém de quem eu guardo boas memórias e que, infelizmente, não mais voltei a ver, teria à data a idade que eu tenho agora. Julgando-a à imagem do que eu sinto hoje, ela não seria assim tão sábia.

Que se lixe a sabedoria dos mais velhos.

ao meu avô

Os dias continuam a passar, lentos, teimando em deixar nada de memorável para trás. As minhas recordações de infância – noites suaves e quentes de Verões felizes, o murmúrio do campo, o vento a bater uma seara, a criança que sou e que brinca na rua, aninhar a cabeça no seu colo, plantar, semear e colher de acordo com as estações – são apenas memórias de um tempo que não volta.

Destes dias, anódinos, nada restará. O mundo e as suas consequências corrompem-nos o espírito e a alma e deixam-nos rastejantes e impotentes. As ruas estão agora cheias de gente que nada tem, mas que foi feliz, um dia. Gente que arrasta os pés e abrigos de cartão. E eu penso em nós dois, e em como conversávamos sobre um passado que eu não vivi mas que conheci pelas suas experiências. E como nos revoltávamos. Os esfomeados sobrevivem. E ainda assim há quem os persiga, extorquindo-lhes uma última gota de suor, uma lágrima final, uma derradeira gota de sangue. Eu continuo com eles, com os indigentes, com os infelizes, cada um à sua maneira – a cada qual a infelicidade nossa de cada dia, amém.

Também eu sou um indigente, um desenraizado, triste e compulsivamente só. Estou com os que buscam Deus no fundo de uma garrafa de vinho, para compensar a perda de um amor, de um filho, de um pai, de uma amizade, de uma conta bancária, de um tecto. Estou em comunhão com eles, como nós dois estivemos um dia.

Não tenho qualidades. Fosse revolucionário e mudaria o mundo. E tudo isto me entristece profundamente e me conduz a um choro inerte e real. E esta minha tristeza é ínfima quando comparada com a dos que nada – nada!, meu Deus – têm. Escrever é fútil, viver é triste. E no entanto, alimento-me desta tristeza para deixar surgir uma frase vã e mundana, e outra, e outra. Não as de todos os dias, inócuas e miseráveis, mas as deste momento, sentidas e tristes, e, tal como eu, simples e fátuas. Isto é tudo e é nada e é apenas o que sei. Porque todos os dias o recordo e raramente lhe escrevo.

Saudade. Para sempre.

[Publicado originalmente a 27 de Janeiro de 2014, no Facebook. Fotografia: “Old Hands”, McCory James, em https://www.flickr.com/photos/mccoryjames/]